Evento chocante mata um boi e promove revolta da população (Índia, claro!)

Cá estava eu pensando triste que não havia nada de interessante na terra de Nosso Senhor Sidartão, o Budão. Claro, Índia sendo Índia, era uma questão de esperar muito (2 dias) que eles fariam o favor de aparecer com alguma coisa… digamos… digna de Índia. Eu recitei uns mantras, acendi um incenso, arriei um despacho na encruzilhada com açafrão e curry pro Deus Jotalhão, e eis que ele me iluminou com a notícia de um boi que passou por um momento chocante e passou dessa pra melhor, indo dar um rolê pelos círculos cármicos. Sendo animal sagrado, os moradores resolveram sentar a porrada no perpetrador disso: um monte de fios de eletricidade.

Tenho certeza de que, em algum lugar do universo, uma versão Onisciente e Onipotente dos Irmãos Zucker está tomando notas, porque tem coisas que só a Índia faz por você.

Na aldeia de Pondi Kala, no distrito de Shahdol, em Madhya Pradesh (não é Uttar Pradesh, mas é tudo “Pradesh”), um boi resolveu passar pelo lugar errado na hora errada e recebeu, sem pedir, uma descarga elétrica cortesia de um fio velho e mal remendado do transformador local que faria as instalações eletrétricas felinas da Favela da Rocinha algo como se fosse projetado pelo melhor dos engenheiros eletricistas, aqueles que mexem com força.

O fio cheio de remendos se rompeu e caiu justamente sobre o boinécio. Vale registrar que jornaleiro é jornaleiro em qualquer parte do mundo, praticamente toda a imprensa internacional generalizou o bicho para “vaca”. As fontes locais, como o Bhaskar, são bem específicas: era um बैल, um boi. E não, boi e touro não são sinônimos por mero capricho vocabular: touro é o macho inteiro, boi é o touro que, digamos assim, sofreu uma grande decepção na vida e nunca mais foi o mesmo.

Ou seja, o pobre coitado já tinha superado uma perda considerável antes de encontrar o fio errado no dia errado. Karma cruel, esse.

E sentado numa flor de Lótus, rodeado de apsaras, chega ele, o parêntese!

Existe uma questão teológica aqui, porque para entender a fúria da multidão é preciso lembrar que, na Índia, bovinos não são só animais de estimação rural com cara de paciência infinita (paciência que, no caso do boi, já vinha sendo testada havia algum tempo). Vacas e touros ocupam um lugar sagrado no hinduísmo, a vaca associada à deusa Kamadhenu, o touro a Nandi, montaria do próprio Shiva, e protegidos por leis que, em vários estados, tornam o abate um crime mais grave do que boa parte dos delitos contra gente.

Saindo saltitando pelo Nirvana, passando suas muitas mãos na bunda de Vishnu, vai se embora ele, o parêntese!

ÉW triste, eu sei, mas um boi castrado e desbolado talvez tenha perdido a majestade taurina, mas continua sagrado o suficiente para provocar um motim. Ou seja: mexer com um bovino por lá, inteiro ou não, é como brincar de pegar a rainha no tabuleiro, só que sem a cortesia do xeque-mate, direto para a confusão generalizada. Lahur Sessa not amused, my friend!

Assim que o boinécio caiu fulminado, moradores enfurecidos concluíram, com uma lógica impecável de quem já estava cansado de reclamar em vão da rede elétrica precária, que a melhor resposta para um fio arrebentado era dar uma sova no transformador inteiro. Armados com paus e o que mais estivesse à mão, atacaram o equipamento e os postes vizinhos com o entusiasmo de quem finalmente encontrou um culpado tangível para anos de infraestrutura capenga. O transformador, coitado, não tinha para onde correr, e a vizinhança inteira ficou sem luz, pagando coletivamente pela raiva de um crime que, tecnicamente, foi cometido por um fio mal-conservado que ninguém trocou a tempo.

Há algo profundamente simbólico nisso tudo, do tipo que renderia uma boa tese de antropologia. Um país que consegue lançar sondas para Marte mantém trechos de rede elétrica tão precários que se tornam armadilhas mortais para o gado que caminha livremente pelas ruas, e cuja resposta institucional padrão a essa negligência crônica é vandalismo seguido de promessas vagas de conserto.

O transformador de Shahdol não fez nada além de estar mal conservado, o que, convenhamos, o coloca em excelente companhia entre boa parte da administração pública mundial, mas foi ele quem pagou a conta com pauladas, depois de já ter arruinado a vida de um boi que, convenhamos, já não tinha lá muito mais a perder.

No fim, o boi sagrado segue sagrado (postumamente, e apesar de tudo que já havia perdido em vida), o transformador continua profano e condenado à reforma, e a única lição prática que sobra para os próximos episódios dessa saga é simples: na Índia rural, antes de confiar em qualquer poste, é bom rezar. De preferência, para a divindade certa, e torcendo para nunca virar boi.


Fontes: Bhaskar

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