Quando duas mulheres brigaram de peitos de fora por causa de umas flores

Eu gosto de histórias apócrifas, que como diz o Analista de Bagé, apócrifo é mentira bem-educada. Eu considero aquelas historinhas que, se não são verdade, adoraria que fosse. Por exemplo, as pessoas viram tanto filme de Bang-Bang que acham que duelos-ao-pôr-do-sol eram algo corrente. Não eram, mas deixarei isso para outro dia. A história que contarei hoje – que ao que tudo indica não ocorreu, mas estou pouco me lixando e vou contar assim mesmo –toma lugar em Liechenstein, em 1892. Por causa de um arranjo de flores, duas digníssimas senhoras resolveram ir às vias de fato. Briga? Soco? Rabo de arraia? Puxão de cabeços e unhadas? Isso é para a plebe. Nobre resolve suas diferenças num duelo de espadas, e as duas senhoras foram para o Campo de Honra.

Sem a parte de cima dos vestidos. Sim, isso mesmo: de topless!

A primeira envolvida era Pauline Clémentine Marie Walburga, princesa de Metternich-Winneburg zu Beilstein, neta do estadista austríaco da era napoleônica, o príncipe Klemens Wenzel von Metternich, que trabalhou a serviço do Ministro do Exterior do Império Austríaco e Chanceler mais tarde. Pauline casou-se com seu tio, Príncipe Richard von Metternich, em 1856, e era a sensação da época, uma socialie de alta classe ou uma influencer, como falamos hoje. Só não era Digital Influencer, era algo como Daguerreotype Influencer.


5/10. Não merece uma segunda olhada.

Como toda socialite e influencer, Paulina-Clementina tinha as suas concorrentes e desafetas, que não por acaso eram outras socialites influencers, mas uma especial lhe subia nos nervos: a condessa Anastasia Kilmannsegg, esposa do Statthalter da Baixa Áustria, que seria uma espécie governador, administrando determinada área, assumindo tarefas administrativas em seu distrito em nome do rei, príncipe ou no caso, imperador (a Áustria era um império nessa época).

A divergência começou porque Paulina-Clementina (parece nome de personagem de novela mexicana) e tia Anastásia queriam aparecer mais que todo mundo, arranjando as flores na Internationale Musik und Theaterwesenausstellung, um evento de ricaços para ricaços celebrando música, teatro e artes em geral, numa feira mundial a focar exclusivamente em música e teatro, e a própria ideia de “música clássica”, definida como música europeia de meados do século 16 até o final do 19, nasceu lá no dia 7 de maio de 1892. Era “O” evento, e ninguém queria ficar de fora, nenhuma dama da alta sociedade poderia sonhar de ficar de fora. Os homens só queriam ir, fumar charuto, mostrar que era mais rico que os demais e olhar a bunda falsa dos vestidos de senhoras.

 
Você não achou que aquela bunda era de verdade, achou?

Paulina-Clementina e Tia Anastásia brigavam para saber quem era mais influencer que a outra ocupando cargos de voluntariado, e este evento era único na vida! A princesa serviu como presidente honorária, a condessa como presidente do Comitê de Senhoras. Foi ideia da Paulina-Clementina, de fato, expandir o alcance do festival para cobrir tanto o teatro quanto a música, e torná-lo internacional (estamos falando de Europa, claro! Ninguém dava bola para pseudopaís sulamericano), em vez da ideia original que era uma exposição muito mais modesta dedicada para a história da música austríaca. Tia Anastásia deve ter tido que engolir o fato que não foi ela quem teve a ideia.

Paulina-Clementina também fundou o Desfile das Flores na rua principal do Prater, uma tradição que ela começou em 1886 e continua até hoje, e ela foi descrita em um jornal como “tendo herdado uma coragem que beira a insanidade de o pai dela, o conde Sandor, que era famoso por suas extravagâncias estúpidas.”

Paulina-Clementina já era uma senhora um tanto idosa para os padrões daquela época (tinha 56 anos) e ficou muito irritada com as intromissões de Tia Anastásia, e a desafiou para um duelo. O problema era que duelos eram ilegais na Áustria. Como resolver? Ora, picando a mula para outro local, e o local escolhido foi Vaduz, capital de Liechtenstein. Quem presidiu o duelo foi a Baronesa Lubinska, que deve ter amado a ideia, porque ela também era uma ricaça ociosa da Polônia, e saiu de Varsóvia o mais rápido que pôde para comandar a peleja. Lubinska era médica, embora não-praticante, já que estamos no século XIX e mulher era apenas peça de ostentação com aquelas bundas falsas que eu já falei.

A Baronesa era discípula dos princípios de Lister, e sabia que cortes davam em infecções e isso não acabava em boa coisa. Assim, temendo que os vestidos sujos de sangue causassem uma infecção, a Baronesa (acho que ela tinha outras ideias, mas vá lá) deu a ideia das duas duelarem só com a parte debaixo dos vestidos, mas não um duelo até à morte. A primeira que tomasse um corte e saísse sangue perdia. Os criados homens foram instruídos (com uma leve ameacinha básica, obviamente) se virarem, e as duas nobres ficaram de seios nus, como Deus fez e o Diabo gosta.


Dramática reconstituição

Após algumas trocas de golpes de florete (o florete não tem lâmina, só uma ponta bem pontuda no melhor dos pleonasmos), Tia Anastásia ganhou de presente um pequeno corte no nariz e o outro no braço. Os relatos contemporâneos são esparsos e desencontrados e não se sabe ao certo se isso realmente aconteceu. Pelo sim, pelo não, a vencedora foi Paulina-Clementina (não era de Jesus), e o arranjo floral que foi ornamentado foi exatamente o que ela tinha sugerido.

O que temos são fofocas e mais fofocas, mas isso ficou tão entranhado na imaginação popular que nos teatros não tão chiques como os que Paulina-Clementina costumava frequentar começaram a fazer duelos encenados com dadivosas moças duelando com seus belos faróis à exposição. Não apenas isso, cartões-postais ficaram muito em voga sendo trocado por amigos e as senhoras da altíssima sociedade fingiram que nada daquilo existia.


Eu aprovei!

Verdade? Mentira? Que importa? Se pode ter acontecido? Bem, Tycho Brahe perdeu metade do nariz num duelo com outro Zé Ruela para saber quem era o melhor matemático. Se pôde haver um duelo por causa de algo fútil como Matemática, que dirá algo importantíssimo quanto um vaso de flores!

3 comentários em “Quando duas mulheres brigaram de peitos de fora por causa de umas flores

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