Os antigos segredos metalúrgicos do Cazaquistão

Todo mundo sabe que o Cazaquistão é a melhor nação do mundo, e os governantes dos outros países são apenas garotinhas. O que você não sabe é que a região de Semiyarka era uma espécie de proto-Manhattan da Idade do Bronze que estava ali, esperando pacientemente há 3.600 anos, a 180 km de Pavlodar, no nordeste do Cazaquistão.

E quando digo proto-Manhattan, não estou sendo leviano. Estamos falando de 140 hectares de assentamento planejado, com estruturas retilíneas, zonas industriais dedicadas à metalurgia e um edifício central que grita “sede do poder” ou “centro cerimonial” dependendo de quão cético você for com relação à pompa arquitetônica. Números são enganosos. 140 hectares são “só” 1,4 km², e mesmo assim é mais de quatro vezes o tamanho das vilas contemporâneas da região. É como se, no meio do nada estépico, alguém tivesse decidido construir uma cidade de verdade enquanto todo mundo ainda estava descobrindo como fazer bronze direito.

O nome Semiyarka significa “Sete Ravinas” em referência à rede de vales que o sítio domina como um senhor feudal observando suas terras. A cidade foi estrategicamente fundada num promontório acima do rio Irtysh, controlando a movimentação ao longo do vale com a eficiência de um pedágio medieval, bem pertinho das Montanhas Altai, onde cobre e estanho brotavam generosamente para quem soubesse procurar. Coincidência? Os arqueólogos duvidam, e com razão!

A descoberta inicial aconteceu lá nos anos 2000, quando pesquisadores da Universidade Toraighyrov perceberam que aqueles montes de terra não eram exatamente naturais. Mas foi só agora, com um esforço conjunto envolvendo a University College London, a Universidade de Durham e os colegas cazaques, que o lugar revelou sua verdadeira magnitude. E que magnitude. A equipe usou de tudo: imageamento geofísico, magnetometria (que basicamente permite ver estruturas enterradas sem precisar cavar), drones e até fotografias de satélites espiões da era da Guerra Fria, como os do programa Corona, que em 1972 capturou imagens da região quando ela ainda não tinha sido revirada por décadas de agricultura moderna e construção de estradas.

A drª Miljana Radivojević é professora associada de Ciências Arqueológicas no Instituto de Arqueologia da University College of London (é uma universidade que fica em Londres, caso você não tenha percebido) onde obteve seu doutorado em Arqueometalurgia. Durante seus estudos, Radivojević se especializou no surgimento da produção inicial de cobre nos Balcãs antes de expandir suas colaborações de pesquisa por toda a Europa e norte da Eurásia, com ênfase na Europa central e sudeste, Anatólia, Eurásia Central e China.

A pesquisa identificou que, pelo menos, de 15 estruturas mapeadas, algumas claramente residenciais com divisões internas, outras dedicadas à produção metalúrgica. Os muros, provavelmente feitos de tijolos de adobe, corriam ao longo das bordas internas dos aterros de terra que ainda são visíveis hoje. E aqui está o pulo do gato arqueológico: enquanto a maioria dos assentamentos da época cercava o perímetro inteiro da cidade com muralhas, Semiyarka fez diferente. Os aterros cercam estruturas individuais, criando uma espécie de zoneamento proto-urbano. É planejamento urbano antes de existirem urbanistas.

A cereja no bolo de barro é a zona industrial. No sudeste do sítio, os pesquisadores encontraram cadinhos, escória, minério e artefatos metálicos acabados numa concentração que sugere produção em larga escala. Não é aquela história romântica do artesão solitário fazendo machadinhas sob uma árvore. É linha de produção. Bronze de estanho e cobre sendo fundido, trabalhado e distribuído numa escala que os arqueólogos não esperavam ver numa sociedade teoricamente “semi-nômade”. Análises de 35 amostras metalúrgicas confirmaram o uso de carbonatos de cobre combinados com estanho em proporções que chegavam a 12% do peso total. Nada de bronze arsenical ou de chumbo, que eram comuns em outros lugares. Aqui era bronze de estanho puro e simples, provavelmente usando matéria-prima local das Altai.

Para colocar isso em perspectiva: até agora, apenas um outro sítio na região – Askaraly, um local de mineração do fim da Idade do Bronze – tinha sido associado à produção de bronze de estanho. E mesmo assim não com essa escala. Semiyarka não é só a primeira grande cidade da estepe com produção metalúrgica no local; é potencialmente um hub redistributivo numa rede comercial que se estendia por toda a Eurásia. Centenas de milhares de artefatos de bronze dessa época estão em museus por aí, mas ninguém sabia exatamente onde estavam sendo feitos. Agora sabemos. Ou pelo menos temos uma peça muito grande do quebra-cabeça.

A coleta de superfície recuperou pelo menos 114 vasos cerâmicos. Desses, 85% eram do tipo Alekseevka-Sargary, a cultura que dominou a estepe oriental entre 1500 e 1100 A.E.C.; o restante pertencia à tradição Cherkaskul, mais associada aos grupos nômades da Sibéria Ocidental. Isso sugere não apenas comércio, mas provavelmente interação cultural direta entre diferentes povos. Semiyarka não era uma ilha isolada; era um ponto de encontro.

E aqui entra o twist histórico que deixa tudo mais interessante: a ausência de cerâmica Begazy-Dandybaev indica que o assentamento foi estabelecido antes dessa tradição surgir, provavelmente no século XVI A.E.C.; por volta de 1600 A.E.C., para ser preciso. Estamos falando de uma época em que Micenas estava apenas começando a ganhar relevância na Grécia, o Egito estava no auge do Novo Reino sob a XVIII Dinastia, e a China estava na dinastia Shang inicial. Semiyarka era contemporânea dos grandes centros urbanos do mundo antigo, mas ficava ali, na estepe, fazendo sua própria revolução urbana sem que ninguém percebesse.

O timing também é significativo. A Idade do Bronze na Eurásia foi uma época de transformações massivas: metalurgia avançada, redes comerciais de longa distância, surgimento de elites, desenvolvimento de escrita em algumas regiões. Mas sempre pensamos nisso acontecendo nos lugares mais… clássicos, digamos assim, como na Mesopotâmia, Egito, Vale do Indo e China. A estepe era vista como uma espécie de corredor vazio entre civilizações, um lugar de passagem mais que de permanência. Semiyarka sugere que precisamos revisar esse mapa mental. A estepe não era vazia; era apenas diferente.

As escavações estão em andamento, financiadas pela Academia Britânica, pelo Ministério da Ciência e Educação Superior do Cazaquistão, e pelo projeto DREAM (Discovering the Revolution of EurAsian Metallurgy), que investiga o impacto social e ambiental da economia metalúrgica da Idade do Bronze nas estepes. Os pesquisadores querem entender melhor como a produção era organizada, quanto tempo o assentamento durou, quantas pessoas viviam lá, e que conexões a cidade mantinha com outras regiões. Também querem investigar o impacto ambiental dessa produção industrial; afinal, fundir metal em larga escala não é exatamente uma atividade ecologicamente neutra.

A grande questão agora é: Semiyarka é uma anomalia ou ponta do iceberg? Será que existem outras proto-cidades enterradas na estepe esperando para serem descobertas? Os pesquisadores acham que sim. A tecnologia de sensoriamento remoto está melhorando, as colaborações internacionais estão se fortalecendo, e o Cazaquistão está investindo em arqueologia como nunca antes. É bem possível que nos próximos anos mais Semiyarkas apareçam, cada uma adicionando novas camadas à nossa compreensão da Idade do Bronze eurasiana.

Por enquanto, o que temos é uma cidade que não deveria existir; ou, pelo menos, não de acordo com o que imaginamos sobre as sociedades da estepe. Uma cidade que produzia bronze em escala industrial, que planejava seu layout com cuidado geométrico, que controlava rotas comerciais estratégicas, e que fazia tudo isso numa época em que supostamente todos por ali estavam ocupados demais migrando para construir algo permanente.

A pesquisa foi publicada no periódico Antiquity.

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