
Nas profundas profundezas, ocorre um tipo de tragédia que acontece em câmera lenta e que quase ninguém vê com o drama que merece: o branqueamento dos corais. Quando a água esquenta além do que o bicho aguenta, ele expulsa as microalgas que moram em seus tecidos e que lhe fornecem a maior parte da energia. Sem elas, o coral fica branco como um fantasma e passa fome. Muitas vezes morre, soterrado por algas oportunistas que aparecem para o velório e ficam com o imóvel.
Recuperar-se disso é possível, mas lento. Os sobreviventes dependem de algumas algas remanescentes que se multipliquem, ou de captar as que flutuam pela água e pelos sedimentos, em quantidades minúsculas. Tudo isso leva meses. Para um coral em crise, é como esperar o Bolsa Família chegar de pombo-correio. Pois, bem, cientistas acabam de descrever um atalho tão simples que quase soa como piada: encostar o coral doente num saudável.
O dr. Stephen Palumbi é biólogo marinho da Universidade Stanford, professor de Ciências Marinhas e diretor da Estação Marinha Hopkins, em Pacific Grove, na Califórnia. Como não sei se ele entende alguma coisa de lógica, não posso afirmar que ele tenha aquário em casa. Palumbi passou a carreira investigando a genética de organismos marinhos, de baleias vendidas em mercados a corais resistentes ao calor em Samoa Americana e Palau, e ainda escreveu livros para o público leigo.
Como toda boa descoberta, esta começou com um acidente. Um pedaço de coral, branqueado de propósito para outro experimento, foi parar encostado num pedaço saudável da mesma colônia. Palumbi reparou que o branquelo voltava a ficar marrom-esverdeado, sinal de que as algas estavam de volta. Na mesma época, o doutorando Danny Collins investigava, em outro laboratório de Stanford, se seria possível entregar algas aos corais por contato com algum tipo de substância. Ao ouvir a história, ele montou uma série de experimentos.
O modelo foi o coral-couve-flor (Pocillopora damicornis). Fragmentos do tamanho de uma ponta de dedo (1 a 1,5 cm) foram branqueados em água quente e colocados em contato com pedaços saudáveis, da mesma colônia ou de outra. Os branqueados que não encostaram em ninguém foram cobertos por algas e morreram. Já os que tocaram um parente genético se recuperaram, e o mecanismo é de uma elegância um pouco bizarra: os tecidos dos dois pedaços se fundem e formam uma “rodovia de algas”. Por ali, as microalgas passam do saudável ao doente.
A fusão ocorre entre 36 e 60 horas após o contato, e a velocidade da recuperação chama a atenção. Os fragmentos branqueados tinham perdido de 99,9% a 100% das algas, e em 12 dias já estavam com cerca de 70% da densidade dos vizinhos saudáveis. Nos seis primeiros dias, as algas dobravam de número a cada 18 horas, aproximadamente. Depois, o ritmo caía para cerca de 4 dias, ainda até 10 vezes mais rápido que nos recifes. Uma semana de contato bastava para a recuperação completa; e, o mais prático, o coral saudável pode ser retirado depois disso, porque as algas já estão se multiplicando sozinhas lá dentro.
Em até 3 dias já iniciavam o processo (embora esses fragmentos acabassem soterrados por algas). Um dia só não serviu para nada. Ao separar os pares, os cientistas encontraram rasgos nos mesmos pontos de ambos os pedaços, as pontes de tecido desfeitas. Todos os corais em contato se recuperaram em até 8 semanas, um deles em apenas 4.
E o que acontece quando o parceiro é de outra colônia? Os pólipos disparam filamentos urticantes, como quem enfrenta um invasor, e o coral saudável acaba engolindo o fragilizado. Os autores comparam à rejeição de um órgão transplantado de um estranho. Fusão, afinal, é como no Dragon Ball: só funciona com parceiros compatíveis, e os desajustados terminam em desastre.
Antes de sair mergulhando com um balde de corais saudáveis, convém moderação. O trabalho foi feito em aquário, com fragmentos pequenos, e ninguém sabe se funciona em escala de recife. Essencialmente, não dá para tratar cada colônia dessa forma, e que reinserir as mesmas algas deixa o coral igualmente vulnerável à próxima onda de calor. Fiorenza Micheli, coautora e orientadora de Collins, resume o ponto com a frieza de quem já viu muitos “casos perdidos”: corais branqueados costumam ser descartados porque a recuperação natural demora demais ou simplesmente não chega.
sse atalho pelo menos oferece uma janela para manter as colônias vivas tempo suficiente para os processos mais lentos – crescimento, reprodução, recrutamento – fazerem o resto. Um segundo estudo, liderado por Bede Johnston, do Instituto Australiano de Ciências Marinhas, tenta contornar o problema com algas criadas em laboratório para tolerar altas temperaturas, e que também passaram aos vizinhos por contato. O próprio Palumbi sonha em ver “100 pequenos experimentos” em busca de um jeito inteligente de fazer isso acontecer, algo como um “enema de simbiontes”.
Moral da história: na natureza, assim como na política, é bom ter parentes bem-posicionados.
A pesquisa foi publicada no periódico Science Advances.

