Mergulhadores, baços, genes e ética indo por água abaixo

Volta e meia aparece alguma notícia ouvindo algum especialista dizendo que não, seres humanos não têm mais para onde evoluir. Ou chegamos num ponto final evolutivo, e daí é extinção, ou evoluiremos de tal forma que deixaremos de ser humanos. Evolução riu e disse “Hold my genes!”

Um exemplo é o povo bajau, também conhecidos como “ciganos do mar” ou “nômades do mar”. Este povo do sudeste asiático ainda vive como caçadores-coletores, tirando do mar seu meio de sobrevivência. Acabou a comida ali, eles picam a mula para outro lugar e TCHBUM! Bóra pra pescaria subaquática. Mas há algumas coisas interessantes a saber sobre a biologia desse povo.

Os bajaus formam um povo com diferentes ramificações, mas que estão entre os últimos povos nômades do mar. Eles moram no chamado Triângulo de Corais, o lugar tido como sendo a maior biodiversidade marinha do mundo. Tem este nome por causa da imensa população de corais que tem lá. Não só isso isso, o Triângulo de Corais – uma região que banha Filipinas, Indonésia, Malásia, Papua Nova Guiné, Ilhas Salomão e Timor Leste, numa área de seis milhões de quilômetros quadrados – abriga mais de 3 mil espécies de peixes.

120 milhões de pessoas que dependem das águas da região do Triângulo de corais para alimentação e sobrevivência. Os bajaus estão entre eles e são moradores da região há séculos. Aprenderam tudo o que podiam sobre como sobreviver graças à pesca, passando boa parte de suas vidas na água, embora ainda usem óculos de madeira, uns pesos para afundarem e… mais nada. Eles mergulham sem equipamentos sofisticados e detém os recordes de mergulho sem equipamento adequado.

Sim, isso mesmo. Eles mergulham prendendo a respiração, caçam e ficam embaixo d’água por mais de 3 minutos brincando, chegando a mergulhar 79 metros de profundidade. Abaixo um vídeo mostrando crianças mergulhando tranquilamente a uma profundidade de 12 metros.

A drª Melissa Ilardo é pesquisadora do Departamento de Hematologia da Universidade de Utah e na época da pesquisa era doutoranda na Universidade de Copenhage. A página pessoal dela na instituição é uma bosta, pois só tem o nome e o e-mail. Vai o link do Research Gate, mesmo.

Ilardo ralou peito pra Indonésia para colher amostras e estudar o povo bajau. O que ela descobriu foi que a Seleção Natural acabou por selecionar indivíduos cada vez mais aptos a mergulhar a grandes profundidades. Os bajaus têm algumas características físicas interessantes: eles têm baços significativamente maiores do que as pessoas de uma aldeia vizinha que obtém seus alimentos por meio de agricultura e não da pesca.

O tamanho do baço é um diferencial importante porque ele age como um reservatório para hemácias (vocês sabem, os glóbulos vermelhos). Durante o mergulho, o baço se contrai e manda essas hemácias de reserva pro sangue, aumentando sua capacidade de transportar oxigênio. Essa resposta também foi encontrada em mamíferos de mergulho, como focas.

Análises de DNA revelaram outra mudança que acabou dando uma outra vantagem para a população de Bajau: um gene que ajuda a controlar os níveis de um hormônio chamado T4, que é produzido pela glândula tireoide. O T4 aumenta a taxa metabólica e, com isso, há um acréscimo na quantidade de energia que pode ser usada. Isso não só está relacionado com a regulação de oxigênio para evitar que seus níveis caiam muito, como também é responsável pelo tamanho dos baços.

Outros genes fazem com que o sangue não vá para onde é desnecessário, se concentrando no cérebro, coração e pulmões, de forma que estes órgãos vitais recebem mais oxigênio do que em outras pessoas. Na próxima mutação, eles viram atlantes.

A pesquisa foi publicada no periódico Cell, só que tem um pequeno detalhe: esta pesquisa sofreu muitas críticas, principalmente acusando-a de “pesquisa helicóptero”, como é dito numa reportagem que saiu na Science.

Pesquisa Helicóptero é a pesquisa que vai um monte de cabeças para algum lugar afastado – tipo Indonésia, Etiópia, Madagascar ou Paquetá – examina o local, coleta dados, cata umas amostras e rala peito pra casa, analisam as amostras em outros lugares e publicam os resultados com pouco envolvimento de cientistas dos locais visitados, ou, quando muito, os cientistas locais são usados para fornecer logística. Se as autoridades são consultadas, aí é contar com a sorte.

De acordo com a drª. Herawati Sudoyo, chefe do Instituto Eijkman de Biologia Molecular, em Jacarta, foram cometidos muitos erros na pesquisa Ilardo. A começar que a equipe de Ilardo não obteve nenhuma permissão do Comitê de Ética da Indonésia nem das autoridades locais. As amostras de DNA coletadas foram feitas sem permissão e documentação apropriadas. E alguns cientistas indonésios reclamam que o único pesquisador local envolvido no estudo não tinha conhecimento em evolução ou genética.

Já o dr. Eske Willerslev, diretor do Centro de GeoGenética da Universidade de Copenhague, disse que não é nada disso, que a equipe que ele liderou tinha uma permissão do governo indonésio e trabalhou duro para seguir as regras. O governo indonésio não disse nem que sim, nem que não, talvez pensando no quanto ganhou com isso. Melhor ficar de bico fechado.

O dr. Triono Soendoro (sem link), que chefia a Comissão de Ética para Pesquisa e Desenvolvimento Sanitário Nacional no Ministério da Saúde da Indonésia em Jacarta, confirma que a equipe deveria ter a aprovação de um comitê ético na Indonésia, mas neca. Isso sem falar que a equipe deu um balão nos regulamentos e mandou as amostras de DNA para Copenhague para análise. Ilardo diz que entrou com um acordo de transferência de material, mas para a transferência do DNA humano, ela deveria ter buscado a aprovação do Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento da Saúde em Jacarta. Tá uma confusão do Inferno e ninguém chegou a um acordo.

Lembrem-se: Cientista são seres humanos como quaisquer outros, e seres humanos só fazem merda. Por isso precisamos de regulamentos e comitês de ética, porque ciência não é nem deve ser bagunça.

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