Assentamento descoberto no complexo de Stonehenge

Escavações financiadas pela National Geographic nas Muralhas de Durrington, no complexo de Stonehenge, Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO), revelaram um enorme assentamento antigo que no passado abrigou centenas de pessoas. Os arqueólogos acreditam que as casas foram construídas e ocupadas pelos construtores de Stonehenge, o monumento lendário da planície de Salisbury, na Inglaterra, ali perto.

“O levantamento magnetométrico do English Heritage detectou dúzias de lareiras – parece que o vale todo está cheio de casas”, disse o arqueólogo Mike Parker Pearson, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido. “Em construções que já foram casas, escavamos o contorno no piso de camas e de guarda-roupas ou armários de madeira.”

As casas foram datadas com carbono radioativo e localizadas entre os anos de 2600 e 2500 a.C., o mesmo período da construção de Stonehenge – um dos fatos que levou os arqueólogos a concluir que as pessoas que moravam nas casas das Muralhas de Durrington foram as responsáveis pela construção de Stonehenge. As casas formam a maior aldeia neolítica já encontrada na Grã-Bretanha; algumas poucas casas neolíticas semelhantes foram encontradas nas ilhas Orkney, próximas ao litoral da Escócia.

Parker Pearson disse que as descobertas deste período de trabalho em campo ajudam a confirmar a teoria de que Stonehenge não era uma construção isolada, mas sim parte de um complexo religioso bem mais extenso usado para rituais funerários.

As Muralhas de Durrington no complexo são o maior henge conhecido do mundo – trata-se de um cercado com uma parte elevada por fora e uma vala por dentro, geralmente considerado cerimonial. Tem cerca de 425 metros de diâmetro e engloba uma série de anéis concêntricos de enormes mastros de madeira. Apenas pequenas áreas das Muralhas de Durrington, localizadas a cerca de três quilômetros de Stonehenge, mais famoso, foram examinadas por arqueólogos.

Oito dos vestígios de casas foram examinados em setembro de 2006 no Stonehenge Riverside Project, liderado por Parker Pearson e cinco outros arqueólogos da Grã-Bretanha. Seis dos pisos foram encontrados em bom estado de conservação. Cada casa no passado tinha paredes quadradas de cerca de cinco metros com chão de barro e uma lareira no centro. A equipe arqueológica encontrou detritos de 4,6 mil anos espalhados pelo chão, buracos de pilares e fendas que no passado serviram para prender mobília de madeira que se desintegrou há muito tempo.

Em uma outra área dentro da parte oeste do henge de Durrington, Julian Thomas, da Universidade de Manchester, integrante da equipe, descobriu duas outras casas neolíticas, cada uma delas rodeada por uma cerca de madeira e uma vala considerável; pelo menos mais três outras estruturas assim provavelmente existem na mesma área. Isoladas das outras, essas casas podem ter abrigado líderes da comunidade, chefes ou sacerdotes que viviam separados do restante da comunidade, segundo a teoria de Thomas. Ou, devido à ausência quase total de lixo doméstico tipicamente encontrado em casas assim, ele especula que podem ter servido como altares ou casas de culto usadas em rituais, desocupadas, com um fogo sempre queimando lá dentro.

O restante das casas se aglomera de ambos os lados de uma avenida imponente calçada com pedras, com cerca de 27 metros de largura e 170 metros de comprimento, descoberta em 2005 e escavada pela equipe em 2006. A avenida conecta os vestígios de um círculo de madeira colossal com o rio Avon. A existência da avenida, que espelha uma outra existente em Stonehenge, ali perto, indica que pessoas se deslocavam entre os dois monumentos por meio do rio. A descoberta da avenida ajudou a equipe a tirar conclusões a respeito do motivo da existência de todo o complexo de Stonehenge.

Parker Pearson agora acredita que Stonehenge e as muralhas de Durrington tinham conexão importante. Durrington servia para celebrar a vida e depositar os mortos no rio para o transporte na vida após a morte, ao passo que Stonehenge era um memorial e até mesmo local de descanso final para alguns dos mortos. A avenida de Stonehenge, descoberta no século 18, fica alinhada ao nascer do sol do solstício de verão, ao passo que a de Durrington se alinha ao pôr-do-sol do mesmo dia. Da mesma maneira, o círculo de madeira de Durrington se alinhava com o solstício de inverno, ao passo que o gigantesco círculo de pedras de Stonehenge fica enquadrado ao pôr-do-sol do mesmo dia.

Durrington, ele acredita, atraía pessoas de toda a região no Neolítico, que iam até lá para enormes festivais de inverno, quando quantidades prodigiosas de comida eram consumidas. Grandes quantidades de ossos de animais e pedaços de cerâmica, em números jamais encontrados em qualquer outro lugar da Grã-Bretanha na época, atestam esta teoria. O exame de dentes de porco encontrados no local mostrou que os animais tinham cerca de nove meses quando foram mortos, o que sugere que os banquetes aconteciam no solstício de inverno.

Depois do banquete, Parker Pearson teoriza, as pessoas percorriam a avenida para depositar seus mortos no rio Avon, que corre na direção de Stonehenge. Então se deslocavam pela avenida de Stonehenge até o monumento, onde cremavam e enterravam alguns poucos mortos seletos. Stonehenge era um lugar de comunhão com os espíritos dos mortos para essas pessoas que reverenciavam seus ancestrais.

A avenida de Durrington leva até uma colina ao Aldo do rio. “Acredito que lançavam cinzas, ossos humanos e até mesmo corpos inteiros na água, prática registrada em outros rios”, declarou Parker Pearson.

Parker Pearson e Thomas acreditam que as Muralhas de Durrington tenham sido construídas de madeira porque, tanto de maneira simbólica quanto prática, foram feitas deliberadamente para apodrecer gradualmente. Mas pedras foram escolhidas para Stonehenge por ser um monumento perene aos ancestrais.

Durrington parece “ser bem um lugar para os vivos”, disse Parker Pearson. Mas ninguém nunca morou no círculo de pedras em Stonehenge, que foi o maior cemitério de seu tempo na Grã-Bretanha: acredita-se que Stonehenge contenha 250 cremações.

O trabalho conduzido em 2006 por Joshua Pollard, da Universidade de Bristol, em Woodhenge, ali perto, imediatamente ao sul das Muralhas de Durrington, revelou que os postes de madeira originais do interior do henge foram substituídos por mastros de pedra depois de apodrecerem. Investigações simultâneas, conduzidas por Colin Richards, da Universidade de Manchester, em restos de trabalho em pedra a noroeste de Stonehenge ajudaram a preparar o terreno para trabalho futuro ali.

Os diretores do Stonehenge Riverside Project são Mike Parker Pearson (Sheffield), Julian Thomas (Manchester), Joshua Pollard (Bristol), Colin Richards (Manchester), Chris Tilley da University College London e Kate Welham da Universidade de Bournemouth. O projeto é conduzido pelas universidades de Sheffield, Manchester, Bournemouth, Bristol, University College London e Cambridge.

É financiado pela National Geographic Society e pelo Arts & Humanities Research Council, com apoio do English Heritage e da Wessex Archaeology.

Fonte: National Geographic Brasil

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