
Carnaval é notícia de ontem e já tivemos que voltar ao trabalho, e aos chefes maníacos e à insânia dos colegas e às loucuras do mundo. PAUSA! Respira fundo. Conta até dez. Tenta o método da meditação, do chá de camomila, do aplicativo de mindfulness que você baixou e nunca abriu. Não vai adiantar. Porque a humanidade, com aquela generosidade que só ela tem, acabou de entregar mais um episódio da série favorita de todo mundo: Sou um imbecil e farei de tudo para provar isso!
Estamos em 2026, ano em que a Inteligência Artificial escreve romances, robôs operam pacientes e bilionários brigam por quem chega primeiro em Marte. E em Jharkhand, estado no leste da Índia, um grupo de idiotas se reuniu numa noite de fevereiro, pegou querosene, foi até a casa de Jyoti Sinku, 32 anos, com o filho de dois meses no colo, e ateou fogo em tudo. Motivo: acharam que ela era uma bruxa.
Fazendo mandinga na Quaresma, esta é a sua SEXTA INSANA!
Tudo começa quando algum Zé Ruela, Zé Mané ou Zé Goiaba na aldeia de Kudsai tinha adoecido. E em vez de, sei lá, chamarem um médico, irem num posto de saúde, ligarem pro SAMU ou qualquer coisa inventada em termos de tratamento médico depois do século XVI, a comunidade puxou direto o diagnóstico premium da superstição regional: feitiçaria. Jyoti foi apontada como culpada, pois, SEMPRE tem um culpado. Rumores correram o vilarejo por dias, com aquela eficiência que a ignorância coletiva sempre teve, bem antes de qualquer rede social. E quando o consenso estava formado, chegou a hora do tratamento. Querosene e fósforo. Revisão por pares: nenhuma. Bom senso: também indisponível no momento.
O marido, Kolhan Sinku, foi chamado lá fora pelo próprio primo naquela noite. Quando saiu para ver o que acontecia, encontrou a aldeia reunida em frente à sua casa como se fosse uma assembleia de condomínio, só que com chamas. Ele tentou salvar a esposa e o filho, mas não conseguiu e ficou com queimaduras graves. Jyoti e o bebê morreram no local. Ao todo, dezesseis pessoas foram presas ou se entregaram nos dias seguintes, com aquela tranquilidade de quem não entende muito bem por que o restante do mundo está achando isso um problema.
E é fascinante, num sentido profundamente deprimente, como a engrenagem da ignorância nunca falha na escolha do alvo. Quase sempre uma mulher. Porque a superstição pode trocar de século com a agilidade de quem troca de roupa, mas a covardia estrutural continua usando o mesmo manual mofado, o mesmo bode expiatório de sempre, só que agora com a decadência adicional de acontecer enquanto alguém a duzentos quilômetros de distância discute inteligência artificial em podcast.
O mais constrangedor, se é que ainda dá para eleger um superlativo nessa história, é que isso não é anomalia. O Bureau Nacional de Registros Criminais da Índia documentou mais de 2.500 mortes ligadas a acusações de bruxaria entre 2000 e 2016. Jharkhand tem legislação específica contra esse tipo de crime desde 2001. A lei existe, o crime continua. E se você está a fim de criticar, lembre-se que você mora no Brasil e a melhor forma de ser um psicopata Serial Killer é ter um carro que fatalmente poderá sair matando à vontade sem pegar nada pra você.
Os meganhas de Shiva carregaram todo mundo e que agora estão vendo Skol, digo, Brahma nascer quadrado. Um bando de idiotas que por mero acaso da Evolução Biológica pertencem à mesma espécie de gente que olha para o céu, sonha com colônia em Marte, assiste TED Talk sobre o futuro da humanidade, e vai dormir achando que o problema da barbárie é coisa do passado.
O Homo sapiens não tem medo de passar vergonha evolutiva. Ele tem é talento.
Fonte: Deccan Herald
