
Muito bem, eu sei que quando falo “Thor” você pensa no sujeito de cabelo esvoaçante, corpo de capa de revista e cara de quem acabou de sair de um comercial da L’Oreal Paris. Esse Thor loiro, filosófico, cheio de tiradas espirituosas para trocar farpas com Loki e amadurecer emocionalmente a cada filme, é uma invenção relativamente recente, no modo Disvel de infantilizar personagens; uma limpeza de imagem digna de agência de relações públicas, aplicada a uma divindade que, na mitologia nórdica original, tinha o QI equivalente ao de um martelo e a sutileza de uma britadeira pneumática.
O Thor de verdade, o dos poemas em nórdico antigo e das sagas islandesas, não vencia ninguém na base da conversa, tentando resolver tudo no músculo (e também nem sempre vencia… aliás, na maioria das vezes ele realmente tomava na cabeça). Este Thor, quando raramente vencia as coisas, era na base da porrada, mas a realidade (falar “realidade” numa história mitológica soa esquisito, eu sei) Thor Odinson simplesmente perdia feio, e voltava para casa resmungando com o orgulho arranhado.
E aqui está a parte curiosa da história. Os próprios filmes da Marvel, sem perceber ou talvez percebendo muito bem, deixam escapar esse traço original com uma regularidade quase cômica, em que a pergunta que qualquer espectador atento acaba fazendo é “esse cara não cansa de cair sempre no mesmo golpe?”. Isso foi até piada no próprio filme dos Avengeiros (o primeiro, que é o melhor filme dos Avengeiros). Vamos dar uma olhada no que diz uma das histórias mais famosas de Thor, o Burrão do Trovão.
Certa feita, Thor faz uma visita o castelo de Utgard, comandado pelo gigante Útgarða-Loki, e antes que você veja o óbvio e pergunte o óbvio, responderei o não-tão-óbvio: esse gigante não é o Loki, o Deus da Trapaça. É outro sujeito, também um mestre da ilusão que emprestou o nome do deus trapaceiro como quem empresta um apelido de categoria profissional.
Nos idiomas nórdicos antigos, “Loki” funcionava menos como nome próprio e mais como título de ofício, algo como “o Emaranhador” ou “Aquele Que Faz Nós e Trapaças”, aplicável a qualquer criatura com talento reconhecido para enganar os outros. Freyr era “Senhor”. Freyja era “Senhora”. Loki era, ao que tudo indica, apenas “O Trapaceiro” que de tanto ser usado virou substantivo próprio. Então, sim, dois personagens completamente diferentes acabaram dividindo o mesmo crachá de identificação.
O desafio zero, antes mesmo de chegar
A burrice de Thor, para ser justo com a mitologia, começa antes de qualquer prova oficial. No caminho para Utgard, o grupo cruza com um gigante enorme chamado Skrýmir, que se oferece educadamente para guiá-los até o castelo. À noite, o gigante dorme roncando alto o suficiente para incomodar qualquer viajante, e Thor, irritado com o barulho, resolve resolver o problema do jeito que resolve tudo: na base do martelo.
Thor acerta Skrýmir três vezes durante a noite com Mjölnir, cada golpe mais forte que o anterior, o tipo de martelada capaz de derrubar uma montanha. O gigante acorda a cada pancada e comenta, displicente, que caiu uma folha na cabeça dele, ou que uma bolota de carvalho o incomodou durante o sono. Thor, o Deus Bundão, dono do martelo mais temido de toda a mitologia nórdica, não conseguiu nem perturbar direito a soneca do sujeito.
O que ele não sabia, obviamente, é que Skrymir era o próprio Útgarða-Loki disfarçado, usando magia para erguer uma proteção invisível sobre a própria cabeça, desviando cada golpe de Thor para o chão ao lado, abrindo crateras tão profundas que mais tarde seriam confundidas com vales naturais da paisagem. Ou seja, antes mesmo de pisar no castelo e enfrentar as três provas humilhantes, Thor já tinha sido enganado pelo mesmo gigante disfarçado, gastando a força toda numa tentativa de homicídio que não arranhou nem o cabelo do alvo.
Thor chegou em Utgard exatamente como chega em toda situação de sua existência mitológica: confiante, cheio de si, sem noção nenhuma de que estava prestes a ser ridicularizado por uma corte inteira de gigantes que já tinham visto esse filme antes e sabiam exatamente como terminava. O rei propôs três provas disfarçadas de brincadeira infantil, e o Deus Burraldo, incapaz de reconhecer uma armadilha óbvia, mesmo quando ela vinha com placa luminosa escrito “ARMADILHA”, topou tudo sem pensar duas vezes. Pensar duas vezes, aliás, nunca foi bem o forte dele… aliás, nem pensar uma única vez.
O desafio do chifre
A primeira prova era beber de um gole só o conteúdo de um chifre comprido, cheio até a boca. Thor bebeu como quem bebe para impressionar a mesa toda, três golões homéricos, o tipo de gole capaz de assustar até um viking experiente. Viu o nível do líquido baixar uns centímetros patéticos e sentiu, ali mesmo, o gosto amargo do primeiro fracasso da noite. O que ele não sabia é que a outra ponta do chifre estava secretamente ligada ao oceano, e que seus goles monumentais tinham acabado de rebaixar o nível dos mares do planeta inteiro, criando o que chamamos de “maré baixa”, mas foi de uma forma tão exagerada que quase secou os oceanos.
O desafio do gato
A segunda prova era levantar do chão o gato de estimação do anfitrião, tarefa de nível criança de cinco anos aos olhos de qualquer visitante desavisado. Thor, o Senhor dos Bodes (não é deboche, ele realmente tinha este título) usou tudo que tinha de força bruta, o rosto vermelho de esforço, os músculos tensos ao extremo, e conseguiu, no limite absoluto de suas capacidades, tirar apenas uma única pata do bicho do chão, causando uma frustração total. O que ele não sabia, porque óbvio que não sabia, é que aquele “gato” era na verdade Jörmungandr, a Serpente do Mundo, criatura grande o bastante para dar a volta completa no planeta segurando os oceanos com o próprio corpo.
Erguer uma única pata daquilo (sim, a serpente tinha patas… não vou discutir com mitos) já era, tecnicamente falando, um feito capaz de desestabilizar a Existência inteira… e ele quase fez isso! Mas Thor, ocupado demais se sentindo fraco e envergonhado, não fazia a menor ideia da bomba que quase tinha detonado com as próprias mãos.
O desafio da velha
A terceira prova foi a mais humilhante de todas, uma luta corpo a corpo contra Elli, uma velhinha curvada, franzina, aparentemente incapaz de vencer sequer uma partida de dominó, quanto mais o deus mais forte de Asgard. Quanto mais Thor investia força contra ela, mais firme e inabalável a anciã ficava, até finalmente forçá-lo a ajoelhar diante de todo o salão. O que ele não sabia, claro, é que Elli era o Tempo, a própria Velhice personificada em forma humana disfarçada. Nenhum músculo do Universo, por mais avantajado que seja, seria capaz de vencer essa luta específica. Cair apenas de joelhos, sem tombar de vez, já foi tratado pelos próprios gigantes como uma proeza monstruosa de resistência, quase um elogio disfarçado de derrota.
Por fim, o fim
Quando chegou a hora da despedida, Útgarða-Loki não se contentou em desmanchar apenas as três ilusões do castelo. Ele resolveu confessar tudo de uma vez, num monólogo que é basicamente um gigante dizendo “eu estive te enganando o tempo inteiro, em cada etapa, e você não percebeu absolutamente nada”. Foi ele quem se disfarçou de Skrýmir na estrada. Foi ele quem desviou as três marteladas de Mjölnir com magia, golpes que, sem a proteção, teriam destruído o próprio castelo e provavelmente o gigante junto. Foi ele quem ligou o chifre ao oceano, transformou a Serpente do Mundo em gato doméstico e vestiu o Tempo com roupa de ama de criação. Quatro vezes que Thor foi enganado de forma ridícula.
O salão inteiro de gigantes ficou em silêncio apavorado com a revelação. Não porque Thor tivesse vencido alguma coisa, longe disso, mas porque um sujeito burro o bastante para não perceber ilusão nenhuma tinha, ainda assim, quase destruído o mundo por acidente múltiplas vezes em uma única viagem. O rei, prudente e visivelmente assustado com o que quase tinha provocado, desmanchou o castelo mágico ali mesmo e pediu, com toda a educação possível, que aquele deus específico nunca mais voltasse a visitar suas terras.
Há mais de mil anos, desde as sagas islandesas, se faz a mesma pergunta:
A Marvel só pegou um deus estruturalmente incapaz de desconfiar de qualquer coisa – com apenas músculos e nenhum cérebro – e vestiu ele com um blazer de couro e um roteiro de comédia romântica fraterna. A essência, essa continua intacta: força de sobra, discernimento zero, e uma capacidade admirável de sair perdendo com estilo mesmo quando o mundo inteiro está prestes a desabar por culpa da própria ingenuidade.
Tem até uma edição da Marvel sobre este desafio: Mighty Thor Vol. 1 número272 – junho de 1978.

E teve a vez que Thor se vestiu com vestido de noiva, mas isso fica pra outro dia.

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