Pesquisadores criam IA que estuda ressonância de cérebro e diagnóstico não faz feio

A ressonância magnética do cérebro é uma experiência peculiar. Você se deita numa máquina claustrofóbica que parece ter sido projetada por alguém que perdeu uma aposta, passa meia hora ouvindo barulhos que variam entre britadeira industrial e show de música experimental finlandesa, e então sai de lá para esperar. E esperar. E esperar um pouco mais. Dias, às vezes semanas, até que algum radiologista sobrecarregado consiga sentar-se, analisar suas imagens, fazer muxoxo ao descobrir o que você tem na cabeça e emitir um laudo.

Todo mundo (vai, confessa que você também faz isso!) atualmente tá mandando pro ChatGPT analisar, e segundo minhas experiências, tem acertado muito bem… ou, se errou, o médico também errou, porque um confirma o que o outro diz.

Agora, pesquisadores da Universidade de Michigan criaram uma Inteligência Artificial especializada chamada Prima que faz a mesma análise em segundos. Sim: segundos.

O dr. Todd Hollon é neurocirurgião e professor-assistente de Neurocirurgia na Universidade de Michigan. Atualmente, além de atuar como neurocirurgião, ele dirige o Laboratório de Aprendizado de Máquina em Neurocirurgia, um grupo focado na intersecção entre Inteligência Artificial e Medicina. Em sua pesquisa, Hollon apresenta o que a própria equipe chama de ChatGPT para imagens médicas, uma comparação que não é apenas marketing esperto, mas tecnicamente precisa. Prima é um modelo de linguagem visual treinado com mais de 220 mil estudos de ressonância magnética e 5,6 milhões de sequências de imagens do sistema de saúde da Universidade de Michigan.

Para contextualizar a escala, é como se Prima tivesse passado décadas estudando cérebros humanos em todas as suas versões possíveis: tumores, derrames, infecções, lesões congênitas, absorvendo todo esse conhecimento como uma esponja neurológica digital que nunca dorme, nunca se cansa e nunca derrama café nos relatórios.

O resultado alcançado foi uma taxa de precisão diagnóstica de 97,5% em mais de 50 condições neurológicas diferentes. Prima não apenas identifica o que está errado, ela também determina o quão urgente é o problema. Se você está tendo um derrame ou hemorragia cerebral, aquelas situações em que cada segundo conta literalmente, Prima dispara alertas automáticos para os especialistas certos, seja um neurologista de AVC ou um neurocirurgião. É como ter um curador digital que nunca precisa pausar para respirar ou questionar suas escolhas de carreira às três da manhã.

O que torna Prima diferente dos sistemas anteriores de inteligência artificial aplicados à neuroimagem? A abordagem. Modelos antigos eram como estudantes que decoram apenas um capítulo do livro: funcionam bem para tarefas específicas (detectar lesões aqui, prever demência ali), mas são limitados. Prima foi criada para ser diferente.

Os pesquisadores alimentaram o sistema com literalmente todos os exames de ressonância magnética digitalizados desde que o hospital começou a digitalizar seus registros radiológicos, incluindo também os históricos clínicos dos pacientes e as razões pelas quais cada médico solicitou cada exame. Prima funciona como um radiologista de verdade, integrando contexto clínico, histórico do paciente e todas as sequências de imagens para formar uma compreensão completa da situação.

Durante um ano inteiro, Prima foi testada em mais de 30 mil estudos de ressonância magnética em condições reais de uso hospitalar. Não foi um teste de laboratório com dados selecionados a dedo, foi o mundo real, caótico e imprevisível, com todas as suas variações de protocolos, equipamentos e condições clínicas. Prima não apenas superou outros modelos de Inteligência Artificial de ponta em desempenho diagnóstico, como também demonstrou capacidade de priorizar casos, determinando quais pacientes precisam de atenção médica imediata. É IA onde ninguém foi: aumentando a capacidade humana sem tentar fazer cosplay de médico.

O futuro? Os pesquisadores querem incorporar mais dados de prontuários eletrônicos e informações detalhadas dos pacientes para melhorar ainda mais a precisão diagnóstica, espelhando cada vez mais como radiologistas e médicos realmente trabalham em ambientes clínicos. Hollon também acredita que a tecnologia por trás de Prima pode ser adaptada para outros tipos de imagem médica: mamografias, raios-X de tórax, ultrassons. É a promessa de democratizar diagnósticos de alta qualidade, tornando expertise de ponta acessível em qualquer lugar com uma máquina de ressonância e conexão à internet.

Enquanto debatemos os limites éticos da IA, Prima está lá, lendo cérebros mais rápido que qualquer humano jamais conseguiu, provando que às vezes a ficção científica se torna realidade antes mesmo que a gente termine de entender completamente suas implicações. E tudo isso no tempo que você leva para tomar um gole de café.

A pesquisa foi publicada no periódico Nature Biomedical Engineering.

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