Analisando séries e filmes de super-heróis XVIII

A morte e ressurreição de Jesus, digo, da Liga da Justiça

O “Liberem Snyder Cut” foi um dos maiores movimentos de fãs. Curiosamente, a Warner ouviu, mas ouviu mais ainda o Zack Snyder, que conseguiu convencer os executivos da DC a refilmarem, digo, remendarem o filme da Liga da Justiça. Warner gastou 70 milhões de dólares e acabou refazendo cenas, refilmando diálogos e dando uma recauchutada em muito dos efeitos visuais… mas não todos.

De início, devo dizer que o Snyder é um cuzão. Eu sei, o problema do Joss Whedon não ter filmado como ele queria, mas era isso ou amargar um grosso prejuízo, pois nem ia dar pra vender ingresso de um filme que jamais existiria. Snyder tem um grande peso da War-DC e conseguiu refazer o filme. Como sempre, algumas coisas eu gostei, outras senti falta e outras eu detestei.

Para início de conversa, tem o lance de usar aspect ratio 4:3 ou 1,33:1. Tipo… PARA QUE ISSO? A desculpa oficial é que ele tenciona apresentar no IMAX (o de verdade, e não esta gambiarra que tem aqui no Brasil). Só que há um disclaimer no HBO Max:


Visão criativa a minha bunda, Snyder!

A resolução 4:3 tem prós e contras, mas eu consigo ver mais contras do que prós. De início, este aspect ratio privilegia a altura da cena e o volume dela, mas peca pela profundidade e cenário em volta. Na cena que o Super-Homem acorda da morte e está confuso, Snyder dá uma bela achatada na cena que fora originariamente em widescreen, e apelou para a desculpa que o Flash em ultravelocidade deforma o espaço ao seu redor

É nítido como o Snyder preferiu dar ênfase aos músculos do Super-Homem. Ele também alterou a cena do por que o Ciborgue atacou o Super-Homem. Na versão Whedon, o sistema de defesa do ciborgue acha que o Super-Homem é uma ameaça. Na versão Snyder isso é melhor explicado porque o Ciborgue tem uma visão apocalíptica, com o Super-Homem se tornando um carrasco de todo mundo (voltarei a este assunto daqui a pouco) e, por isso o corpo cibernético do Ciborgue reagiu. Outra parte da cena removida é quando o Super reconhece o Batman e chega bem próximo dizendo que ele não o deixava viver e não o deixava morrer, perguntando em seguida se ele sangrava (referência ao BvS).

Quando o Snyder pode, ele mantém a imagem original, só fazendo os cortes e aparando as arestas para caber no aspect ratio. Em outras, ele deforma mesmo, já que a parte cortada tiraria toda a noção do que está acontecendo na cena, e muitas vezes se está perdido com isso.

Snyder mexeu em tudo o que podia, mantendo poucas semelhanças com o Liga do Whedon, o que resultou num filme de 4 horas. Snyder viu os erros do Whedon e viu os próprios erros. corrigindo todos e soltando migué que era assim que queria desde o início. Não era. A começar pelo vilão, que seria, sim, o Steppenwolf, e não Darkseid. Em entrevistas, Snyder reconheceu que a motivação do Steppenwolf era libertar a Heggra, sua irmã, esposa de Yuga Khan e mãe de Darkseid. Ela estava presa e desmembrada nas 3 caixas maternas, mas no filme, ela é a mãe de Steppenwolf.

Não, Darkseid não era para aparecer. Snyder nesses 4 anos teve tempo de refazer todo o enredo, estudar o que deveria ter sido mudado e agora vende como se fosse a ideia dele logo de início, como as matérias de 2017 traziam. Snyder teve tempo, dinheiro e paciência e fez um filme de 4 horas, o que alegam que só funciona no streaming, mas esquecem que muitos filmes tem 3 horas de duração e ninguém reclama. A DC que sempre teve frescura de meter o machado, capando o filme, e isso foi o que deu de ruim no BvS, não o Martha Ex-Machina.

O Flash também mudou. Saiu aquele garoto piadista e alívio cômico para alguém com mais consciência dos seus poderes. A cena que ele salva Iris West chega a ser poética, a música é maravilhosa e compõe bem a sequência. Dá até para esquecer que ela não faz sentido, pois a rua era estreita e o caminhão não tinha como desenvolver alta velocidade. Não apenas isso, Iris sai com o carro e ainda estava devagar. Quando bate, o máximo o carro seria jogado de lado, mas a cena dramática precisava aquele capotamento. Outra coisa que dá para quase esquecer (só quase) é que Iris estava sem cinto de segurança. Ainda assim, a cena ficou bonita, coroando com uma piadinha quando ele no modo ultra-veloz pega umas salsichas para dar pros cães.

Sim, o Flash está bem confortável com seus poderes. Ele já tinha viajado à velocidade da luz antes, mas preferia não fazê-lo, como é dito no filme. Isso deve ter um motivo que será explicado no filme solo do Flash, que se chamará Flashpoint [Paradox], baseado possivelmente na HQ de mesmo nome, em que o Flash tenta salvar a mãe, e consegue… mas isso dá uma zona na linha temporal, as Amazonas estão em guerra com os Atlantes, o Super-Homem foi aprisionado quando chegou na Terra e Bruce Wayne foi quem morreu no assalto, com o pai virando o Batman e a Martha (POR QUE VOCÊ DISSE ESTE NOME?) vira o Coringa.

Outro ponto que foi trabalhado desde BvS: o Super-Homem se tornando um ditador, talvez semelhante ao que aconteceu em Injustice: Gods Among Us, quando o Coringa engana o Super e este mata Lois Lane sem querer. Super enlouquece e faz uma ditadura, governando com mão de ferro. Os soldados tem o símbolo da Casa de El na ombreira e capacetes de soldados nazistas, numa cena sutil feito uma revoada de hipopótamos:

Notem que o Super está com a roupitcha azul e capa vermelha, mas no Snyder Cut da LJ, o Super está com a roupa preta

Esse é o Knightmare, um pesadelo com um quê premonitório do que vai acontecer. Os heróis morrerão em sua maioria e Darkseid controla o Super de forma a fazer dele o seu sicário, mas porque os soldados com o símbolo da Casa de El? Isso ficou pendurado e o Snyder estava pouco se lixando. Uma falha no roteiro, mas vão apelar para “foi sonho”. Por que estas visões? Batman e Ciborgue? O Ciborgue ainda tinha sentido, pois ele é feito com material da Caixa Materna e a Caixa Materna mostrou o futuro (ela tem este poder? Parece que sim). Mas o Batman? Espero que deem um jeito nisso (dica, não vão. Depois eu digo o motivo).

Pelo visto, o Batman tinha razão em ficar preocupado com o Super-Homem ser uma ameaça em potencial, já que é praticamente um deus, o deus da Força, como mostrado em Darkseid War. Batman estava certo mais uma vez!

O Ciborgue, por sinal, é o melhor personagem neste filme. Seu desespero, raiva, indignação, recusa de participar e, por fim, aceita seu papel na luta é a própria Jornada do Herói, estabelecido por Joseph Campbell. É o Ciborgue que nos diz sobre o que é o filme (achou que eu não ia falar disso?). A história do filme é sobre a relação de um filho com seu pai ausente. Ausente, mas que nunca deixou de amá-lo, deixando uma mensagem para ele, que é escutada no final, que no Whedonverse, o filme termina com Lois Lane escrevendo uma matéria de jornal, mas a versão com o Silas faz mais sentido. Lois escreveu sobre heróis voltando, mas eles estavam do outro lado do mundo salvando o planeta. Ninguém estaria sabendo. Snyder consertou isso, ainda mais porque deu um motivo do por que Steppenwolf escolheu aquele lugar: uma cidade fantasma radioativa, cuja radiação foi usada como combustível para a construção da fortaleza.

O Ciborgue cresce no filme, é ele quem precisa aprender a ser herói, não o Flash. Flash, como falei, já tinha consciência de si e, fez jus ao legado básico da DC, pois, o Flash é a causa e a solução de todos os problemas do Universo DC, e é ele quem salva a todos ao viajar mais rápido que a luz, voltando no tempo e impedindo que a Caixa Materna destrua a Terra. Victor, o Ciborgue, busca o amor do pai, e só entende depois que sempre teve, e viu seu pai se sacrificar para marcar uma as caixas maternas de forma a irem até ela.

No tocante às cenas de ação, Snyder chutou o balde e pensou “çaporra não vai pro cinema, dane-se o PG-13”, e meteu violência com a Mulher Maravilha quebrando os terroristas de porrada, com muito sangue espirrado na parede e um terrorista pulverizado quando ela bateu seus braceletes forjados por Hefesto. O que ficou ruim nesta sequência: a motivação dos bandidos. O Super-Homem tinha morrido e, com ele, toda esperança. Assim, grupos anarquistas proliferam, e o cara vai matar todas as pessoas no banco, além de mandar 4 quarteirões pra vala para que o mundo volte à Idade das trevas. Sentido? Nenhum. Ademais, aquela maleta mal ia explodir o prédio, mas nunca 4 quarteirões.

NÃO! Não vou parar para imaginar que tinha outros explosivos. Não me sinto obrigado a tampar buraco de roteiro. Ainda assim, me senti conectado com o drama das crianças lá, prestes a morrer, com uma cena mais longa e melhor elaborada, mas que não acrescentou muito, salvo o diálogo de Diana com a garotinha, em que a Campeã de Themiscyra diz para a menina que ela pode ser o que quiser nada vida.

As motivações dos vilões são melhores, mais claras. Steppenwolf participou de um motim em Apokolips para derrubar Darkseid. Perdeu e matou os revoltosos para cair nas graças de seu mestre, mas não funcionou. Darkseid sim, é o vilãozão e Steppenwolf é um servo buscando o perdão do seu senhor. O CGI melhorou bastante, com o Steppenwolf com mais cara de alienígena, e aquela cabeçorra é dele mesmo e não um elmo chifrudo.

O Steppenwolf do Whedon parece um cosplay que não gastou muito. O CGI da armadura de Lobão-sem-os-ronaldos a transformou em algo tão vivo quanto seu dono e o CGI de Darkseid e de DeSaad também ficaram ótimos, mas só. Na cena das amazonas lutando contra Lobão-sem-os-ronaldos, vemos elas montando em cavalos de computação gráfica tosca. Outra coisa que ficou meio sem sentido foi o Super usar a ruiopoa preta. Não faz sentido, apesar de ser uma referência ao arco Reign of Supermen.

Kal-El é ressuscitado com a ajuda do Erradicator, e a roupa preta era porque ele estava num casulo recebendo nutrientes e energia para poder voltar à vida. O traje preto do Super no filme da LJ é apenas o Snyder querendo fazer tudo diferente, mas ainda assim metendo a música Halleluja do Cohen. O Snyder adora esta música e enfia em todos os lugares, desde Watchmen.

A cena de luta do Super com o Lobão também foi excelente quando Lobão vai dar a machadada e ele aparece e sequer sente a porrada, dizendo em seguida que ele não está impressionado. Uma boa entrada, tão boa quanto a do Whedon, mas substituir os temas ficou uma bosta, como o coral cantando como gregas cada vez que Mulher Maravilha aparece, enquanto o tema dela é muito melhor, mas só toca uma ou duas vezes. Nada de tema pro Flash ou Batman. Pro Super, Snyder usou o tema do Man of Steel, mas ainda prefiro o do John Williams.

Quase todas as piadinhas foram cortadas, deixando apenas as que o Snyder idealizou, reforçando o que eu falei no outro artigo:  A Liga da Justiça Whedoniana é a Liga da dupla Giffen/DeMatteis, enquanto a do Snyder é a do Morrisson/Waid. Snyder limou tudo o que foi idealizado pelo Whedon, e por isso,  eu digo que ele é um cuzão. Foi ingrato com o Joss, alegando que tudo foi feito errado e péssimo. Fácil quando você não pega algo pela metade, com orçamento e tempo estourados e todo mundo enchendo o saco.

Não apenas isso, o que Snyder não pôde mudar, zuou com aquela mania de cores inexistentes, fazendo uma Mera morena de cabelo castanho e a roupa do Super ser preta, parece que era para não mostrar cor nenhuma, mesmo. As tomadas no porto de Gotham estão tão sem cor e sem vida que ficam claramente CGI, e para juntar o insulto à injúria, ainda tem a versão em preto-e-branco. O que esse sujeito tem na cabeça? A única coisa que funcionou bem foi o traje do Batman, que na versão Whedon é um azulado esquisito no padrão Marvel. Padrão esse que faz os filmes serem feios, como é dito neste ensaio (tem legenda em português):

Para alguém vivendo nas sombras, o Batman ter a roupa preta, bem escura funciona, mas os outros, não. O toque do Whedon foi superior nisso, com os super-heróis vestidos como super-heróis. Mas Snyder tinha que ser diferente. Não que ele não tenha boas tomadas. A cena do milharal é linda, e mostra muito bem quando ele quer, ele consegue. A cena mostra o Super voltando a ser quem ele é, ele renascendo e o mundo voltando a ser colorido, com as cores da Esperança, as cores da Casa de El, pois é isso que aquele S significa. Chega a ser esquizofrênico a armadura brilhante de Steppenwolf, com aquela textura multicolorida nos reflexos, com os detalhes “vivos”, e chega nos heróis e é tudo tão feio. Tudo escuro. Se fosse no cinema 3D, não daria pra ver absolutamente nada, quando os filmes da MM e do Aquaman são muito coloridos, lindos de se ver e maravilhosos para acompanhar o que está acontecendo, mesmo nas profundezas do oceano.

A história, entretanto, está robusta, bem cuidada, mas com falhas, pois nada é perfeito. Darkseid chega na Terra, descobre a fórmula da Anti-Vida e é expulso pelos guerreiros de todos os lugares, sejam homens, atlantes, amazonas ou deuses gregos. Tem até um Lanterna Verde. Darkseid é derrotado, sai todo fodido, e esquece que foi aqui que ele encontrou esta fórmula? Não faz sentido; por que ele esqueceria? A Fórmula da Anti-Vida é o que dá a capacidade de acabar com toda liberdade e vontade dos seres vivos. A vontade que será esmagada e controlada com mão de ferro. Na cena que o Super pega o cadáver da Lois na Batcaverna, durante o “sonho” do Knightmare, ele é controlado pelo Darkseid, mas se Darkseid ali já tinha o controle da Anti-Vida, por que Batman e os renegados não sucumbiram à vontade do gigantão malvadão? Outra falha… ou não, já que não é dito no filme que será assim. Como ela morre na Batcaverna e em outro Knightmare o Super diz pro Batman que Lois morreu por culpa dele, vemos de onde veio a motivação. Mas será que será assim? Não se sabe, mas é quase certo que não, já que Warner avisou que não tem interesse na continuação do filme da Liga. De minha parte, podem ficar só nos filmes solo que tá de bom tamanho.

De resto, o que se pode falar do Snyder Cut? É um ótimo filme, mas se ele tivesse apenas 2 horas de duração, ficaria muita coisa capada e pendente de novo. Mas podia ter cortado coisas que não tinha necessidade, como o Caçador de Marte ser o general. Tipo, ele não ajudou em nada quando Metrópolis tinha virado cinzas? Por que, Snyder?

Mais uma dúvida ficou pairando. Mas pelo menos. Reviveram a esperança de dias melhores, nem que seja outro filme do Azulão.

6 comentários em “Analisando séries e filmes de super-heróis XVIII

  1. A cena do Flash quando salva a garota ficou muito boa, o que ficou um pouco zuado foi o detalhe da velocidade do carro. Eu pensei que ele estava vendo o carro dela em câmera lenta antes da batida por conta da violência do capote, só que depois eu voltei um pouco a cena e percebi uma pequena parte ( logo antes do caminhão destroçar o carrinho de cachorro quente), que não é em câmera lenta pois dá para ver os pedestre caminhando normalmente, onde a mina está no máximo 10 km/h antes da batida hehehehe

  2. Um gafanhoto chamado Esperança, entendi…

    Não tinha muito interesse em assistir esse filme mas graças à sua crítica vou fazer um esforço. Bom texto.

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