
Há dias em que a gente só queria passar pela Internet sem descobrir uma nova maneira de perder a fé na espécie. Você abre o celular, dá uma olhada nas notícias, respira fundo e pensa que talvez hoje a humanidade tenha decidido se comportar como gente adulta. É um erro recorrente. Porque, quando você menos espera, surge alguém que conseguiu transformar um problema banal da vida moderna em uma ocorrência paranormal, e lá vamos nós, mais uma vez, investigar até onde a civilização está disposta a cavar antes de encontrar o fundo. Desta vez, aparentemente, o fundo fica no Etsy.
Daí o que se faz? Apela-se pro Sobrenatural de Almeida e se contrata uma bruxa pela Grande Rede de Computadores. Parece que deu tão certo que o distinto teve que apelar na base do “Chegaaaaa!!!”. Ao que parece, ele recebeu mais ofertas do que queria (provavelmente, uma).
Fazendo mandiga unga-bunga, arriando despacho e enfeitiçando geral, esta é a sua SEXTA INSANA!
Vamos aos fatos, que são piores que a ficção. William Rath é um jovem maldito de 26 anos, e que mora na Flórida (tinha que ser Florida Man!). Young Bill estava desempregado e jamais tinha ouvido falar de “bruxas do Etsy” (sim, é uma categoria profissional; e sim, eu também não sabia) até que seguidores do TikTok começaram a implorar que ele contratasse uma. No começo, ele riu. Depois levou mais uma rejeição, concluiu que não tinha nada a perder e respondeu a um comentário.
O vídeo bombou, e a própria bruxa, uma tal de Mystic Tarot Guide (que está com acesso restrito porque… sim), apareceu na caixa de mensagens. Nada como o desespero para transformar uma piada em plano de carreira.
Detalhe saboroso: nada de dinheiro. Pelo que andei fuçando no tabloide do Solzinho e outro lugares menos respeitosos (o que eu não faço por vocês, né?), a leitura saiu de graça, em troca de um post no TikTok, mas sacumé. Sempre se pode trocar favores, If you know what I mean!
A loja, aliás, tinha nota 4,9 e mais de 40 mil vendas, e estava cobrando cerca de US$32,50 por leitura parecida (outras passam de US$100). Chegou-se a falar em quinze dólares, mas fico com a versão do jornal que apurou o caso, enquanto fico contemplando as minhas próprias decisões sabendo que eu poderia estar melhor de vida em outras profissões.
O ritual foi digno de manual. Rath não encontrou a bruxa pessoalmente. Mandou nome e data de aniversário, e ela devolveu a análise junto com uma foto da mesa de trabalho, pedras mágicas e uma pedra de Libra, porque o signo dele é Libra. Rath foi categórico: pediu leitura, não feitiço. Parece pedantismo, mas a distinção tem história. O Etsy proibiu em 2015 a venda de serviços metafísicos que prometam efeito concreto no mundo, e as bruxas, que raramente perdem discussão de regulamento, passaram a rotular tudo como “entretenimento”.
Quando a plataforma passou a fiscalizar de verdade, muitas migraram para sites próprios. Uma delas lamentou ter sido removida sem explicação, apesar de afirmar enxergar o futuro. Eu já tinha noticiado sobre isso antes.
Macumba Jovem feita, parece que funcionou… bem demais! Cinco dias depois, segundo os relatos, eram nove entrevistas. Rath, ainda “um pouquinho cético”, admitiu que a quantidade era uma coincidência esquisita. A bruxa teria visto uma porta se abrindo por volta do 27º aniversário dele, e o rapaz agora acha realista a profecia sobre a data do emprego. Ele continuou atualizando as propostas de emprego em vídeo. Os seguidores, que não perdem uma, compararam a saga ao filme de terror Obsession, aquele do “cuidado com o que você deseja”. Moral de Hollywood: desejou emprego, ganhou agenda lotada e crise existencial.
Para quem acha que o fenômeno é só da Internet, vale lembrar a atriz Maisie Williams. Na estreia de Practical Magic 2, confessou ter pago uma bruxa do Etsy para conseguir um papel no cinema. Mandaram-na repetir frases toda noite e… não deu em nada. Ou seja, o método tem a mesma taxa de sucesso de qualquer curso de networking, só que com mais velas e menos coaches falando asneiras.
Rath, prudente, evitou pedir um feitiço de verdade. Alguns seguidores deixaram comentários nada simpáticos sobre a ideia, e ele preferiu não testar a tolerância da Internet nem a do além. O último capítulo é tão cinematográfico quanto frustrante: a entrevista final foi em 1º de outubro, e agora ele espera o resultado. Segue o suspense, sem trilha sonora nem patrocínio.
Moral da história: se o mercado de trabalho está difícil, não adianta refinar o currículo nem fazer curso de oratória. Posta um vídeo, aceita o conselho de estranhos e deixa uma pessoa que você nunca viu embaralhar cartas na sua mesa. E se der certo, não reclame em público que está cansado, porque o resto do país desempregado ouve.
Fonte: Tabloide Fish ‘n chips
