Vaticano expulsa velharada e não gasta o seu latim

Toda organização que dura dois mil anos acumula parentes incômodos, e a Igreja Católica tem uma lista respeitável deles. Tem o parente que foi embora batendo a porta em 1054 e nunca mais atendeu o telefone, discordando sobre quem mandava mais; tem o parente que abriu uma emissora de rádio própria no século XVI e passou a vida inteira criticando a família original pregando poucas e boas numa porta, que é basicamente a versão medieval de vender assento vip no paraíso; e agora, no ano de 2026, a ICAR ganhou um novo desentendimento de família, só que dessa vez o motivo não é teologia complexa nem doutrina obscura. É apego à língua morta.

O Vaticano anunciou nesta quinta-feira que a Sociedade São Pio X, um grupo católico ultratradicionalista (mesmo para os padrões da ICAR), está oficialmente em cisma. Quatro novos bispos foram ordenados na quarta-feira sem autorização papal, driblando pedidos explícitos do papa Leão XIV para que a cerimônia fosse cancelada. O Dicastério para a Doutrina da Fé, órgão que supervisiona a ortodoxia de 1,4 bilhão de fiéis (um número que faria inveja a qualquer rede social), respondeu com um decreto sem meias palavras: os quatro novos bispos estão excomungados, assim como os dois bispos que participaram da ordenação.

Padres da sociedade e leigos que aderirem formalmente ao grupo também entram na lista. A punição inclui a exclusão dos sacramentos, ou seja, ficam de fora da festa mais exclusiva do Cristianismo.

Para quem não acompanha o noticiário vaticano com regularidade (compreensível, a pauta não é exatamente eletrizante todo dia), vale lembrar por que isso é grave e não apenas uma briga de escritório com batina. Desde os primórdios do Cristianismo, apenas o Papa pode autorizar a consagração de novos bispos, justamente para manter a linha sucessória que remonta aos 12 apóstolos. É a versão eclesiástica de um selo de autenticidade: sem ele, você tem um produto que parece bispo, age como bispo, mas tecnicamente não é reconhecido como bispo pela loja oficial, ou seja, praticamente um bispo de camelô orijinal.

Ordenar sem essa autorização é falta grave o suficiente para gerar excomunhão automática, sem necessidade de julgamento ou processo. É a exceção de “efeito imediato” nas regras canônicas.

A raiz do problema remonta ao Concílio Vaticano II, reunião histórica de bispos nos anos 1960 que reformou boa parte da liturgia católica, permitiu que a missa fosse celebrada em línguas vulgares (adeus latim obrigatório) e tentou reparar relações com judeus e outras denominações cristãs. A Sociedade São Pio X, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, nunca engoliu essas mudanças. Prefere o rito em latim – que é o idioma da civilização, e minha preferida –, a formalidade antiga e um certo saudosismo por um catolicismo pré-concílio que, para eles, tinha mais mistério e menos concessão ao mundo moderno.

É basicamente o parente que se recusa a trocar o toca-discos por streaming e insiste que música só presta em vinil (só que, no caso deles, o vinil é a única coisa que ainda “transmite graça”). De minha parte, eles estão certíssimos, mas ninguém pediu a minha opinião ou me elegeu Papa. Eu bem me candidatei, mas me lembraram que eu blasfemei contra o Espírito Santo, aquela pomba escrota do caralho.

O grupo, também chamado de “lefebvriano” em homenagem ao fundador, afirma ter 733 padres espalhados pelo mundo e sedia sua liderança na Suíça. Segundo a própria sociedade, a ordenação não autorizada era necessária para garantir bispos suficientes para conduzir a organização no futuro, um argumento que soa bastante como “precisávamos expandir o negócio, então abrimos uma filial sem avisar a matriz” (e, claro, a matriz não gostou nem um pouco de descobrir que abriram uma filial pirata na Suíça).

O problema é que a Igreja Católica não funciona como franquia livre: o decreto do Vaticano deixa claro que a Fraternidade agora celebra sacramentos de forma ilícita, o que inclui casamentos e confissões, que passam a não ter validade reconhecida por Roma. Ou seja, agora eles podem até casar as pessoas, mas o casamento vale tanto quanto um contrato assinado feito no Canva com fonte Comic Sans, na visão de Roma.

Vale lembrar que esse round já era esperado. As tensões entre a Sociedade e o Vaticano são antigas, remontam há décadas, com bispos já excomungados e depois parcialmente reintegrados, num vaivém digno de novela mexicana com direito a reconciliações emocionantes e recaídas dramáticas. A diferença é que, dessa vez, o desfecho veio rápido e sem margem para ambiguidade, diferente das outras vezes, quando o Vaticano ainda tentava fazer “terapia de casal” com a Sociedade.

Eu, na verdade, fiquei muito triste. Em outros tempos haveria uma Contra-Reforma, o Vaticano contrataria mercenários, mandaria um exército, começaria uma guerra. Mas não. O mundo anda chato e nutellado.

No fim, a lição de sempre se repete: toda instituição milenar tem seu momento de “separei, mas ainda mando mensagem no grupo da família”. A Reforma Protestante ensinou que discordar de Roma pode gerar não uma, mas centenas de denominações novas. O Grande Cisma do Oriente ensinou que a briga pode durar quase mil anos sem acordo. E a Sociedade São Pio X, com seu apego latino, prova que às vezes o cisma não é sobre teologia profunda, é sobre não querer trocar o hino de abertura. Só que dessa vez a família resolveu mandar print pro grupo inteiro e bloquear o número.


Fonte: CNN Brasil

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