Obesidade, Diabetes e Câncer: agora os animais estão no mesmo barco furado que a gente

Você achava que diabetes tipo 2, obesidade e artrite eram privilégios exclusivos da humanidade sedentária e viciada em carboidratos refinados? Pois bem, prepare-se para uma revelação ao mesmo tempo fascinante e deprimente: conseguimos democratizar nossas doenças crônicas. Gatos, cachorros, vacas, porcos, baleias beluga e até salmões de cativeiro agora compartilham conosco o mesmo fardo de condições que, até pouco tempo atrás, pareciam ser punições reservadas apenas para nossa espécie excessivamente civilizada. É como se tivéssemos organizado uma festa de confraternização interespécies, mas em vez de canapés e champanhe, servíssemos poluição, estresse crônico e dietas desastrosas.

Um estudo recente acaba de apresentar um modelo conceitual que tenta explicar esse fenômeno cada vez mais comum: doenças não transmissíveis se espalhando pelo reino animal como tendências virais no TikTok. Estamos falando de câncer em baleias, diabetes em gatos domésticos, osteoartrite em porcos de criação intensiva e obesidade generalizada em praticamente qualquer bicho que tenha a má sorte de conviver próximo demais de seres humanos.

A drª Antonia Mataragka, que trabalha no Laboratório de Anatomia e Fisiologia de Animais de Fazenda da Universidade Agrícola de Atenas. Ela vem construindo uma carreira focada na interseção entre saúde animal e saúde pública. Com mais de 20 publicações em revistas científicas internacionais, ela já investigou desde tuberculose bovina até epidemiologia de doenças infecciosas em animais de produção. Seu trabalho atual representa uma mudança de foco significativa: das infecções tradicionais para a crescente crise das doenças crônicas, uma área que ela considera criticamente negligenciada. É o tipo de pesquisadora que percebe padrões onde outros veem apenas casos isolados.

Bem, voltando ao trabalho da Tônia Não-Carrero, o que torna o cenário de saúde precária dos animais é particularmente inquietante, não apenas o fato de que o Rex está desenvolvendo diabetes enquanto você lê este texto, mas sim o silêncio ensurdecedor da comunidade científica diante desse padrão. Enquanto a Organização Mundial da Saúde mantém estatísticas detalhadas sobre mortalidade por doenças crônicas em humanos, dados semelhantes para animais são tão raros quanto bom senso em debates na Internet.

Os culpados são exatamente os suspeitos de sempre. Primeiro, há a questão genética. Criamos raças de cachorros e gatos selecionando aparências que consideramos fofas, sem nos importar muito se aquele focinho achatado vem acompanhado de predisposições a doenças cardíacas ou diabetes. Fizemos o mesmo com o gado, criando animais cada vez mais produtivos, mas também cada vez mais suscetíveis a condições crônicas. É a eugenia estética e produtiva cobrando seu preço biológico.

Depois vêm os fatores ambientais. Dieta inadequada, falta de exercício físico e estresse crônico… soa familiar? Deveria, porque é exatamente o mesmo cardápio de horrores que nos leva ao consultório médico. Estimativas recentes indicam que entre 50 e 60% dos gatos e cachorros domésticos estão acima do peso, contribuindo para um aumento anual nos casos de diabetes felina. Cerca de 20% dos porcos criados em sistemas intensivos desenvolvem osteoartrite. No oceano, baleias beluga foram diagnosticadas com cânceres gastrointestinais, enquanto salmões de criação sofrem de problemas cardíacos. E peixes que vivem em estuários poluídos apresentam taxas de tumores hepáticos entre 15 e 25%.

As mudanças ambientais causadas por humanos intensificam essas ameaças. Urbanização, mudanças climáticas e perda de biodiversidade aumentam a frequência e gravidade das exposições nocivas. Oceanos mais quentes e o declínio dos recifes de coral estão correlacionados com taxas mais altas de tumores em tartarugas marinhas e peixes. Nas cidades, temperaturas crescentes e qualidade do ar deplorável contribuem para obesidade, diabetes e distúrbios imunológicos em animais de companhia.

Como Mataragka observa: “À medida que as mudanças ambientais aceleram a emergência de doenças, a ausência de sistemas de diagnóstico precoce atrasa ainda mais a detecção de doenças crônicas em animais”. Traduzindo do academês: estamos cegos e relutantes em enxergar o óbvio.

O modelo proposto é ambicioso porque tenta unir duas abordagens que tradicionalmente operam separadas: One Health e Ecohealth. Ambas reconhecem que a saúde humana, animal e ambiental estão interconectadas, mas raramente conversam entre si de maneira coordenada. O novo modelo integrado mostra como a suscetibilidade biológica se cruza com pressões ambientais e socioecológicas para impulsionar doenças. É uma visão holística que finalmente reconhece que não dá para separar o que acontece com os animais do que acontece conosco e com o ambiente que todos compartilhamos.

A pesquisa propõe estratégias de mitigação em quatro níveis: individual, populacional, ecossistêmico e político. É reconhecer que não há solução simples, que precisamos agir desde o tratamento individual do pet obeso até políticas públicas que reduzam a poluição industrial.

O que esse estudo realmente nos diz, despido de eufemismos acadêmicos, é que conseguimos a proeza notável de adoecer simultaneamente múltiplas espécies usando exatamente as mesmas ferramentas: destruição ambiental, alimentação inadequada, sedentarismo forçado e estresse incessante. Se isso não for um sinal de que precisamos reavaliar urgentemente nossas escolhas como espécie dominante do planeta, então não sei o que seria.

Porque, no fim das contas, quando até os salmões estão tendo problemas cardíacos e as baleias desenvolvem câncer, talvez seja hora de admitir que o problema não está apenas em quantos donuts você comeu na semana passada. O problema é sistêmico, planetário, e está pedindo uma resposta à altura. A questão agora é se vamos ouvir esse chamado ou continuar fingindo que está tudo bem enquanto servimos mais uma porção generosa de ração processada para o cachorro diabético.

A pesquisa foi publicada no periódico Risk Analysis.

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