Sobre médicos, empatia e os horrores do circo televisivo

Se você não está debaixo de uma pedra, sabe como anda dando ruim a reportagem que o Dráuzio Varella fez no Fantástico, que foi ao ar em 1º de março, sobre a solidão dos transsexuais nos presídios. Tudo muito bem, um deles estava abandonado lá há 8 anos, ninguém queria saber dele, coitadinho da criança. Até ganhou um abraço do bom doutor. O problema é que a TV do século XXI ainda acha que está na década de 50, com pessoas sem interesse ou sem poderem checar nada, quando em cinco minutos dá pra levantar a capivara de alguém, e foi o que aconteceu.

Fazendo pesquisa rápida, pessoal descobriu por que a Suzy Oliveira fora presa. Já havia um indício: ela estava cumprindo pena na Penitenciária I José Parada Neto, em Guarulhos, SP. A pista é que esta penitenciária é destinada a criminosos por abusos sexuais. Só que no caso da Suzy, a bagaça era pior do que se pensava.

Resumindo, Suzy atraiu uma criança de 9 anos para sua casa. Sodomizou a criança de forma bárbara, estuprando-a e depois a matou. Deixou o corpo escondido em casa, mas as leis da Química e da Física não se importam com isso. O corpo começou a entrar em estado de decomposição. Daí, Suzy pegou o corpo e jogou na frente da casa dos pais. Durante a investigação, chegaram até ela e agora cumpre pena.

Durante a reportagem, nada disso é falado. Curiosamente, Dráuzio fala dos crimes de outros presos (prestem atenção nessa parte) e foi todo solícito oferecendo carinho e dando um abraço para Suzy, no que as pessoas ficaram comovidas. Algumas colocaram crianças para escreverem cartas de incentivo e até fizeram uma vakinha para ela. Nem todo mundo sabia que tipo de presídio era aquele, então não juntaram lé com cré. Ou alguém juntou e começou a investigação. Deu ruim, muito ruim!

Boa parte das pessoas se sentiram manipuladas e traídas. Outras foram correndo passar paninho, os mesmos que acham um absurdo o goleiro Bruno receber propostas de casamento, sendo acusado de assassinato e ocultação de cadáver de Elisa Samúdio. A Internetosfera entrou em turbilhão.

Na hora do controle de danos, o perfil no Twitter do portal do Dráuzio (que deve ter algum estagiário por trás, mas isso é irrelevante) postou uma fala do bom doutor:

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Pois é. Ele visita os presídios sem se preocupar com os delitos, e nos programas de TV ele não pergunta pelos crimes. Só que ele perguntou. E pessoal jogou trecho do vídeo no qual ele fala que uma presidiária (trans) chamada Lola fora parar na prisão por roubo. Então ele sim, sabia. Ele também não estava trabalhando como médico e sim como jornalista, e se expôs de graça.

O caldo começou a engrossar ainda mais quando postaram um twit dele de 2017 dizendo:

https://platform.twitter.com/widgets.js

Isso foi o bastante para chama-lo de hipócrita. Ou a sociedade se cala perante estupro ou ignora o crime pregresso. Não dá para defender as duas coisas, não se você acha que o referido crime é abjeto. O circo estava armado.

As emissoras, farejando sangue, pularam em cima da carniça, e foram fazer entrevista com a mãe do garoto assassinado, e ela, com sua dor de mãe, disse que ninguém foi lá abraça-la, pelo que foi pelo repórter (prestem atenção nisso também). Alguns correram e fizeram vakinha para a mãe da criança e o barato está rolando até agora.

Mas qual é o assunto deste artigo? Pessoal já sabe disso, certo? Sim, mas não sabe os detalhes. E eu vou dar um crédito ao Dráuzio por inocência e incapacidade de antever o que as pessoas fariam: se solidarizar demais por ambos os lados, o que levou a saírem investigando tudo e levantando todos os podres de todo mundo.

Seres humanos, como larga maioria dos animais, tem uma programaçãozinha no fundo dos seus genes de procriar e proteger a espécie, garantindo que filhotes sobrevivam. Ainda mais animais sociais como seres humanos. É nossa característica reconhecer uma criança e protege-la, pois é a perpetuação de nossa espécie. Desenvolvemos cara de idiotas quando uma criança sorri para nós e temos resposta empática. Isso é abordado no livro O Macaco Nu, de Desmond Morris.

Temos também empatia com adultos sofrendo. Só um psicopata não tem, mas quando os dois lados entram em conflito, nós vamos preferir proteger a criança, e um assassinato bárbaro, com requintes de crueldade não será aceito.

Por outro lado, TV não existe para informar. Quem falou isso estava mentindo. TV existe para dar lucro aos seus investidores, e esse lucro vem do dinheiro injetado, mediante retorno da audiência. A programação precisa reter a atenção do público, e este precisa ter reações positivas. Reações negativas são um caos, pois as pessoas passam a não quererem mais assistir, o que gera impacto negativo.

Sim, a produção e o Dráuzio sabiam muito bem com quem estavam falando, mas vamos gravar. Só que aquele abraço foi visto como uma reação ótima com apelo emotivo e resposta mais positiva ainda pelos espectadores. Por isso mantiveram, e não foi por acaso que omitiram o crime de Suzy. Dráuzio deveria ter se tocado que não ia pegar bem, mas apostaram que ninguém iria checar nada, só que estamos no mundo Bigbrotherístico, em que todo mundo verifica todo mundo.

Dráuzio falhou e falhou feio. Por ter dado um abraço no criminoso? Não, pela ingenuidade de achar que aquilo não daria em nada. Mas deu e gerou uma cascata por todos os lados, com Direita apontando o absurdo que era aquilo e a Esquerda indo na direção contrária só por que a Direita falou aquilo, passando paninho. Mas aí você pergunta o que acha se fosse a filha desse pessoal? Xingam, tergiversam e não respondem, mesmo quando pessoas como eu fazem perguntas incisivas e diretas, daquela que só admite como resposta sim ou não.

Dráuzio também deveria ter se lembrado do que falara há 3 anos, ou alguém poderia chegar e perguntar: você mudou de opinião? O sim, daria que ele não vê mais estupro como uma coisa hedionda, o não significa que ele foi hipócrita em abraçar a criminosa de um ato que ele considera hediondo, e diz que ninguém deve se calar. Pessoal não se calou. A avalanche de merda estava descontrolada.

O presidente, que já odeia a Globo (o PT e toda Esquerda também, mas agora fingem que não, mas só até a próxima reportagem), usou isso ao seu favor, e eu acho que ele teria que ser um imbecil (mais do que de costuma) em não explorar isso politicamente. Isso levou a mais pessoas defenderem o Dráuzio, só para não darem o braço a torcer no ponto: ele abraçou um pedófilo sádico, psicopata e assassino. E esta imagem será formada na cabeça de muita gente. Pessoas com criança pequena em casa, que vai olhar seus bebês, olhar para a reportagem, olhar de novo pra sua cria e pensar “poderia ter sido com meu filho, poderia ter sido com minha filha”.

Foi uma exposição gratuita e desnecessária em troca da audiência. Conseguiram a audiência, mas a que preço? Outros canais estão lutando pela audiência explorando isso. Quanto a mim? Eu não tenho como abraçar um pedófilo assassino, e me recusaria a isso. Tampouco condeno ou ataco o Dráuzio, salvo para lhe dizer: VOCÊ FOI BURRO PRA CACETE!

Com relação à produção e direção do programa, não tem como defender. Deveriam ter sabido em que vespeiro iriam se meter, mas jogaram as fichas na mesa e pagaram para ver; mas de qualquer forma, as métricas vão lá pra cima, mesmo pelo serviço de streaming da Globo, em que vários reverão a reportagem, por um motivo ou o outro, e a produção mostrará aos seus investidores os números, pois é só isso o que interessa.

Aquele showzinho do repórter abraçando a mãe também é medido e sua intenção é criar empatia nos espectadores ultrajados, que se identificarão com ela, mas é apenas mais um espetáculo de um show de horrores fingindo ser jornalismo. Não é, nunca foi, nunca vai ser.

E, não. Eu não sou mais criança! Isso será substituído pela próxima polêmica, em que mais será discutido, mas no final não haverá final, senão a substituição por outra polêmica, e outra e outra.


PS. Eu procurei manter o artigo, ainda que sendo uma opinião, longe de discussões políticas, apesar de elas serem mencionadas, quando necessário. Eu cago e ando para político, seja de que espécie for, pois os acho um bando de parasitas. Por isso, não coloquei a reportagem do Fantástico, não coloquei a reportagem sensacionalista do repórter abraçando a mãe do menino morto, nem a brigalhada de todo mundo. No máximo os twits das citações do Dráuzio, que ao meu ver é o ponto principal da briga.

Você tem todo direito de vir vociferar aqui, é seu direito. O meu é te mandar à merda e apagar a porra do comentário que exagerar no retardo mental. Não gostou, foda-se. Vai ler publicação de Esquerda ou Direita, seja lá qual for a sua merda de afinidade.

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