Stanislav Petrov – o homem que salvou nossas vidas

O horror que passou pelos olhos deste homem era indizível. Uma simples lâmpada fez um frio percorrer a sua espinha. Letrinhas percorrendo uma tela fez uma garra gelada segurar suas entranhas e a Morte o puxou para perto de si e disse, com um bafo sobrenatural: "Decida!". Ele tinha segundos para agir. O que ele fizesse ali selaria o destino. O homem fechou os olhos, e mesmo com toda a pressão em cima, ele decidiu-se.

Esta é a história de Stanislav Petrov, o homem que salvou a todos nós de todos nós.

As crises entre Ocidente e o Oriente começaram depois da queda da Alemanha nazista. Todo mundo queria um pedaço dos territórios outrora conquistados pela blitzkrieg; com os EUA defendendo o Capitalismo, dizendo que isso era o caminho para a Liberdade, e a URSS dizendo que não, que o Socialismo era o caminho para o Novo Homem, em busca da extinção das relações entre patrão e empregados, enaltecendo o poder da massa laboral.

Tudo uma pantomima idiota, em que a verdade é que ambos queriam enriquecer mais e mais às custas de países menores. Enquanto os EUA financiavam regimes autocráticos direitistas, a URSS partiu para as ditaduras de esquerda, como Cuba e o sudeste asiático. Os EUA disseram: "É ruim, hein?" e partiram para resolver os problemas do pessoal pobrinho, mandando armas para o Irã (e Iraque também), pros mujahedins do Afeganistão e foram para o sudeste asiático, começando pela Coreia e indo em direção à Indochina, já que a França já tinha tomado um piau por lá.

Chegando no Vietnã, os EUA estava assinando a sentença de morte de vários soldados, despejando toneladas e mais toneladas de bombas, comuns, BOOOOOOOOOM, e incendiárias, VUOOOOOOOOOOSH. Carl Sagan – mais tarde, no livro Pálido Ponto Azul – fez uma critica mordaz ao dizer que era irônico saber que quando o Homem chegou à Lua, em 1969, Richard Nixon deixou uma mensagem lá dizendo que nós estávamos indo em paz, enquanto se despejava toneladas de explosivos no Sudeste Asiático, mas prometia-se não ferir ninguém numa rocha sem vida.

Nesse ínterim, em 1962, aviões-espião determinam que algo havia de errado em Cuba. A análise de informações deu uma notícia muito desagradável a Kennedy. Depois da OTAN ter colocado bases na Turquia, Itália e na Inglaterra. A URSS achou que dois poderiam jogar da mesma forma, e mandou construir uma base de lançamento de mísseis em Cuba. Kennedy ficou bem puto da vida e disse, em outras palavras, que se aquela bagaça não saísse de lá, que Moscou ia pro cacete! Nikita Kruschev amarelou e o mundo sobreviveu por mais algum tempo perante Chefes-de-Estado maníacos (e não, Kennedy não era tão bonzinho assim).

Os EUA tomaram um piau no Vietnã, voltaram pra casa com muita vergonha e poucos soldados inteiros. As tensões entre Ocidente-Oriente não melhoraram muito. Quem viveu essa época já fazia planos pro que acontecesse durante uma guerra global termonuclear, dando origem a uma sucessão de obras como War Games, Ark-II e toda uma cultura Cyberpunk. O mundo era pós-apocalíptico, sucumbido depois de uma guerra nuclear, como hoje temos trocentos filmes de zumbis.

Na vida real, os governos não estavam tranquilos e as notícias veiculadas nos fazia questionar quando o botãozão seria apertado.

No meio de todo esse nervosismo, um avião subiu do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova Iorque em 31 de agosto de 1983. O voo KAL 007, da Korean Airlines, era um Boeing 747 comercial levando 240 passageiros e 29 tripulantes, com destino ao Aeroporto Internacional de Gimpo, Seul, Coreia do Sul. Como em 1983, não havia as tecnologias de navegação de hoje, o voo acabou inadvertidamente entrando em espaço aéreo soviético. Dois caças subiram. Das 3 aeronaves, as 3 desceram. Uma delas destruída.

O Voo KAL 007 foi abatido por um SU-15 (nenhum dos que estavam na aeronave sobreviveram) e o então presidente Ronald Reagan subiu nas tamancas e entrou em cena a equipe diplomática na base do "deixa disso" para todos os lugares. Se você tem um GPS no seu carro, foi por causa dos 269 mortos daquele voo, já que Reagan liberou o uso do sistema GPS para fins civis, apesar do projeto ser de 1973, baseado em parte em sistemas semelhantes terrestres de rádio-navegação desenvolvidos no início dos anos 1940.

O Tenente-Coronel Stanislav Yevgrafovich Petrov era um oficial do dia no bunker Serpukhov-15 perto de Moscou. Como tantos outros oficiais do Exército Vermelho, ninguém dava a menor bola para ele, e até hoje você também não daria e ficaria sem conhecê-lo. Mas no dia 26 de setembro de 1983, a vida de todos no planeta dependeram dele.

Um dos satélites soviéticos surtou e começou a enviar um sinal para o bunker de um ataque de míssil nuclear em andamento. Petrov deve ter congelado de medo, pois AQUI Ó que você não ficaria com medo. O computador do sistema de alerta "concluiu" que um míssil foi lançado de uma base nos Estados Unidos. O procedimento era claro: Mandar os yankees pra vala numa chuva de MIRV, lançado por um ICBM.

MIRV é acrônimo de Míssil de Reentrada Múltipla Independentemente Direcionados. Ele vem acoplado num Míssil Balístico Inter-Continental (coisa que Wernher von Braun projetou muito bem durante a Segunda Guerra Mundial), também chamado de ICBM. O MIRV nada mais é que um monte de ogivas que se desprendem e caem em lugares diferentes, aumentando o raio do estrago e mandando seu inimigo se encontrar com seu deus favorito.

Petrov ficou petrificado (desculpem, não resisti) e achou que aquilo estava muito errado. Era uma retaliação pelo que acontecera com o KAL007? Se ele mandasse os SS-20, Washington ia pras cucuias, junto com outras cidades norte-americanas, em retaliação? a OTAN faria um ataque em massa contra a URSS, retaliando a retaliação contra a retaliação dos EUA. O Pacto de Varsóvia faria uma retaliação contra a retaliação contra a retaliação da retaliação; e nós, a favelada do mundo, iríamos pro saco num inferno nuclear. O mundo se tornaria algo próximo do que estava no período Hadeano: fogo, cinzas, destruição e nenhum ser vivo.

Petrov não viu motivo para aquele suposto ataque e pensou que era algum falso-positivo (ou que diabo de nome ele tenha dito naquela hora para justificar que io sistema estava fazendo merda). Petrov declarou que alarme falso e todo mundo em volta dele pirando para ele soltar os mísseis. Ele recusou. Ele recebeu chamadas ordenando o disparo. Mais uma vez, ele ignorou.

Os minutos estavam passando. Se Petrov estivesse errado e não fizesse nada, ele seria o responsável por milhões de mortes na Rodina. Se ele estivesse certo e ordenasse o disparo, ele seria o maior assassino em massa da História, sendo que não haveria ninguém para contar a história.

Ele baseou sua decisão na ideia que um ataque nuclear seria enorme, visando sobrepujar quaisquer defesas soviéticas; mas os monitores mostraram apenas cinco mísseis . "Quando as pessoas começam uma guerra , eles não irão iniciá-lo com apenas cinco mísseis", lembrou-se de pensar no momento. Para um país do tamanho da Rússia cinco mísseis são uma desgraça, mas não uma catástrofe completa, e teria tempo de mandar todo seu arsenal restante, e os EUA não seriam idiotas de cometer este erro, seriam? Petrov resistiu em aceitar aquilo como genuíno.

Com o passar do tempo, nada acontecera. Petrov estava certo. Os sistemas de defesa não estavam, bem errados, simplesmente um raro alinhamento da luz solar em nuvens de alta altitude e dos satélites deram informações erroneamente interpretadas pelos computadores.

No mundo ideal, todos apertariam as mãos de Petrov, mas o que ele ganhou de presente foi um interrogatório. ele não foi para Lubyanka, a sede do KGB. sendo militar, a prerrogativa do seu interrogatório foi do GRU, o Glavnoye Razvedyvatel’noye Upravleniye (Diretório Principal de Inteligência), a Inteligência Militar da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Piadistas apontam a ironia da junção das palavras "inteligência" e "militar" na extinta URSS.

Depois de várias horas de interrogatório, verificou-se que todo o sistema de alerta era falho, e oque se faz quando se descobre isso? varre-se para debaixo do tapete. Petrov foi deslocado para postos sem importância onde ele não precisaria tomar decisões mais decisivas além de fazer chá, para depois ser reformado mais cedo. O mundo foi salvo por um homem anônimo, que continuou anônimo por um bom tempo.

Em 2004, a Association of World Citizens premiou Stanislav Yevgrafovich Petrov com o título Cidadão do Mundo, dando um tapa na cara de ambos os governos norte-americano e russo.

O homem que salvou a todos nós vive hoje num subúrbio perto de Moscou. Sem altas honrarias, medalhas ou reconhecimento. Ele não ganhou, nem vai ganhar um prêmio Nobel. Sua família o abandonou logo depois do incidente, ele vive sozinho, achando que não é o herói que é, apenas que estava no lugar certo na hora certa. Foi feito um documentário contando a sua historia. O nome é The Man Who Saved The World, uma expressão que não é exagero.

Ele não pensa nas bilhões de vidas que salvou. Ele apenas era um homem fazendo o seu trabalho de garantir a segurança. E garantiu.

Za Vasha zdorovya, Petrov. Spasibo za vse!

6 comentários em “Stanislav Petrov – o homem que salvou nossas vidas

  1. Um pouco a menos de raciocínio e provavelmente eu não teria nascido (sou de 84). Triste um evento e um indivíduo tão crucial em nossa história serem deixados de lado dessa maneira. Excelente artigo.

  2. É como dizem:
    Petrov ainda vive. E a Humanidade também.
    Ótimo artigo. Melhor que ele só a história do “E se…”
    Brrrr

  3. Ainda lembro da cara da minha mulher quando contei essa história pra elas a alguns anos atrás.
    Ela mal pode acreditar o quão perto estivemos da extinção.

  4. Caramba, cara! Vi este artigo só agora.
    Imagina o tanto de suor frio que o Petrov soltou na hora que o sistema começou a bipar.
    Se fosse eu, tinha surtado na hora e ficaria correndo como se fosse o Urso Colimério.

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