A história de um motim no exército romano

Os guerreiros estão fugindo. A dor das feridas ainda cicatrizando é a mola mestra de sua fuga. Eles não querem mais castigos, não querem mais sofrimento, mas será sofrimento que eles irão enfrentar. Soldados estão atrás deles e o que se seguirá se forem pegos será muito pior que a morte, embora ela virá de qualquer forma, mas não sem antes receberem tratamento especial. Nas terras gélidas na fronteira norte da Britânia romana, uma história de desespero e sobrevivência estava prestes a se desenrolar. O cenário era uma campanha militar, cujo general que sonhava com os olhos abertos – o pior tipo de homem, segundo T.E. Lawrence. Entre suas tropas, um grupo de auxiliares carregava não apenas suas armas, mas também o peso de um destino que nenhum deles poderia prever.

Esta é uma história de violência, de luta pela liberdade e até mesmo de canibalismo.

Estamos no verão do ano 82 E.C.. O cenário é a campanha militar do general Cneu Júlio Agrícola, cuja missão na vida era conquistar as terras selvagens da Caledônia, região que mais tarde seria conhecida como Escócia. Entre suas tropas, um grupo de auxiliares germânicos usípetes carregava não apenas suas armas, mas também o peso de um destino que nenhum deles poderia prever.

Os usípetes eram uma das inúmeras tribos germânicas (o nome “Germânia” é um nome romano. Eles mesmos não se chamavam assim). Eles foram forçados a abandonar suas terras ancestrais devido à expansão militar dos suevos (com V, mesmo, e não “suecos”) germânicos, um grupo de povos originários da região entre os rios Elba e Oder, na atual Alemanha. Os suevos eram conhecidos por sua força militar e habilidade em combate, frequentemente entrando em conflito com outras tribos e negligenciando a agricultura em favor da guerra.

A localização exata da pátria original desses povos permanece um mistério, mas na época de Júlio César, os suevos já haviam se estabelecido em uma vasta região florestal a leste dos Ubii, que então habitavam a margem leste do Reno, diretamente oposta ao que hoje conhecemos como Colônia.

A localização exata de da terra natal dos usípetes não é clara, mas acredita-se que eles possam ter vindo da área do rio Weser, a leste dos sigambri. Durante o período de migração, os usípetes se uniram aos tencteros, outra tribo germânica, e juntos tentaram se estabelecer a oeste do Reno. No entanto, encontraram resistência dos romanos, liderados por Júlio César. César saiu vencedor.

O exército romano era uma máquina militar implacável, mas o que poucos sabem é que eles contratavam mercenários de outros países, ainda mais os que eles conquistaram, e os romanos – que segundo a Kate Lyra eram muito bonzinhos – faziam uma proposta que não podiam recusar: lute conosco (ou vá pra vala); eram os Auxilia (ou tropas auxiliares), recrutados principalmente entre os peregrini, súditos provinciais livres que não possuíam cidadania romana e constituíam a grande maioria da população nos séculos I e II (c. 90% no início do século I). As legiões romanas, mesmo, só admitiam cidadãos romanos. Os membros da Auxilia eram segundo escalão, e tratados como segundo escalão em tudo.

Os usípetes da presente história estavam servindo na Cohors Primae Ubiorum descobriram o modo romano de ser da maneira mais brutal. Acostumados com a guerra tribal o valor da bravura individual e a iniciativa, mas agora se viam forçados a marchar em formação perfeita, construir acampamentos fortificados todas as noites e suportar punições severas por qualquer desvio do protocolo militar romano. As rações dos Auxilia eram diferentes das Legiões, os castigos eram mais severos.

O centurião responsável por seu treinamento, cujo nome se perdeu na história mas cuja reputação por crueldade sobreviveu, empurrava esses homens além de seus limites. As longas marchas sob o peso de equipamentos romanos, os exercícios intermináveis e a alimentação precária começaram a corroer não apenas seus corpos, mas também seus espíritos. A tensão crescia a cada chicotada, a cada insulto, a cada companheiro que sucumbia ao regime brutal.

Em uma noite particularmente fria, quando o vento uivava como os lobos de suas terras natais, algo dentro deles se quebrou. O motim explodiu com a força de anos de humilhações acumuladas. O centurião e os instrutores, que dormiam seguros em suas tendas, jamais veriam o próximo amanhecer. O sangue romano tingiu de vermelho a terra da Britânia, e isso era apenas o começo!

O plano de fuga que se seguiu demonstrou uma audácia que impressionaria até mesmo seus inimigos. No porto próximo, três pequenos navios de guerra romanos (liburnicae) aguardavam, suas velas dobradas como asas adormecidas. Os germânicos, que nunca haviam navegado além dos rios de sua terra natal, sabiam que precisariam de experiência marítima. A solução veio na forma de três pilotos locais, capturados e forçados a guiar as embarcações.

A jornada que se seguiu transformou-se em um pesadelo marítimo. As águas do Mar do Norte, notoriamente traiçoeiras, testaram não apenas suas habilidades de navegação improvisadas, mas também sua sanidade. Os capitães dos navios resistiram à cooperação, forçando os amotinados a confiarem em suas habilidades de navegação limitadas. Isso possivelmente levou ao seu lento progresso e, sem querer ou não, eles teriam navegado por toda a ilha.

A paranoia crescente de que estavam sendo enganados pelos pilotos levou à execução de dois deles – uma decisão que logo se provaria fatal para suas chances de sobrevivência.

Contornando a costa escarpada da Britânia, eles se viram presos em um limbo entre o mar hostil e uma terra ainda mais hostil. Os soldados tentavam chegar na costa em busca de provisões, mas as tribos britânicas, longe de oferecerem refúgio a esses desertores do poder romano, os receberam com lanças e pedras. Cada tentativa de desembarque para buscar comida e água transformava-se em uma batalha sangrenta.

Foi então que a fome, mais implacável que qualquer inimigo romano, começou a cobrar seu preço. O que começou com o consumo dos couros de seus equipamentos logo se transformou em algo mais sombrio. Os relatos preservados por Tácito em sua obra “Agrícola” não poupam detalhes sobre como esses homens, outrora orgulhosos guerreiros, foram obrigados a comer, a princípio, os mais fracos de seu número, e depois selecionar por sorteio quem seria o próximo a servir de alimento para os sobreviventes.

Como os poucos que sabiam navegar tinham sido mortos, os que restaram perderam seus navios por não saber como velejar; acabaram sendo vistos como piratas e foram interceptados. Quando finalmente alcançaram a costa dos frísios, território que hoje corresponde aos Países Baixos, poucos restavam para contar a história. Alguns foram mortos e outros acabaram capturados por tribos locais e vendidos como escravos, completando um círculo irônico ao retornarem às terras do império do qual haviam tentado escapar.

A história dos usípetes, preservada nos escritos de Tácito e posteriormente estudada por historiadores modernos como Guy de la Bédoyère, serve como um testemunho perturbador dos custos humanos da expansão imperial romana. Mais que um simples relato de deserção, é uma narrativa que expõe as fraturas profundas em um império multicultural, onde a romanização forçada frequentemente produzia resultados catastróficos.

Há muito, muito tempo. Disseram que guerras não fazem ninguém grande. Talvez, a luta pela liberdade faça.

3 comentários em “A história de um motim no exército romano

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.