Árvores fossilizadas mostram como o clima na Terra entrou numa fria

Quando falamos de Mundo Antigo, nos vem à mente dinossauros, claro. Junto disso, nos lembramos do Pedregulhão do Mal que os mandou pra vala. Alguns ainda se lembram da catástrofe que foi a Extinção K-T, em que 95% dos seres vivos foram limados da face da Terra. Tudo isso se deveu basicamente à mudança climática. Mas houve mais, muito mais. Só grandes extinções foram 6, apesar de muitos esquecerem quando o oxigênio começou a ser produzido por organismos fotossintetizantes e se mostrou tóxico para a larga maioria dos seres unicelulares.

Cientistas estudam várias evidências de mudanças climáticas que, se não foram tão poderosas a ponto de mandar grande quantidade de seres vivos pra vala evolutiva, foram notórias o suficiente para deixar marcas no planeta.

Maren Pauly tem mestrado em Ciência, o que é melhor que o título de “doutor”, na minha opinião. Ser mestre é muito melhor! Você fala “Mestre Yoda” e já pensa num jedi mucho phoda! “Doutor Yoda” parece nome de proctologista descendente de japoneses que trabalha num hospital público de subúrbio no Brasil.

Foco, André. Foco!

Pois bem. Mestra Pauly é pesquisadora do Departamento de Dinâmica Climática e Evolução de Terreno do Centro Alemão de Pesquisas em Geociências, que provavelmente tem uma palavra quilométrica para designar isso tudo. Pauly tem Twitter que não usa e posta fotos muito bonitas no Flickr e é o máximo que eu descobri dela, pois minha preguiça não deixou continuar.

Foco, André. FOCO!

Outro motivo que não me deixou continuar!

Maren pesquisa os eventos do período chamado “Dryas Recente”. Este, nomeado depois período foi marcado por um frio “repentino” (em termos geológicos), que seguiu a fase Allerød no final do Plistoceno há cerca de 12.700 a 11.500 anos, precedendo o período pré-boreal do Holoceno inicial.

Dados sobre este frio intenso e repentino foi encontrado em registros climáticos de núcleos de gelo da Groenlândia e sedimentos de lagos na Europa Central, tendo o nome vindo de uma planta da espécie Dryas octopétala, que se espalha predominantemente em condições de muito frio, e acabou sendo a marca principal que talo mudança no clima aconteceu. Praticamente, em certas camadas geológicas, pesquisadores encontraram uma proliferação em larga escala desta florzinha sapeca. Juntando 2 + 2, o resultado foi que, se havia grande quantidade de plantinhas que se alastram em ambientes muito gelados, a conclusão é que estava fazendo muito frio.

Durante a mudança climática abrupta e intensa da fase quente de Allerød para a inversão fria do Dryas Recente no Hemisfério Norte, houve um aumento na produção de gelo marinho, geleiras alpinas avançaram, houve aumento na ocorrência de tempestades e aconteceu uma profunda mudança na atmosfera. Os dados do núcleo de gelo da Groenlândia mostram quedas de temperatura de 10 a 15 ºC com reduções simultâneas no acúmulo de neve e amplificações na poeira atmosférica em menos de uma década! Durante o resfriamento rápido, os registros de sedimentos em lagos na Europa intensificaram o sinal de tensão, aridez e entrada detrítica, juntamente com mudanças ecológicas drásticas, cujos resultados são espacialmente heterogêneos em termos de mudança hidrológica, pois outros registros de lagos europeus encontram condições mais úmidas e aumento na quantidade e intensidade de precipitação. Foram tempos estranhos, muito estranhos, e você aí achando que seu canudo de refrigerante vai detonar com o planeta!

Na região do Mediterrâneo, há poucas informações climáticas sobre o Dryas Recente, e embora hoje o clima mediterrâneo seja caracterizado por verões quentes e secos e invernos relativamente suaves e úmidos (dependendo da região, claro), simulações por modelos computacionais especificam que este regime de verão seco / inverno-úmido também persistiu no Último Máximo Glacial, quando os mecanismos de forçamento climático foram substancialmente diferentes. Dessa forma, o que a pesquisa de Mestra Pauly mostra é que esta característica geral da sazonalidade estava ativa durante a transição de Allerød para o Dryas Recente.

Maren e seus colaboradores foram, então, dar um rolé na região do Mediterrâneo Ocidental, no sopé dos Alpes franceses na parte meridional (sul, ora pombas!). Lá, os pesquisadores ercontraram evidências de condições geomorfológicas altamente instáveis, em que as árvores subfósseis foram descobertas enclausuradas, estando bem preservadas por causa disso, dentro de um depósito de sedimentos aluviais, causado por múltiplos eventos de inundação.

Os pinheiros fósseis encontrados são uma forte evidência de como o clima no Mediterrâneo mudou naquele período tão estranho e tão frio. Por meio de datação de radiocarbono, Maren e seus colaboradores foram capazes de provar que os pinheiros enterrados tinham começado o seu crescimento nos dias quentes do Allerød, pouco antes do Dryas Recente e tinham sobrevivido ao repentino frio por várias décadas, tendo sido testemunhas deste evento.

Mas calma! Não ficou só nisso.

A pesquisa de Maren também apontou sinais do aumento do transporte de massa de ar do Atlântico Norte, com massas de ar úmidas vindas do Atlântico aumentando, enquanto a precipitação proveniente do lado do Mediterrâneo diminuiu, sendo evidenciado por uma variabilidade cada vez maior dos isótopos de oxigênio-17 da água do solo.

Mas isso…

Sim, eu sei. <voz fanha>Nhé, para que eu quero saber isso?</voz fanha>. Meu filho, você não quer nem saber das notícias que acontecem hoje. Não é uma questão de paleoclimatologia ou de Geologia. É que você é tosco mesmo. Nem sei porque está aqui.

Larga ele e volta pro artigo, André!

A pesquisa mostra coisas importantes. Entre elas, como nosso planetinha passa por mudanças severas no clima por motivos de “sei lá”. É tanta coisa envolvida que nem se tem notícia. Aliás, para ser sincero (e falarei uma coisa que poucos divulgadores científicos falam), eu sequer sabia deste evento ate ler a publicação. O legal de ter um site para divulgar Ciência é que eu mesmo aprendo muito. É ótimo para ter certeza de uma coisa: não foi o canudinho plástico que causou o Dryas Recente. Nós, humanos, também influenciamos o clima terrestre e fazemos isso desde que inventamos a agricultura. Vendo pesquisas como essa de Pauly vemos que a questão climática é muito mais sensível do que se faz crer.

De qualquer forma, só fico cada vez mais com um pensamento: estamos ferrados na próxima grande mudança climática.

A pesquisa foi publicada no periódico Scientific Reports e está lá inteirinha esperando pelo seu clique.

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