Redes sociais moldam alimentação de crianças. Finja surpresa

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A programação infantil televisiva praticamente acabou no Brasil. Ou se tem programas para donas-de-casa ou programas evangélicos. Um dos culpados é efetivamente não ter patrocinadores para programas infantis, pois a legislação brasileira proíbe publicidade dirigida a crianças menores de 12 anos na Constituição, no Código de Defesa do Consumidor, no Estatuto da Criança e do Adolescente e na Resolução 163/2014 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Se você não pode veicular seus produtos, por que você iria patrocinar um programa a um público-alvo que não é o seu. É tipo no intervalo da novela Aventuras de Jesus, da Record, tiver propaganda do Terreiro de Umbanda Caboclo Feliz. Uma emissora só mantém programação mediante financiamento por patrocinadores e audiência. Se não tiver nenhum dos dois, já era, vai pra vala.

Agora vem o mais engraçado. Esse esforço contra publicidade na TV não está dando muito resultado, já que – SURPRESAAAA!!! – temos outras formas de mídia, essas “outras formas de mídias” (leia-se: redes sociais) estão afetando negativamente na alimentação de crianças.

Anna Coates é doutoranda do grupo de pesquisa de Apetite e Obesidade do Instituto de Saúde Populacional da Universidade de Liverpool. Ela pesquisa o efeito do marketing de mídia social de salgadinhos através de canais no YouTube e de perfis no Instagram.

Coates estudou o comportamento de 176 crianças (com idades entre 9 e 11 anos), as quais foram divididas aleatoriamente em três grupos iguais. A esses grupos, foi mostrado perfis do Instagram e youtubeiros com milhões de seguidores. A um dos grupos foi mostrado imagens do youtubeiro comendo esses lanches xexelentos (daqueles que não fazem bem, mas tanto adoramos), o segundo grupo foi mostrado imagens de youtubeiros com lanches saudáveis ??e o terceiro grupo foi mostrado imagens de youtubeiros com produtos não alimentares. Depois, foi oferecido lanches às crianças e foi observado quais elas escolhiam, entre variedades saudáveis e não tão saudáveis assim.

As crianças do grupo que viram as imagens de youtubeiros comendo qualquer porcaria consumiram 32% mais quilocalorias de lanches não-saudáveis e 26% mais quilocalorias levando em conta lanches saudáveis ??e não-saudáveis em comparação ao grupo que ficou vendo vídeos de temas genéricos sem envolver comida especificamente.

Breve explicação: Sabe salgadinhos industrializados? Eles não são saudáveis. Gostosos, mas nada saudáveis. Em comparação, um sanduíche de queijo e mortadela sereia mais saudável. Ambos carregam alta carga de alimentos energéticos (gorduras). As crianças que foram expostas aos vídeos com youtubeiro comendo qualquer porcaria comeram 32% mais dos salgadinhos industrializados e 26% a mais se levar em conta os salgadinhos e o sanduíche de queijo e mortadela (é um exemplo. Sendo uma pesquisa inglesa, o lanche deveria ter péssimo sabor, seja saudável ou não, mas disperso-me).

O grupo de crianças que viram vídeos genéricos não tiveram alteração no padrão alimentar em termos de ingestão de quilocalorias.

Grupos como o Alana são contra qualquer tipo de publicidade infantil. YouTube (ok, é o Google quem manda lá) já foi criticado por permitir propaganda nos vídeos que postam, como se ele fosse o responsável por todo conteúdo que colocam lá. Não que ele não tenha tentado. Ele tentou, mas vamos ser honestos em admitir que ele mesmo sabe que não é possível, então, joga um migué que está fazendo alguma coisa.

Mesmo aqui no Brasil, já teve gente criticando o Lucas Neto por seus vídeos de comilança de porcarias em quantidades cavalares e como isso afetou o filhinho. Bem, isso é um fato. Mas há um porém que não foi colocado na equação: pais.

Hoje, crianças não dormem mais às 8, 9 da noite. É justo então criticar que há programação com insinuações sexuais (ou nem tanta insinuação, partindo direto pro vâmu vê) em novelas e filmes já que tem criança assistindo? Não é mais fácil tirar do canal? Mesma coisa. Se você não verifica o que seu filho acessa na Internet, a culpa está na Internet ou em quem é o adulto em casa? (eu ia falar “responsável”, mas isso recaria num problema lógico)

É FATO que programação violenta afeta crianças. É FATO que qualquer programação afeta crianças. É FATO que pais imbecis afetam negativamente o desenvolvimento de crianças, dando-lhes permissão total para acessar qualquer merda, sem um mínimo de escrutínio do que andam vendo. A pesquisa mostra os efeitos de ver qualquer porcaria indiscriminadamente, mas isso não deve ser colocado como responsabilidade do site ou então começaremos a culpar programas de TV e seus patrocinadores, até o ponto de não haver um só programa infantil, para, em seguida, reclamar dos provedores de acesso à Internet pelo conteúdo que nossos rebentos assistem, para depois vendermos o sofá.

A pesquisa foi publicada no periódico Pediatrics

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Sobre André Carvalho

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