
Marte nem sempre foi o deserto frio que vemos hoje. Há evidências crescentes de que a água uma vez fluiu na superfície do Planeta Vermelho, bilhões de anos atrás. E se havia água, também deve ter havido uma atmosfera espessa para impedir que essa água congelasse. Mas, por volta de 3,5 bilhões de anos atrás, a água secou e o ar, antes pesado com dióxido de carbono, afinou dramaticamente, deixando apenas um resquício de atmosfera que se agarra ao planeta hoje.
Para onde foi a atmosfera de Marte?
Esta pergunta tem sido um mistério central na história de 4,6 bilhões de anos de Marte. Dois geólogos do MIT, Oliver Jagoutz e Joshua Murray, propõem que grande parte da atmosfera perdida de Marte pode estar presa na crosta coberta de argila do planeta.
Enquanto havia água em Marte, a fase líquida poderia ter se infiltrado em certos tipos de rochas e desencadeado uma cadeia lenta de reações que progressivamente retiraram dióxido de carbono da atmosfera e o converteram em metano. Processos semelhantes ocorrem em algumas regiões da Terra, e os pesquisadores usaram seu conhecimento dessas interações para aplicar a Marte.
Eles descobriram que a argila do planeta poderia conter até 1,7 bar de dióxido de carbono (1 bar = 100.000 Pascals ou 100.000 N/m² ≈ 0,987 atm), o que seria equivalente a cerca de 80% da atmosfera inicial do planeta. É possível que esse carbono marciano sequestrado possa um dia ser recuperado e convertido em propelente para futuras missões entre Marte e a Terra, mas eu não apostaria nisso, pois, converter CO2 em metano demandaria muita energia, e isso não é um recurso abundante em Marte.
Jagoutz e Murray focaram em um tipo de mineral argiloso de superfície chamado esmectita, que é conhecido por ser uma armadilha altamente eficaz para o carbono. Eles mostraram que a esmectita na Terra provavelmente era um produto da atividade tectônica e que, uma vez exposta à superfície, os minerais argilosos agiam para reduzir e armazenar dióxido de carbono suficiente da atmosfera para resfriar o planeta ao longo de milhões de anos.
Ao olhar para um mapa da superfície de Marte, Jagoutz percebeu que grande parte da superfície do planeta estava coberta pelas mesmas argilas esmectitas. Eles desenvolveram um modelo simples de química de rochas e aplicaram a Marte, onde a crosta é composta principalmente de rocha ígnea rica no mineral olivina.
Eles estimaram que, se Marte estiver coberto por uma camada de esmectita com 1.100 metros de profundidade, essa quantidade de argila poderia armazenar uma enorme quantidade de metano, equivalente à maior parte do dióxido de carbono na atmosfera que se pensa ter desaparecido desde que o planeta secou.
Em resumo, as estimativas dos volumes globais de argila em Marte são consistentes com uma fração significativa do CO2 inicial de Marte sendo sequestrada como compostos orgânicos dentro da crosta rica em argila. De certa forma, a atmosfera perdida de Marte pode estar escondida à vista de todos.
Mas pode ser que não. Quando chegarmos em Marte descobriremos.
A pesquisa foi publicada no periódico Science Advances.

o Total Recall está cada vez mais perto de se tornar realidade
CurtirCurtir