
Normalmente, as pessoas acham que a grande frase que caracteriza a capacidade humana de inventar, buscar a diferença, pensar fora da curva, seria “Eureka!”. Eu, pelo contrário, acho que a grande frase é “não seria maneiro se…”. Vejam só: “Não seria maneiro se a gente colocasse esses troncos lado-a-lado para deslizar coisas pesadas mais facilmente?”; “não seria maneiro se a gente cortasse essa pedra no feitio do tronco?”; “não seria maneiro se misturasse enxofre, carvão e salitre?”; “não seria maneiro se a gente metesse o focinho no álcool, prendesse uma lança numa bicicleta e tentássemos nos matar uns aos outros, mas de mentirinha? Seria maneiro, né?”
Estamos em London Fields, um parque no bairro de Hackney, zona leste de Londres, onde centenas de pessoas entediadas se juntaram para assistir a um duelo medieval. Os combatentes: o artista Jack Carden e o ator Camtholomew the First (sim, esse é o nome, e não, não vou fazer perguntas). Os corcéis: bicicletas elétricas de aluguel da Lime, aquelas verde-berrante que o cidadão comum usa para chegar ao trabalho com a saúde em dia, mas a dignidade, não.
Estamos falando de ingleses e eles levam justas a sério! As armaduras eram completas, com cota de malha e tudo, e as lanças vinham no kit. Faltou só o arauto anunciando os competidores, mas a plateia deu conta do recado.
Carden havia anunciado o evento nas redes sociais como uma “justa pública gratuita e de qualidade”, classificada por ele como “arte performática”. E aqui cabe uma reverência: durante séculos, a nobreza europeia precisou de cavalos de guerra caríssimos, torneios patrocinados e ferreiros especializados para se espetar com dignidade. Hoje basta um aplicativo e um desbloqueio por QR code. A democratização do ferimento cavaleiresco finalmente chegou!
A multidão animada estava entoando “joust, joust, joust” (justa, justa, justa), no mesmo tom de quem já viu coisa pior e quer ver mais; deve ser porque o campeonato de rugby anda meio Nutella, vai saber! Foi dada a largada (ou sei lá como costumam chamar, e nem me importo), os dois Zés começaram a pedalar até que um dos homens cai da bicicleta depois de levar uma espetada. Fim de duelo, início da fama: o vídeo no Instagram de Carden passou de quatro milhões de visualizações. Quatro milhões! Tem filme de superprodução que não chega lá, e olha que a trama aqui é basicamente “homem de lata cai de bicicleta”.
A história, aliás, tem tradição. A justa nasceu como treino de guerra, virou espetáculo de corte, e volta e meia terminava em tragédia, como no caso do rei Henrique II da França, que em 1559 levou uma lasca de lança no olho durante um torneio e não sobreviveu para contar se ele achou que valeu a pena. Dom Quixote já tinha avisado do perigo de confundir gigantes com moinhos, e o Monty Python se encarregou de nos ensinar a rir da coisa toda. Faltava, até agora, o capítulo em que o cavaleiro tem de lembrar de estacionar o veículo no lugar certo.
Quem entrou em cena para estragar a festa, como sempre, foi o Departamento de Comunicação da empresa. A Lime se pronunciou na segunda-feira com o texto de quem leu três manuais de gestão de crise e resolveu aplicar todos de uma vez.
Primeiro, o elogio: “Adoramos ver os londrinos se reunindo e construindo um senso de comunidade de maneiras inesperadas”. Depois, o tapinha: “Embora apreciemos o espírito medieval, a segurança deve vir sempre em primeiro lugar”. E, por fim, a obviedade que alguém foi pago para escrever: as bicicletas são projetadas para circular pela cidade, “não para justas”.
A empresa ainda desencoraja qualquer pessoa de tentar eventos semelhantes, para manter ciclistas e quem estiver por perto em segurança. Imagino a reunião interna, com um executivo anotando no quadro, muito sério, a frase “item 14: reforçar que o produto não é arma de torneio”.
O detalhe mais saboroso é o contexto. Os hospitais vêm registrando aumento de lesões envolvendo bicicletas elétricas, tanto entre ciclistas quanto entre pedestres. Ou seja, o veículo já fazia vítimas sem armadura, sem lança e sem plateia gritando. Agora, temos a versão premium, com cota de malha, o que, convenhamos, é a única parte do pacote que oferece alguma proteção.
Moral da história: a Idade Média durou mil anos e acabou por falta de cavalos, de reis e de paciência. Voltou em uma tarde de domingo, em Hackney, por falta de coisa melhor para fazer. Se a humanidade quiser sobreviver ao próximo torneio, convém lembrar do aviso da empresa: Não faça da bicicleta uma arma de justas; a vítima poderá ser você!
