Neandertal passava por tratamento dentário e você aí reclamando

O primeiro dentista da História provavelmente usava pele de mamute, morava numa caverna e tinha higiene duvidosa. Mas, surpreendentemente, talvez fosse melhor do que muito “profissional” de TikTok vendendo carvão ativado pra clarear os dentes.

Pesquisadores analisaram um molar neandertal de cerca de 59 mil anos encontrado na caverna de Chagyrskaya, na Sibéria, e descobriram algo impressionante: o dente parece ter sido deliberadamente perfurado com ferramentas de pedra para aliviar uma infecção dolorosa. Em outras palavras, um proto-canal dentário feito milhares de anos antes de existir anestesia, consultório ou aquela musiquinha constrangedora de sala de espera.

A pesquisa é liderada pela drª Alisa Zubova é antropóloga especializada em morfologia dentária humana e evolução dos hominídeos. Ela trabalha no Museu de Antropologia e Etnografia de Pedro, o Grande, em São Petersburgo, Rússia. Alisa curte uns dentinhos antigos, tentando reconstruir hábitos, doenças e relações evolutivas entre populações humanas pré-históricas. O tipo de pessoa que olha para um molar fossilizado de 59 mil anos e pensa: “isso aqui claramente foi uma obturação rudimentar”.

No caso da descoberta dos dentes esburacados, o panelão não parece resultado de mastigação, erosão natural ou danos aleatórios. As marcas microscópicas encontradas no interior do dente indicam movimentos rotatórios compatíveis com perfuração intencional. Os cientistas inclusive reproduziram o processo usando ferramentas de pedra semelhantes às encontradas no sítio arqueológico e chegaram a marcas praticamente idênticas. Sim, alguém sentou pacientemente e resolveu furar um dente inflamado usando pedra lascada. Sem novocaína. Sem “cospe aqui”. Sem plano odontológico.

O mais curioso é que o neandertal aparentemente sobreviveu ao procedimento por algum tempo. O desgaste posterior do dente mostra que ele continuou sendo usado depois da perfuração. Ou seja, não foi apenas uma tentativa desesperada de cutucar a dor com uma pedrinha pontuda. Houve algum sucesso ali. Uma mistura de odontologia paleolítica com coragem suicida.

A descoberta ajuda a desmontar aquela velha caricatura do neandertal como um brutamontes sem raciocínio complexo. Nas últimas décadas, a arqueologia vem mostrando que eles produziam ferramentas sofisticadas, cuidavam de feridos, enterravam mortos e provavelmente tinham formas de linguagem relativamente elaboradas. Agora sabemos também que, diante de uma cárie monstruosa, eles já entendiam o conceito universal de “preciso fazer alguma coisa antes que eu arranque essa droga na pedrada”.

E convenhamos: se um sujeito de 59 mil anos encarou uma broca de pedra girando dentro do dente sem anestesia, talvez a humanidade moderna possa sobreviver à limpeza de tártaro sem transformar a cadeira do dentista num cenário de filme de terror psicológico ou uma comédia do Jim Carey.

A pesquisa foi publicada no periódico PLOS One

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.