Um herói que salvou milhões morreu, e você não ficou sabendo

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Me dá náuseas quando chamam gente encerrada numa casa, com todas as regalias, sem fazer absolutamente nada, concorrendo a um prêmio milionário, de “heróis”. Não há heroísmo nisso. Não há nenhuma forma de altruísmo, pelo contrário. Heróis são quem colocam a vida em risco, que arrisca tudo visando um bem maior, como gente salvando pessoas de terroristas. E se quem salva uma vida salva o mundo inteiro, uma pessoa que salva literalmente o mundo inteiro não é apenas um herói, é algo supremamente acima de tudo isso, para o qual não há palavras nas línguas dos Homens, dos Elfos ou dos Anões.

Em 2014, eu falei sobre ele: Stanislav Petrov – o homem que salvou nossas vidas. O homem que salvou a todos nós de todos nós. Infelizmente, as notícias não são boas. Ele faleceu… em maio.

Eu não fiquei sabendo. Ninguém noticiou. Foram noticiar hoje, vários meses depois. Uma lástima. O Homem que Salvou o Mundo morreu no anonimato. Como você leu no artigo linkado (você leu, não leu?), ele viu computadores indicando possível ataque norte-americano. Apesar de todas as pressões, ele não lançou as contra-medidas russas. Teria sido MAD, Destruição Mútua Assegurada. Eu não estaria aqui hoje. Você não estaria. O mundo teria ido pro saco. Mas o então coronel Petrov resistiu a lançar o contra-ataque a algo que, na verdade, era um mal-funcionamento do computador. Enquanto hoje a nerdalhada fica se masturbando vigorosamente tecnologia, tecnologia… Petrov achava que humanos eram superiores que máquinas, pois humanos as construíram. Cabia aos humanos decidirem. Cabia aos humanos pensarem. Ele pensou… e nos salvou.

Medalhas? Honrarias? Não, ele foi levado para o QG do GRU, o serviço de inteligência militar e passou boas horas sendo interrogado. Foi rebaixado e deslocado para bem longe. Sua família o abandonou, mas ele voltou depois para cuidar de sua ex-mulher que sofria de câncer. Ele passou a viver sozinho, ignorando ser um herói. Segundo ele, “estava apenas fazendo o seu trabalho”.

O coronel Stanislav Yevgrafovich Petrov morreu aos 77 anos em 19 de maio em Fryazino, um subúrbio de Moscou. A morte não foi divulgada na época. Tendo sido confirmada por seu filho, Dmitri, de acordo com Karl Schumacher, ativista político que, depois de aprender em 1998 do papel da Guerra Fria do Coronel Petrov, viajou para a Rússia para encontrá-lo, se tornando seu amigo.

Não foi um Minuteman quem matou o cel. Petrov. Não foi o terrível RDS-220. Não foi um tiro na nuca dado em algum campo de prisioneiros num Gulag esquecido. A causa mortis foi a pneumonia hipostática. Uma simples pneumonia hipostática. Algo não muito heróico de se morrer, mas ele não precisou disso para ser reconhecido como herói que era.

Infelizmente, não há memorial para ele. Não houve um desfile nem uma medalha de Herói da União Soviética. Não há uma flama eterna, nem uma lápide de granito vermelho e nem seus companheiros desfilando em sua honra com passo-de-ganso. Não houve discurso, era apenas um bom velhinho humilde que faleceu, que com muito custo contou-nos sua história. Um homem que eu gostaria de ter conhecido. Um homem que eu gostaria de ter cumprimentado e agradecido pelo que fez por todos nós, em nome de todos nós. Um homem que foi reconhecido e ganhador do prêmio Cidadão do Mundo, que é mais que qualquer pedaço de lata pode traduzir ou daqueles prêmios Nobel da Paz que dão até para terroristas. Sim, é realmente melhor ser tido como um cidadão de um mundo inteiro. Do mundo que salvara outrora e que devia ser-lhe mais grato, mas o mundo não é como gostaríamos que fosse. Que posso eu fazer? Talvez, em sua homenagem, um poema de Pushkin.

É tempo, meu amigo, o coração cansou-se…
Cada hora voa, e é como se com ela fosse
um farrapo daquilo que pensamos vivos.
Tardará muito a morte? Ah, tudo é fugitivo.

Felicidade não, mas paz e liberdade
é quanto espera quem só ainda sonha que há-de
fugir — cansado escravo —, antes da noite escura,
a repousar nos longes da mais clara altura.

До свидания, товарищ. Спасибо за все.


Fonte: The Telegraph

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Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • Carol Almeida

    Poxa, eu conhecia sua história mas só soube da morte dele por esse texto. Esse é o verdadeiro Superman.