Golpe de Estado induz população a assassinar governante

Nesse momento, você descansa, mas não faz a menor ideia do que está acontecendo. Existe um golpe em andamento: operários pretendem usurpar o poder. Dedicado ao trabalho, passa o dia inteiro protegendo sua governante com unhas e dentes… ou o faria, se tivesse unhas e dentes. Mas isso não é para sempre, e um um dia, sem entender muito bem por quê, você e suas irmãs decidem esquartejar a matriarca. Parabéns, o golpe está dado, e a verdadeira vilã está ali no canto, assistindo tudo com um inexistente sorrisinho no rosto.

Você acabou de testemunhar um Golpe de Estado num formigueiro.

Cientistas japoneses acabam de descrever em detalhes algo que parece ter saído direto de uma tragédia shakespeariana: formigas parasitas que invadem colônias alheias e manipulam quimicamente as operárias para que elas matem a própria rainha. E quando dizemos “matar”, não estamos falando de um empurrãozinho discreto. Estamos falando de desmembramento completo, cortar a cintura da coitada e tudo mais. É matricídio no sentido mais literal e perturbador da palavra.

A drª. Keizo Takasuka é professora-assistente do Laboratório de Ciências Ecológicas vinculado ao Departamento de Biologia da Universidade de Kyushu. A drª. Tokusatsu, digo, Takasuka investiga como aqueles serezinhos safadinhos chamados formigas brigam pelo poder dentro de suas colônias.

O modus operandi dessas criminosas é digno de um filme de espionagem. As espécies invasoras estudadas – Lasius orientalis e Lasius umbratus – não têm a menor paciência para construir seus próprios reinos. Preferem atacar ninhos de outras espécies, como Lasius flavus e Lasius japonicus. Mas aqui está o truque: elas não chegam chutando a porta. Primeiro, a rainha parasita se infiltra no ninho e literalmente se esfrega nas operárias para “roubar” o cheiro da colônia. Como formigas têm visão limitada e dependem do olfato para reconhecer aliadas de inimigas, esse perfume falso funciona como um passe VIP para toda a operação.

Uma vez disfarçada e aceita pelas trabalhadoras – que inclusive alimentam a meliante –, a rainha parasita parte para a fase dois do plano: localizar a rainha legítima. E é aqui que a coisa fica realmente sinistra. A invasora se aproxima da Manda-Chuva e, com a frieza de um assassino profissional, borrifa nela um fluido abdominal que os pesquisadores acreditam ser ácido fórmico. Esse spray químico não mata diretamente. O que ele faz é mascarar o cheiro natural da rainha, transformando-a instantaneamente, aos narizes das operárias, de “mãe adorada” em “inimiga mortal”.

Takasuka descreve o cenário com uma precisão que dá calafrios: “O odor da rainha é eliminado pelo ácido fórmico e, em um instante, o indivíduo que as operárias mais precisam proteger se transforma numa ameaça feroz. Tanto para a rainha hospedeira quanto para as operárias, é um verdadeiro pesadelo.” E a Smilinguida From Hell? Ah, ela recua imediatamente após o ataque químico, já que não é burra e sabe que se as operárias a pegarem com aquele cheiro suspeito, ela vira alvo também. Então, espera pacientemente a distância enquanto as filhas destroçam a mãe, convencidas de que estão defendendo a colônia.

<Toca o tema de Game of Thrones>

Nos experimentos, a L. orientalis foi mais metódica: borrifou a rainha cerca de 15 vezes ao longo de 20 horas, agitando gradualmente as operárias até que elas finalmente matassem a matriarca após quatro dias. Já a L. umbratus foi mais econômica: dois jatos certeiros bastaram para incitar um ataque imediato e fatal. Em ambos os casos, com a rainha morta e desmembrada, a parasita retorna triunfante, assume o trono e começa a botar seus próprios ovos. As operárias órfãs, sem questionar nada, passam a cuidar da prole da psicopata. Com o tempo, as trabalhadoras mais velhas morrem e a colônia passa a ser composta exclusivamente por descendentes da impostora. Golpe perfeito.

O mais perturbador? Matricídio já é raro na natureza, e quando acontece, é para fins evolutivos de alguém envolvido, mãe ou filhos. Mas aqui, ninguém ganha nada. Nem a rainha morta (duh!), nem as operárias matricidas. Só a parasita terceirizada. “A indução de filhas para matar a própria mãe biológica não era conhecida na biologia antes deste trabalho”, explica Takasuka.

Agora que o mecanismo foi desvendado e registrado em vídeo, os pesquisadores querem saber até onde vai essa estratégia macabra. Será que outros insetos além de formigas usam manipulação química para induzir matricídio? A drª Tokusatsu, digo, Takasuka não descarta a possibilidade, embora reconheça que apenas formigas da subfamília Formicinae usam ácido fórmico para provocar respostas violentas. Mas quem sabe vespas sociais tenham suas próprias versões dessa tragédia grega microscópica?

Uma coisa é certa: da próxima vez que você vir uma formiga, lembre-se de que ali, naquele mundinho minúsculo, rolam intrigas dignas de Édipo Rei, só que com seis patas e antenas. E que a realidade, mais uma vez, provou ser infinitamente mais cruel e criativa do que qualquer roteirista conseguiria imaginar.

Mas você tem todo direito de achar que só os seres humanos são crápulas,e que a natureza é lindinha, cheirosa e ética.

A pesquisa foi publicada no periódico Current Biology.

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