
Havia uma cidade na qual a noite chegava mais cedo do que o de costume, não por causa do inverno nem da latitude, mas porque a luz dos postes parecia ter desistido de brigar contra a escuridão que se instalara nas ruas. O crime crescera devagar, mas sombriamente, como quem se muda de mansinho para não incomodar os vizinhos, até que os moradores aprenderam a andar olhando por cima do ombro e a polícia aprendeu a preencher boletim de ocorrência com a mesma resignação de cobrador de ônibus recebendo a passagem. As autoridades prometiam providências, os jornais prometiam apuração, e o cidadão comum prometia, silenciosamente, parar de acreditar em qualquer uma das duas promessas.
Este lugar era o tipo de lugar onde criminosos acham que podem fazer seus ganhos e nada irá lhes acontecer. Este lugar não é uma Nova Jersey disfarçada de metrópole gótica, e o super-herói que ela produziu não tem mordomo, não tem helicóptero e definitivamente não tem verba de marketing: essa cidade é Lagos de Moreno, no estado mexicano de Jalisco, e o herói que decidiu aparecer, sem convite e sem antecedentes claros, atende, nas redes sociais, pelo nome de… O Batman Mexicano!
ESTA É A SUA SEXTA INSANANANANANANANANANANA! BATMAN!
Ok, deveria ser Murciélagoman (EU SEI!!). O método de trabalho do sujeito é tão desprovido de glamour quanto eficiente. Pelo menos cinco supostos ladrões de motocicleta foram encontrados, desde 13 de junho, imobilizados em postes de luz da cidade, embrulhados em fita adesiva com a dedicação de quem embala presente de última hora, e com a palavra “ladrón” (numa variante ainda mais colorida, “ratero”) rabiscada na testa a caneta, a versão mexicana de Ladrão e Vacilão.

Enquanto Bruce Wayne treinou anos a fio com os maiores mestres de combate do planeta; el Hombre Murciélago, o Batman Asteca da modernidade, ao que tudo indica, treinou o suficiente numa papelaria de bairro para descobrir qual fita adesiva aguenta o peso de um adulto médio sem rasgar no meio do processo. Bruce Wayne tem Batmóvel telepilotado, saído direto de um laboratório de defesa; o herói de Jalisco provavelmente usa carro emprestado, ou, ironia definitiva, um veículo de procedência tão duvidosa quanto a dos próprios criminosos que ele entrega embrulhados para retirada.
Um é apenas um garoto rico com problemas, muitos problemas; o outro tem, no máximo, paciência esgotada e acesso irrestrito a um rolo de Silver Tape comprado no Mercado Livre Mexicano.
E tequila!
As autoridades, fiéis ao script de sempre, correram para tranquilizar a população com a solenidade de praxe. Juan Pablo Hernández, secretário de Segurança Pública de Jalisco, garantiu investigações em andamento, classificou formalmente os cinco homens amarrados como “vítimas” (façanha semântica digna de aplauso, considerando que foram flagrados ao lado de motos supostamente roubadas) e fez o pedido ritual para que ninguém faça justiça com as próprias mãos. Políticos sempre defendendo os seus.
Se alguém precisar de precedente para provar que essa história não nasceu do nada, basta lembrar que Puerto Vallarta já viveu cena parecida em 2018, com pelo menos onze pessoas amarradas nuas a postes, letra “R” raspada na cabeça, caso jamais resolvido até hoje. Colar gente em poste, ao que parece, já é quase modalidade esportiva regional no México, faltando apenas federação oficial e tabela de classificação por temporada.
E assim a cidade que parecia condenada a virar Gotham com orçamento da novela Mutantes da Record ganhou, em vez de trevas permanentes, um vigilante de baixo custo, alta eficiência e nenhuma consideração pelo devido processo legal. Mas a pergunta que fica é: Batman… de onde você tirou este rolo de fita adesiva? De onde você tirou esta merda?
Yo soy la venganza
Yo soy la noche
Yo soy Batman

Fonte: Hola
