A ovelha que guardou o segredo da peste por 4 mil anos

A Peste Negra do século XIV ganhou os livros, as pinturas macabras, as danças da morte e uma carreira invejável no imaginário do horror coletivo, com direito a matar um terço da Europa e inspirar séculos de paranoia sanitária. Mas havia uma outra praga, mais velha, mais misteriosa e muito menos fotogênica, que varou a Eurásia dois milênios antes, matou gente de Portugal até a Mongólia, e saiu de cena sem deixar um bilhete de explicação. Por anos, os cientistas coçavam a cabeça diante de um problema elegantemente inconveniente: essa praga mais antiga não se espalhava por pulgas como a medieval, mas aparecia em esqueletos humanos separados por milhares de quilômetros. Como? Via correio? Magia? Os historiadores da ciência precisavam de uma pista, e ela veio, com quatro mil anos de atraso e cheiro de rebanho, de uma ovelha.

A culpada, ou melhor, a vítima e testemunha-chave, vivia há cerca de 4.000 anos num assentamento fortificado chamado Arkaim, nos Montes Urais do Sul, hoje território russo perto da fronteira com o Cazaquistão. O lugar já era famoso entre arqueólogos por outros motivos: Arkaim é um dos sítios mais emblemáticos da cultura Sintashta, aquele povo da Idade do Bronze que inventou, ou pelo menos aperfeiçoou de forma impressionante, a equitação, forjou armamentos de bronze sofisticados e promoveu um dos maiores fluxos genéticos para a Ásia Central da história pré-histórica. Era gente que se movia, que criava gado e que, ao que tudo indica, sem querer querendo, também movimentava doenças.

O dr. Taylor Hermes é professor-assistente de Arqueologia Ambiental na Universidade do Arkansas. Hermes – que não está acompanhado do dr. Renato – não é exatamente um nome novo nesse campo: especialista em DNA antigo de animais domésticos, ele lidera um projeto ambicioso de rastrear como ovelhas, cabras e bovinos se espalharam do Crescente Fértil por toda a Eurásia ao longo dos milênios, delineando rotas de pastoreio que moldaram impérios e sociedades nômades. Recentemente, recebeu da Sociedade Max Planck alemã um financiamento de 100.000 euros para continuar escavando nas proximidades de Arkaim.

O que a equipe do dr. Ren… dr. Hermes encontrou foi simples na descrição e monumental nas implicações: DNA do Yersinia pestis, o bacilo responsável pela peste bubônica, num osso de ovelha doméstica escavada em Arkaim nos anos 1980 e 90. Nunca antes esse patógeno havia sido detectado num hospedeiro não-humano da Idade do Bronze. Era, nas palavras do próprio Hermes, “sinal de alarme para a equipe”.

A descoberta não foi intencional, aliás, o que torna tudo mais delicioso. Quando se analisa DNA de animais antigos, explica Hermes, o que se obtém é uma sopa genética complexa de contaminações: microrganismos do solo onde os ossos foram enterrados, células de pele e saliva dos próprios pesquisadores, fragmentos de DNA degradado que mal chegam a 50 pares de bases (para ter ideia do tamanho do problema, o genoma humano completo tem mais de 3 bilhões). Toda essa bagunça molecular, no entanto, tem o efeito colateral útil de revelar também os patógenos que infectaram o animal e as pessoas que lidavam com ele.

A pergunta que o ovininho foto ajuda a responder não é pequena. Cientistas já haviam encontrado cepas idênticas da praga da Idade do Bronze em restos humanos separados por distâncias imensas, da Europa ao coração da Ásia. Isso implicava um mecanismo de dispersão eficiente e abrangente, mas a cepa antiga de Y. pestis não tinha a capacidade de usar pulgas como vetor, o truque que tornaria a versão medieval tão catastroficamente eficaz. Então como viajava?

A ovelha de Arkaim sugere que o ciclo envolvia pelo menos três atores: humanos, o gado doméstico e um “reservatório natural” ainda não identificado, provavelmente roedores das estepes ou aves migratórias, animais que carregam o patógeno sem adoecer e funcionam como depósito ambulante de infecção. O gado servia de ponte: pegava a bactéria dos reservatórios selvagens e a entregava, de mão em mão e de pasto em pasto, às comunidades humanas que viviam, dormiam e se alimentavam junto com os rebanhos.

A cultura Sintashta, exatamente o grupo ligado a Arkaim, estava na vanguarda dessas transformações. Foi no Bronze Age que os povos das estepes começaram a manter rebanhos maiores e a cavalgar com destreza, expandindo radicalmente o raio de seus deslocamentos. Cada nova incursão em territórios selvagens era uma roleta-russa epidemiológica: mais contato com animais silvestres, mais exposição a reservatórios naturais de patógenos.

A mesma lógica, aliás, se aplica com perturbadora regularidade à história das epidemias humanas, do HIV ao Ebola, do SARS ao COVID-19. Os morcegos modernos fazem o papel que os roedores da estepe provavelmente faziam há quatro mil anos: carregam o vírus sem morrer por ele e o despejam no mundo quando o equilíbrio ecológico é perturbado, depois sobra pra gente se ferrando.

O estudo foi publicado periódico Cell

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