Influenceiro debocha de mortes em incêndio e vai em cana

Existe um tipo especial de patologia humana que só floresceu plenamente na era digital: a necessidade visceral de transformar absolutamente tudo – até e principalmente tragédias – em conteúdo. Outra tragédia é a figura da desgraça chamada “Influencers”. Esta ralé lucra com as coisas mais absurdas, ainda mais quando são escrotas, apelam pro ragebait, ou nem precisam de ragebait porque são escrotas mesmo.

Nosso “herói” de hoje é um babaca chamado Kenny Chan, 26 anos, cidadão chinês e autoproclamado “Rei de Kowloon”, acaba de nos presentear com um doutorado honorário em retardo mental. Sim, o desgraçado é jovem, o que é pouco como justificativa mas mais do que suficiente como explicação.

Tudo começa com um incêndio no complexo residencial Wang Fuk Court, em Tai Po (o segundo maior distrito administrativo de Hong Kong). Em 26 de novembro de 2025, por volta de 14h51min, hora local, o Corpo de Bombeiros recebeu o primeiro chamado. O incêndio se alastrou rapidamente pelas sete das oito torres do complexo devido ao andaime de bambu e às redes de proteção altamente inflamáveis que cobriam os prédios durante as obras de reforma.

Este foi o incêndio mais letal da história moderna de Hong Kong. Sete dos oito blocos do complexo foram consumidos pelas chamas durante mais de 48 horas, enquanto mais de 800 bombeiros lutavam contra um Inferno. Todo o material altamente inflamável fez daquilo a tempestade perfeita de negligência, ganância e incompetência que matou desde um bebê de um ano até uma senhora de 97. Entre as vítimas, um bombeiro de 37 anos que perdeu contato com seus colegas meia hora depois de chegar à cena.

Enquanto 159 pessoas morriam carbonizadas, o jovem maldito decidiu que aquele era o cenário perfeito para umas selfies descontraídas e live com títulos como “Tai Po Fire”, sinal de “V” com os dedos e alguns comentários edificantes do tipo “são pecadores” e “não merecem simpatia”.

Este verme é membro da “White Card Alliance”, uma espécie de fraternidade do absurdo onde o objetivo é “ultrapassar limites” e fazer da transgressão uma marca registrada. Traduzindo: é um clube de retardados que descobriu que pode ganhar views fazendo coisas deploráveis e decidiu transformar isso em estilo de vida.

O currículo do grupo inclui ameaças com lâminas de barbear enviadas para outros criadores de conteúdo, vandalismo do túmulo do falecido cantor Wong Ka Kui, agressões a policiais e jornalistas, e o clássico assédio em transportes públicos filmado para a posteridade. Kenny, por sua vez, já havia sido preso em setembro por roubar um gato de um templo durante o tufão Mangkhut e por furtar comida de outras pessoas em restaurantes fast-food.


os próprios

Só que desta vez este animal sem rabo já está em cana, vendo sua imbecilidade nascer quadrada com a acusação de sedição, e a perspectiva de sete anos refletindo sobre suas escolhas de carreira. Spoiler: vale cada segundo da pena, mas não duvido que ele continue sendo o mesmo ser abjeto de sempre.

A prisão de Kenny pela Polícia de Segurança Nacional de Hong Kong, apenas quatro dias após o incêndio, foi recebida com uma onda de alívio e fúria contida. A acusação de “ato com intenção sediciosa” está sendo amplamente usada com rigor pelas autoridades hongkonguesas (seui lá qual o gentílico. E estou com preguiça de procurar) desde 2020.

Como sempre tem um porém, aqui entra um paradoxo interessante: o influenceiro maldito merece tudo de ruim que vier, mas a mesma lei que o prendeu também deteve pelo menos outros três ativistas por crimes bem menos óbvios, incluindo um estudante de 24 anos que lançou uma petição pedindo investigação independente sobre o incêndio e revisão da supervisão de construções. A petição acumulou 10 mil assinaturas antes de ser deletada. Ou seja, estamos num território onde a justiça acerta o alvo ocasionalmente, mas erra o contexto com frequência preocupante.

Enquanto isso, as investigações revelam uma cadeia de responsabilidades que faria Kafka se sentir em casa. Quinze pessoas foram presas, incluindo três executivos de construtoras por homicídio culposo devido a “negligência grosseira”, seis funcionários que desativaram alarmes de incêndio durante a manutenção (porque quem precisa de alarmes em prédios de 31 andares cheios de material inflamável?), e autoridades estão investigando até o centro de inspeção chinês que certificou as redes de segurança.

O complexo Wang Fuk Court, construído em 1983, estava em reforma desde janeiro de 2024, um projeto de 330 milhões de dólares de Hong Kong que levou oito anos para sair do papel e estava programado para terminar em 2026. Agora, 31 pessoas continuam desaparecidas, 19 corpos ainda aguardam identificação, e as autoridades ordenaram a remoção de todas as redes de andaimes similares em reformas pela cidade.

O influenceiro, por sua vez, aguarda julgamento. Se condenado, pode pegar até sete anos, o que eu acho pouco. Espero que as pessoas que infelizmente perderam a vida no incêndio tenham parentes na cadeia e saibam o que o retardado fez. Vamos esperar.


Fontes:

Um comentário em “Influenceiro debocha de mortes em incêndio e vai em cana

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.