Peixe esperto sintetiza álcool para sobreviver no frio

Imagine que você tenha uma capacidade X-Men. Qual seria? Bem, eu preferiria disparar feixes de energia, mas há alguns mais modestos que preferem sintetizar a própria birita. Sim, vocês mesmos, seus pudins de cachaça! Bem, vocês não deram sorte com isso, mas alguns peixinhos ganharam um presentinho do processo por seleção natural e conseguem sobreviver durante invernos rigorosos em lagos congelados. Como? Produzindo álcool, ué.

A drª Cathrine Fagernes é pesquisadora do Departamento de Biociências da Faculdade de Matemática e Ciências Naturais da Universidade de Oslo, na Noruega. Há quem diga que ela é descendente de Vikings e que é digna o suficiente de empunhar o Mjolnir, mas isso é apenas para encher o texto e nada tem a ver com o assunto. Prossigamos.

A drª Cathy estuda como peixes, como as carpas crucianas, podem sobreviver durante dias, até meses, em água sem oxigênio no fundo de lagos e lagoas cobertos de gelo. Isso é fato, mas o por que disso? Bem, Cathy e seu pessoal foram estudar para descobrir o motivo.

Carpas crucianas (Carassius carassius) são uma espécie de peixes de origem européia, faclmente encontrados da Inglaterra à Rússia, podendo ser achadas lá pelas bandas do Círculo Ártico, nos países escandinavos e no extremo sul da França central, vivendo em lagos, lagoas e rios de movimento lento.

Durante invernos rigorosos, as queridas carpas convertem o ácido láctico produzido anaerobicamente em seus músculos em etanol. Animais produzem energia graças a uma molécula chamada ATP. À medida que vai se gastando energia, o sistema degrada quimicamente o ATP, o qual será mais tarde produzido mediante recebimento de nutrientes, ou seja, quando se come, recebe-se pela veia etc. A origem dessa energia extra, que parte será usada para produzir ATP vem de açucares, gorduras ou de proteínas, caso você não tenha se alimentado. Para isso, é preciso ter presença de oxigênio, e se você não respira direito, as reações químicas se processam, mas de outra forma: de forma anaeróbia.

Como assim, eu sou uma bactéria?

Não, por dois motivos. Primeiro, porque bactérias vivem muito bem assim (mas não todas) e isso é devido a serem seres mais simples e mais baixos na escala evolutiva. Não que isso implique que você seja melhor que elas, mas Evolução nunca significou melhoria.

Em segundo lugar, bactérias fazem isso para fazer respiração e produção de nutrientes, e já que ela é mais simples, não depende da imensa gama de substâncias que você precisa. Sim, ela é melhor que você nisso.

O problema das reações anaeróbias é que isso vai produzindo ácido láctico, e ele se acumula nos músculos, causando cansaço, câimbras etc. só que as carpas não têm este problema. Pelo contrário! A pesquisa de Fagernes e seu pessoal mostrou que os músculos de peixes dourados e da carpa cruciana não contêm apenas o habitual conjunto de proteínas, mas dois conjuntos!

Enquanto um conjunto dessas proteínas se assemelha muito ao de outras espécies, o segundo conjunto é fortemente ativado pela ausência de oxigênio. Lá, uma linda mutação permite reações metabólicas que propiciam a formação de etanol fora das mitocôndrias, o qual se difunde através de suas brânquias na água circundante e evita uma acumulação perigosa de ácido láctico no corpo. As concentrações de etanol no sangue na carpa cruciana podem atingir a bizarros 50 mg por 100 mililitros, o que dá 0,5g por litro. Se esta carpa estivesse dirigindo um carro pica a 80 km/h e a polícia pegasse ele, ela ia perder a carteira, ter o veículo apreendido e ido em cana.

Se bem que se eu sou policial e vejo uma carpa dirigindo um carro a 80km/h, eu ia deixar seguir e vou pra casa. Vai que dali aparece um Porsche disputando um racha com um Lamborghini, com um FIAT 147 atrás, piscando os faróis e tocando a buzina, pronto para ultrapassá-los?

Se você é alguém sério (o que eu duvido) e quer uma descrição mais detalhada, pode ler o artigo publicado no periódico Scientific Reports.

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