
Se tem uma coisa que o marketing ambiental adora vender, é a imagem da energia solar como a heroína da transição energética. Painéis reluzentes, telhados ecológicos, raios de sol convertidos em eletricidade limpa e consciência tranquila. Tudo muito bonito. Mas, como toda boa história americana, essa também tem seu escândalo, e temos tudo aquilo que você possa imaginar: dinheiro público, ganância privada e gente demais querendo salvar o planeta com a outra mão enfiada no bolso do contribuinte. E sexo, claro!
Nos EUA, a energia solar está crescendo como fermento em massa. A Califórnia, em particular, virou o carro-chefe dessa expansão. Incentivos generosos, metas ambiciosas de descarbonização e uma população com culpa ambiental suficiente para investir em telhados solares e carros elétricos fizeram do estado um laboratório verde a céu aberto. Mas um estudo recente resolveu olhar para além dos watts gerados e da atmosfera agradecida, e encontrou algo menos resplandecente: corrupção sistêmica no mercado solar californiano.
O dr. Benjamin K. Sovacool é Professor de Política Energética na Unidade de Pesquisa em Política Científica da Escola de Negócios da Universidade de Sussex, no Reino Unido. Ele trabalha como pesquisador e consultor em questões relativas à política e política energética global, segurança energética, justiça energética, mitigação das mudanças climáticas e adaptação às mudanças climáticas. Sim, eu kibei da página dele.
De acordo com uma pesquisa de Sovac… hã… é, é o nome dele. Fui checar! Bem, a pesquisa do dr. Sovaco que é cool analisou uma década de dados sobre investimentos, adoção e regulamentações solares na Califórnia, e fez o que ninguém ainda tinha feito: conectou os pontos entre os subsídios estatais e federais, as empresas privadas do setor solar e o comportamento de atores públicos e políticos. Resultado? Um mapa obscuro mostrando práticas para lá de suspeitas oriundas de onde o Sol não brilha.
Sim, a luz solar pode até ser limpa, mas os bastidores do seu aproveitamento energético estão longe disso. Um dos esquemas mais comuns identificados é o velho conhecido clientelismo: amigos, colegas, parceiros de campanha ou simplesmente contatos bem conectados que recebem contratos, consultorias e licitações com base não na competência técnica, mas na afinidade política ou pessoal. E como não poderia faltar nesse tipo de roteiro, o clientelismo vem muitas vezes de braços dados com o favoritismo, aquele hábito nefasto de alocar recursos públicos de maneira ineficiente, premiando lealdade em vez de mérito.
E não para por aí. Há casos documentados em que essas vantagens (como contratos, permissões e licenças ambientais) não foram trocadas apenas por influência política, mas, em certos episódios, também por favores sexuais. É isso mesmo: a energia solar, símbolo máximo da utopia verde, também abriga práticas que fariam corar roteiros de novela mexicana.
E os exemplos abundam. Em 2011, o caso Solyndra virou o escândalo-símbolo da corrupção verde. A empresa californiana de tecnologia solar recebeu um empréstimo federal de US$ 535 milhões como parte do programa de estímulo econômico da era Obama. Prometia revolucionar o setor com painéis tubulares e promessas de emprego. Em menos de dois anos, faliu. Investigações revelaram que executivos da empresa tinham ligações estreitas com o governo e que os riscos de insolvência haviam sido ignorados. Resultado? O dinheiro evaporou, a empresa faliu e a imagem da política energética limpa ganhou seu primeiro grande arranhão nacional.
Outro exemplo foi o escândalo da Bloom Energy, em que autoridades de Delaware foram acusadas de facilitar incentivos fiscais milionários para a construção de fábricas e infraestruturas solares com base em promessas infladas. O resultado? Metas não cumpridas, equipamentos subutilizados e uma população local que passou a desconfiar do discurso ambiental vindo do governo.
E há também os pequenos escândalos locais, daqueles que não ganham manchete nacional, mas que somados constroem o problema estrutural. Cidades californianas como Fresno, Bakersfield e San Bernardino já registraram investigações de favorecimento na concessão de licenças para empresas de energia solar, com indícios de que fiscais faziam “vista grossa” em troca de comissões, viagens, brindes e até relações pessoais.
Tudo isso se dá num ambiente onde a pressa em expandir a infraestrutura renovável se mistura com regulamentações complexas e fiscalização insuficiente. O resultado é um terreno fértil para a improvisação criminosa. Empresas inflaram orçamentos, exageraram na projeção de eficiência dos sistemas ou usaram intermediários para driblar exigências técnicas. Funcionários públicos, por sua vez, aceleraram processos seletivos, alteraram editais, e em alguns casos, participaram ativamente dos lucros gerados por esquemas escusos.
O problema não é a energia solar em si, óbvio. Deixem o coitado do Sol em paz! A questão é o modelo de financiamento e implantação baseado em incentivos que, ao invés de promover uma transição limpa e justa, acabou criando um mercado onde vale tudo para abocanhar um pedaço do bolo fotovoltaico. E não se trata de casos isolados: os pesquisadores identificaram padrões sistemáticos de corrupção, com repetições de estratégias e atores em diferentes momentos e regiões.
Um dos pontos mais causticantes é o risco de que essa estrutura corroída por interesses acabe desacreditando toda a agenda de descarbonização. Afinal, se o público começa a ver os incentivos à energia solar como um novo tipo de corrupção oficializada, o apoio às políticas climáticas pode evaporar tão rápido quanto a confiança no sistema. E aí quem paga o preço não é só o planeta, mas o projeto inteiro de uma economia mais limpa.
A pesquisa também destaca a dificuldade de monitorar e auditar os benefícios reais da expansão solar nesses moldes. Muito da infraestrutura instalada não está sendo utilizada com a eficiência prometida, e as métricas oficiais são generosas demais para distinguir entre sucesso real e maquiagem contábil. A tal da “corrupção verde” pode não envolver propinas em malas pretas, mas atua em silêncio, travestida de inovação e sustentabilidade.
O estudo, obviamente, não é um ataque à energia renovável, longe disso. É um alerta: sem transparência, sem fiscalização e sem critérios claros, até o sol pode ser sequestrado por interesses escusos. A ironia maior é que a energia solar, símbolo máximo da limpeza e da esperança climática, pode acabar sendo a porta de entrada para o velho e conhecido jogo sujo de influência, clientela, favores e desejo disfarçado de idealismo.
O estudo foi publicado no periódico Energy Strategy Reviews

Não tem jeito, a humanidade não tem jeito, justamente porque no meio de boas iniciativas, de boas ideias, sempre vai ter as frutinhas podres que, se não contaminarem tudo, vão fazer algo deixar de existir porque não podemos ter coisas legais. =(
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