
Eu vi uma notícia na CNN, cuja manchete é “Coliseu reabre em Roma após fechar por dias por morte de funcionário”, e pensei sarcasticamente “Se um romano do século I visse isso, acharia estranho e lhe perguntaria “mas não é para isso que foi construído?”, então, comecei a divagar a respeito e cheguei a algumas conclusões que eu já tive antes, mas por outras vias. Óbvio, você que está achando esquisito, mas é assim que começam meus pensamentos.
Ao longo dos séculos, o Coliseu fala muito mais aos nossos ouvidos do que possamos entender, e quando falo “entender” não é bem entender o Coliseu, mas sim o mundo hoje. Aliás, corrijo-me: entendendo o coliseu, entende-se o mundo hoje, mas… eu sei. Está confuso! Acompanhe meu raciocínio.
Tudo começa com Nero e sua Domus Aurea. Nero construiu com uma suntuosidade incrível, mas ele acabou caindo em desgraça, foi condenado a se matar e Vespasiano assume a púrpura imperial. Em seguida manda soterrar o palácio formidável de Nero e ordenou que se aplainasse o terreno. Vespasiano apaga toda a construção de Nero, elimina tudo e o povo esquece um déspota e saúda outro, pois, Imperator morto, Imperator posto. Vida longa ao Imperator!
Naquele lugar é erguido o Anfiteatro Flaviano, uma construção mais grandiosa e colossal (e por isso a alcunha “Coliseu”) até então, mas o objetivo ali era bem outro. Sua função era esfregar o sistema de hierarquia social na cara de todo mundo, sendo o lugar de imperador um lugar de destaque, enquanto mulheres e escravos ficavam bem longe, escondidos. Era a cimentação do Poder Imperial e estratificação bem definidas, e assim foi por longos e longos e longos anos.
Mas tudo acaba e os impérios ruem. O Coliseu virou templo, igreja e, por fim, pedreira. As pessoas olhavam aquela construção magnífica e davam de ombros. Era apenas uma pilha de pedras.
Aqui entra a necessidade. A realidade de quem sai para trabalhar cedo não é a de quem tem tempo sobrando para se importar com nulidades. Pensem no povão italiano diante daquele troço imenso. Uma obra titânica e… ops, tenho que plantar. Preciso de onde morar, preciso de material e… ei, aquilo lá está cheio de pedras!
Ninguém parou para celebrar o mármore mais fino, o calcário mais branco. Tudo aquilo era pedra. A importância que as coisas têm é a importância que alguém dá a elas. O camponês não ia vender aquele mármore como mármore, ninguém compraria. Como material de construção, era uma dádiva.
O que é tesouro para uns, para outros é ferramenta. As joias que você guarda são minerais. O ouro, para os incas, era tão comum que não carregava o valor que os europeus lhe atribuíram. Traduza isso para as redes e a descoberta é indigesta: você não é o centro do mundo, e o que lhe parece urgente quase nunca é urgente para o restante da humanidade.
O trabalhador passa o dia inteiro fora. Quando finalmente olha o celular, o que encontra não é o debate: é o corte. Quinze segundos de áudio, um vídeo recortado no grito, uma frase sem o que veio antes nem o que veio depois, alguma animação feita por IA falando algo que ele não está entendendo e nem se interessa. À primeira vista soa monumental, um Coliseu de indignação. Visto de perto, é pedra solta. Não muda a conta, o ponto, o jantar. Quem fez o corte estava desocupado o bastante para lapidar o fragmento, visando unicamente naquilo se espalhar e ele lucrar com a monetização; quem assiste só quer chegar em casa.
O Coliseu ainda está de pé porque, em algum momento, voltou a servir a um interesse maior do que o da pedreira. Até lá, foi só material empilhado. Com as opiniões é a mesma conta: sobrevivem as que alguém decide conservar; o resto é corte sem importância, empilhado no feed, invisível para quem passou o dia inteiro construindo a própria vida. A realidade continua sendo muita gente tentando sobreviver, e uma minoria convencida de que o mundo deveria parar diante do seu punhado de pedras.
