Lagostas, cores e as maravilhas da genética

Eu tenho um bocado de coisas que eu vejo noticiar que armazeno para ler depois. Então, vendo este monte de notícias sobre a façanha da New Horizon, sobre o que mais eu poderia escrever a não ser sobre… lagostas?

Sim, lagostas. Entendam, por que eu escreveria sobre Plutão se um monte de gente já está gastando tinta de monitor ao tacar os textos por aí? Fiquem com os artigos do Cardoso [1] , [2] e [3]. Eles são completos e eu não faria melhor de qualquer maneira. Prefiro falar de coisa que se mexe, faz KABUM! ou as duas coisas. No caso, falo hoje da coisa que se mexe, como a lagosta encontrada no Maine que tinha duas cores. Vira-casaca? Não, genética!

E este é um capítulo do LIVRO DOS PORQUÊS! (você leu isso com aquela minha voz sexy do vídeo).

Bem, você viu as notícias sobre a lagosta com duas cores. São raras, apenas uma em 50 milhões, sendo que a lagosta albina é mais rara ainda: 1 em 100 milhões. Só que isso acontece por motivos diferentes.

O albinismo é uma zueira genética que faz com que não se produza melanina, substância que dá a cor de pele, carapaça, cabelo, olhos etc., junto com outros corantes. Não, a melanina não é a única, só a principal. (Ver. O estranho mundo da melanina e seus efeitos). Algumas vezes, a lagosta exibe alguma mutação doida e isso lhe confere poderes x-lagostas, mas nada tão trivial quanto soltar raios de energia pelos olhos ou ter capacidade de teletransporte.

Existem muitos estudos (alguns do século XIX) tentando explicar por que algumas lagostas têm mais de uma coloração. Tudo se remete a como os genes são expressados, mas há uma outra explicação um pouco mais interessante e complexa. Ela se chama "ginandromorfismo"

O fenômeno descrito como "ginandromorfismo" acontece quando um indivíduo não só é bissexuado, como tem um "mosaico", diferentes cores para as partes masculinas e femininas. Isso acontece em insetos, crustáceos e até aves! Até agora, nada de mamíferos e humanos.

No caso das lagostas e outros artrópodes, os indivíduos passam pelo chamado "desenvolvimento embrionário determinado", em que o zigoto da lagosta se divide pela primeira vez, formando duas células, como quaisquer células que se reproduzem. Cada célula uma cópia da anterior… ou quase, até que se especialize e forme as diferentes células, tecidos e órgãos especializados. Na segunda divisão, aquelas duas células (já pré-determinadas se serão machos e/ou fêmeas) se dividirão de novo. E aqui é onde a coisa pode dar zica!

Em algumas espécies pode ocorrer uma baixa na concentração de hormônios sexuais circulantes, e assim, o indivíduo pode mudar de sexo, ao perder um cromossomo masculino, por exemplo. Mas de alguma maneira, o que seria masculino continua se desenvolvendo numa das metades, oque faz aparecer características de macho e fêmea, cada um em uma metade, ou pode dar num mosaico de cores.

Neste processo, ocorre algo chamado "não-disjunção". A metade das células não recebe totalmente todos os cromossomos. Então temos que não só a masculinidade da lagostinha bonitinha é questionada, como outros fatores aparecerão, como aparência física, e, por isso, temos a variância de cores.

Mas por que ocorre isso?

Isso, meu amiguinho, é algo que ainda não se sabe. Fatores externos como substâncias químicas e temperatura podem acarretar isso. Mas a genética é caprichosa. Isso não acontece com facilidade, por isso o percentual estatístico tão baixo. Podemos citar o caso de espécies do gênero dáfnia (também conhecida como "pulga d’água).

E sim, eu tinha falado que aves também apresentam ginandromorfismo, como este cardeal aqui:

E siris? Temos siris com ginandromorfismo?

Temos, sim, senhor. Inclusive com nude dele:

Muita calma nessa hora. Isso aí não poderia ser hermafroditismo?

Não, porque não temos um pipi e uma pepeka. Olhe pra baixo, veja suas partes. Deu bem uma olhada? Pense que no lugar do que você tem, você tivesse metade de cada, como mostrado aí em cima. E não, não é apenas uma deformação do órgão genital. Veja as garras do siri. São diferentes em cor e formato.

Isso significa que aqueles malucos do Tumblr e seus trezentos gêneros estão certos?

Você é adorável! ?

Mas e essa lagosta? Pode ser apenas um erro na hora de produzir o pigmento?

A bem da verdade, sim. Entretanto, não faria muito sentido. Há casos de lagostas azuis, mas essas são mais comuns em comparação com as citadas acima. Apenas uma em cada 2 milhões. Em comparação, muito mais fáceis de se encontrar, ainda que não seja tão fáceis como poderíamos supor. Tudo é uma questão de ponto de vista.

A explicação para as lagostas azuis nem é tanto genética assim. Quando o pigmento vermelho está totalmente envolvido por uma proteína envolvente, todas as radiações eletromagnéticas na região do visível (isto é, luzes coloridas) são absorvidas, o que faz a lagostinha parecer preta (você aprendeu sobre isso no Fundamental!). Entretanto, algumas espécies acabam trazendo seus pimentos com uma classe de substâncias chamadas "crustacianinas", as quais interferem na absorção dos comprimentos de onda, liberando a cor azul, que não é absorvida, fazendo com que a casca grossa pareça azul da cor do mar e é assim, como ver o mar.

A pesquisa mostrou que nessas interações proteína-pigmento, em nível molecular, exerce grande efeito na cor primária da lagosta, mas não necessariamente ocorra sempre.

5 comentários em “Lagostas, cores e as maravilhas da genética

    1. Não sei, mas a lagosta azul é uma das iguarias mais caras do mundo.

      Adorei meu personagem preferido na imagem de capa, Slade *-*.

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