A treponema que atravessou milênios

Existe algo profundamente perturbador em descobrir que uma doença que achávamos conhecer tão bem guarda segredos de 5.500 anos. É como abrir o armário de casa e encontrar um esqueleto (literalmente, no caso) que muda tudo o que você pensava saber sobre a família. E foi exatamente isso que aconteceu quando cientistas resolveram dar uma olhada mais atenta nos restos mortais de alguém que viveu na região de Bogotá, na Colômbia, numa época em que a roda ainda era uma ideia revolucionária e a escrita nem existia.

O que eles encontraram foi nada menos que o genoma mais antigo já recuperado da bactéria Treponema pallidum, aquela espiroqueta simpática responsável por doenças como sífilis, bouba e bejel. E aqui começa a ficar interessante: essa cepa ancestral não se encaixa em nenhuma das categorias modernas que conhecemos.

A drª Anna-Sapfo Malaspinas é geneticista evolutiva e professora associada no Departamento de Biologia Computacional da Universidade de Lausanne (UNIL), na Suíça. Ela também é líder de grupo no Swiss Institute of Bioinformatics (SIB) e uma das principais pesquisadoras em paleogenômica e genômica de populações humanas na Europa. Sua pesquisa, não apenas empurra a história genética conhecida de doenças como a sífilis para trás em mais de 3.000 anos, como também joga uma chave inglesa monumental no debate sobre a origem das doenças treponêmicas nas Américas.

A Treponema pallidum é uma bactéria em formato de espiral que hoje existe em três subespécies intimamente relacionadas. Cada uma causa uma doença diferente: a sífilis (sexualmente transmissível), a bouba (que afeta pele e ossos, espalhando-se por contato não sexual), e o bejel (que assola regiões áridas e se transmite por contato casual). Existe ainda uma quarta doença, a pinta, mas até hoje ninguém conseguiu recuperar um genoma completo do patógeno responsável por ela.

Apesar de serem geneticamente quase idênticas, os cientistas ainda não sabem quando ou como essas diferentes formas de doença surgiram. E aqui está o pulo do gato: ossos podem mostrar sinais de infecção às vezes, mas a genética conta uma história muito mais complexa.

O genoma colombiano embaralhou ainda mais as cartas. Malaspinas e seu pessoal confirmaram que o DNA antigo pertencia à espécie Treponema pallidum, mas não correspondia a nenhuma das formas conhecidas que causam doenças hoje. É uma linhagem perdida, um ramo da árvore genealógica que todos esqueceram que existia. As análises genéticas estimam que essa cepa ancestral se separou de outras linhagens há aproximadamente 13.700 anos, cerca de 5.000 anos antes da invenção da agricultura no Oriente Médio. Em contraste, as três subespécies modernas parecem ter divergido muito mais tarde, por volta de 6.000 anos atrás.

A descoberta não resolve a polêmica sobre se a sífilis veio das Américas para a Europa, mas deixa claro que essas bactérias já estavam fazendo suas coisas nas Américas num tempo absurdamente distante, muito antes de qualquer europeu pensar em atravessar o Atlântico.

Mas aqui está a parte realmente inesperada: o patógeno não foi descoberto de propósito. Os pesquisadores originalmente sequenciaram o DNA do indivíduo para estudar a história populacional humana antiga, produzindo cerca de 1,5 bilhão de fragmentos de dados genéticos. Durante uma triagem de rotina, equipes da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e da Universidade de Lausanne detectaram independentemente traços de T. pallidum e decidiram investigar juntas.

Embora o DNA bacteriano representasse apenas uma porção minúscula do material genético total, a profundidade do sequenciamento permitiu que a equipe reconstruísse o genoma do patógeno sem usar técnicas especializadas de enriquecimento. Foi como encontrar uma agulha num palheiro de 1,5 bilhão de palhas.

Mais impressionante ainda: o esqueleto não apresentava nenhuma evidência visível de infecção. Os pesquisadores retiraram uma amostra da tíbia, que não é comumente usada para estudos de DNA antigo. O sucesso dessa abordagem sugere que até mesmo ossos sem marcadores óbvios de doença podem preservar informações genéticas valiosas.

No fim das contas, o que temos aqui é mais do que apenas um genoma antigo. É uma janela para um mundo onde doenças que pensávamos entender revelam passados ocultos, e onde um esqueleto sem marcas visíveis de doença acabou reescrevendo pedaços da história da medicina. É um lembrete de que o passado nunca está tão morto e enterrado quanto pensamos.

A pesquisa foi publicada no periódico Science.

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