Revistas, marketing e mundo real. Aprenda sobre eles

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A cada dia que passa eu tenho mais e mais certeza que as pessoas têm sérias dificuldades em lidar com a realidade. Eu sei, ela não é bonita, mas fingir que o mundo é (ou deve ser) como você quer é, no mínimo, um ato de insânia. No máximo, burrice galopante sobre o alazão da estupidez.

A treta da vez é com a versão brasileira da revista Vogue. Para divulgar as paralimpíadas, Vogue trouxe na capa a Cléo Pires e o Paulo Vilhena (este eu tive que googlar para saber quem é) photoshopados como se fossem deficientes físicos. Pessoal reclamou, chilicou, teve acessos de raiva. Quanto a mim? Eu estou rindo muito, já que não tenho 12 anos mentais e sei coo o mundo funciona.

Tudo começa com esta propaganda da Vogue.

O que eu acho da foto? Bem, para mim não fede nem cheira. Sequer sou leitor da Vogue, mesmo porque, não sou o público-alvo da Vogue. Vogue está se lixando para professores de Química de meia-idade que mantém blog cético. Eu, de minha parte, não quero ler Vogue. Vogue não traz publicação indexada nem fala o quanto eu sou lindo, culto e inteligente. Dane-se a Vogue. Mas ninguém reclamou que a matéria que sairá no dia 30 traz a Cléo Pires num ensaio com o paratleta Renato leite.

No outro extremo, os mimizentos que não sabem como funciona mundo corporativo, marketing, capitalismo e publicidade tiveram ataques de pelanca, questionando por que colocaram a Cléo Pires ao invés de um atleta paraolímpico e… não, vamos parar com essa frescura. Vou chamar de PARAOLÍMPICO e quero ver o COI me impedir! Bem, deixem tio André explicar às criancinhas como o mundo funciona.

Vogue é uma revista, estando presente no mundo físico e no digital. Ela ganha dinheiro com venda de assinaturas, venda de exemplares avulsos e publicidade, em que cede espaço em sua revista e no site, aplicativos e mensagens patrocinadas nas redes sociais. Acho que não é preciso ser ganhador do prêmio Nobel para saber isso, certo?

Anunciantes anunciam suas marcas, pagando uma quantia considerável. A quantia é considerável porque Vogue tem um imenso número de leitores ()na verdade, leitoras), o que garante ampla visibilidade. O anunciante anuncia na Vogue esperando que essa grande visibilidade gere um retorno. Esse retorno é a compra de seus produtos e serviços. Quanto mais pessoas virem, maior será a parcela de pessoas vendo as marcas que estão anunciando, e maior será a chance de fechar negócio. Todo mundo ganha. Os leitores leram a matéria, geraram visualização, Vogue ganhou com as assinaturas e vendas avulsas além dos contratos de publicidade. Publicidade essa que vai desde um simples twit até uma página central, passando por banners, artigos, informes publicitários, postagem no Facebook etc.

Isso tudo passa por métricas, é tabulado em gráficos, estatísticos fazem previsões, direcionam o departamento de marketing para que este faça ações que angariem maior disseminação da informação e gere buzz para atrair a atenção das pessoas. Simples? Sim no conceito, complicado na execução. “Seja atraente” é muito genérico.

Daí seguiram a ideia da Cléo Pires em que a própria Cléo apareceu photoshopada à guisa de atleta olímpica. É o que acontece com todas as modelos. Todas elas passam por maquiadores, cabeleireiros, figurinistas etc para vender uma imagem que elas mesmas não são. REALIDADE NÃO VENDE! Ninguém quer ver a Gisele Bundchen acordando descabelada feito uma maluca, cara amassada de sono, olheiras e bafo de leão. Sim, mulher gostosa também tem mau hálito e peida. É triste, mas é a verdade!

A massa raivosinha da Internet teve ataque de pelanca. Começaram a discutir com os perfis da Vogue no Twitter, Facebook e Instagram. O número de retuítes e repostagens subiu. O chefe do Marketing devia estar dançando pelado com a cueca na cabeça de tanta felicidade. Pessoal da social media fez high five. E essa mesma massa raivosinha continuando a retuitar e comentar e xingar etc. alegaram que tinha que colocar uma atleta paraolímpica, como a revista TPM fez.

Sim, revista TPM. O nome já diz muito. E, de fato, ela veio com esta capa:

Sabem o que é engraçado nisso? A capa é de FEVEREIRO! Ninguém tinha prestado atenção nela até então, e ninguém sequer sabia até e não da existência desta atleta; aliás, a matéria nem é sobre paraolimpíada! Mas todo mundo conhece a Cléo Pires. Ademais, a TPM sequer é concorrente direta da Vogue. É como comparar o Ceticismo.net com blog do Crepúsculo.

O mundo da divulgação precisa de nomes famosos, gente. A verdade é essa, e raiva gera views. Querem ver uma coisinha? O mediakit é uma plataforma que usam para divulgar a possíveis investidores, anunciantes, patrocinadores etc POR QUE eles ganharão muita vantagem anunciando no veículo em questão, seja revista, jornal, blog etc. O mediakit (taqui o da Vogue Brasil) descreve quantos seguidores tem nas redes sociais, quais os números de retorno, em termos de respostas, interações, postagens etc. não interessa se você escreveu “tomanocu” ou “Nossa, como vocês são lindos, amey!”. Para os números, são duas interações e acabou-se. O anunciante ficou feliz em saber que tinha tudo isso de replicação. São um milhão de seguidores no Twitter. Fora os RT de gente que não segue a Vogue Brasil. Parabéns, fizeram divulgação de graça! E quem vociferou já não é cliente da Vogue de qualquer forma, não dará nada em troca, mas pelo menos fez divulgação.

Ah, este mediakit está desatualizado, ok?

Eu fiz uma pergunta. “me citem um atleta paraolímpico”. Me citaram o Fernando Fernandes, que além de atleta paraolímpico, é ex-BBB. Preciso tecer maiores comentários? Um me respondeu “posso citar outros. Sou atleta paraolímpico também”. Sim, e eu posso citar vários pesquisadores em ciência dos materiais. Isso não garante que eles acabem virando capa da Vogue.

As pessoas acham que entendem o mundo, mas não entendem. Acham que vivemos num desenho animado com o bem vencendo o mal, espantando o temporal. Empresas existem para ganhar dinheiro. Conseguem isso vendendo visibilidade aos seus anunciantes e patrocinadores, que não patrocinam por bondade. A Speedo cortou o patrocínio de 450 mil dólares com o Lochte, enterrou o cara (cordialmente, a bem da verdade, mas enterrou) e disse que ia doar 40 mil dólares para uma ONG no Brasil. Economizou 410 mil dólares e terá um retorno para a sua marca muito maior. Dane-se aquele cara de cabelo esquisito. Todo mundo enterrou ele como tubarões se alimentam de um de sua espécie, e isso para visar retorno publicitário. Não há nenhuma bondade aí; meio corporativo não é lugar para freiras.

Boticário fez o seu comercial com casais homossexuais para puxar o saco desses potenciais consumidores e irritando a ala conservadora, que chilicava e divulgava a marca, que atraía consumidores que se posicionavam contra o pessoal mimizento. Pouco importa, o Boticário ganhou muito mais com os chiliquentos ou seria apenas mais um comercial entre tantos outros.

Com mais de 1,5 milhão e meio de seguidores no Instagram, mais de um milhão de seguidores no Twitter e mais de um milhão de curtidas no Facebook, desculpem, mas vocês só aumentam este número, deixando todos os investidores, executivos e funcionários da Vogue Brasil feliz da vida. E cada vez que entram lá e reclamam, o número aumenta mais, que será tabulado numa tabela e construído um gráfico. A revista TPM? Tem mediakit também (e também desatualizado), chega a dar vontade de gargalhar! 83 mil seguidores no Twitter, 71,2 mil seguidores no Instagram e 185.689 curtidas no Facebook.

Sim, os marqueteiros da Vogue Brasil estão de parabéns, e isso só prova a máxima do Marketing.

“Não existe má propaganda. Existe propaganda!”

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Sobre André Carvalho

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