O magnífico Banho de Caracala

Apesar das mãos estarem cheias de sangue, os romanos adoravam tomar banho. Não só por causa de questões higiênicas e sim porque os banhos romanos eram como os shopping centers de hoje. Na época, era o point onde o pessoal se encontrava para jogar conversa fora, fofocar a vida dos outros e tramar de que maneira se podia cravar um punhal nas costas do Imperador sem que desse muita bandeira.

Um dos maiores e mais belos exemplos de banhos romanos com certeza é o Banho de Caracala, construído por…

Lucius Septimius Bassianus nasceu em 4 de abril de 188 E.C. na então chamada Gallia Lugdunensis, o que hoje seria a cidade de Lion, na França. Lucius Septimius era filho do então governador da referida província, um certo camarada de nome Lucius Septimius Severus, durante o reinado de Comodus, muito bem conhecido pelo Russel Crowe. O supra-citado governador da província fez pouca coisa na vida, como se tornar o imperador Septímio Severo, que era bem severo com desafetos e com gente que fazia trocadilhos idiotas.

Septímio Severo designou Lucius Septimius como seu herdeiro e este assumiu, no ano de 208 E.C., o trono do pai com o nome Marcus Aurelius Severus Antoninus, também chamado de Caracala por causa de um popular manto que se usava na época, mas ele nunca foi oficialmente chamado por este nome.

O problema no reinado de Caracala é que ele subiu ao trono para governar juntamente com seu irmão mais novo, Geta, só que Caracala achava que meia, só para as pernas, e assim mesmo rasga (obviamente, ele nunca falou isso, já que era um ditado da minha avó, mas que eu cismei que tinha que estar no texto. Me processe) e resolveu ficar com o comando só para ele, como todo bom psicopata narcisista. Assim, ele maquinou que o senado declarasse seu irmão como Inimigo do Estado. Depois de conseguir isso, Caracala não mandou matar o irmão. Isso é fichinha para aquele maníaco. Caracala mandou matar o irmão e aniquilar todos os partidários deste.

Conta-se que alguns poetas helenísticos fizeram uma sátira envolvendo o nome dele. Caracala foi até lá, colocou oferenda para Alexandre da Macedônia e chamou todo mundo para cumprimentar e teceu altos elogios a todos. Enquanto isso, seu exército circundava o local. Depois de avisado que estava tudo pronto, Caracala saiu e os soldados massacraram tudo e todos que estavam ali. Eu já fiz isso no Rise of Nations e posso garantir: é bem eficaz.

Mas Caracala não era idiota. Ele sabia que seu poder dependia de um exército disciplinado e leal. A última vez que irritaram um general bom de estratégia e péssimo de humor, Roma passara de República para Império. Sendo assim, no ano de 212 E.C., o imperador dobrou o salário dos soldados e seus direitos legais. Mais impressionante ainda, concedeu cidadania romana a todos os habitantes livres do império. Esta concessão de cidadania universal, chamada por estudiosos da Antoniniana Constitutio, e não era bondade e sim estratégia. Isso permitiu uma maior padronização de um Estado cada vez mais burocrático.

Agora, feito grandioso mesmo foi o que ficou conhecido como "Banho de Caracala". O imperador achava que aquele negócio de Pão e Circo era muito mainstream e radicalizou. A magnífica construção era fantástica e de uma opulência incrível. Rodeando o complexo, um imenso passeio público com alamedas com árvores frondosas e acesso a bibliotecas e pequenos anfiteatros, onde poetas podiam mostrar suas obras.

No interior, pequenas saunas faziam as pessoas relaxarem com massagistas e água sempre quente, para que ao centro pudessem ter acesso a uma senhora sauna chamada Caldarivm. Saindo dela, passava-se para o Frigidarivm para se refrescarem. Ao lado havia duas piscinas olímpicas aquecidas, as os Tepidarivns. dali, as pessoas tinham acesso às Palaestras, uma área para a prática de esportes com um pequeno estádio com área para levantamento de peso, corrida etc. Como a religião era outro ponto-chave na cultura romana, havia um templo em honra ao deus Mitra, o Mithraevm (cuja estátua está sem cabeça, e vocês nem imaginam de quem foi a culpa).

O lugar demorou 4 anos para ser construído, com decorações em mármore e ladrilhos formando belos mosaicos com pedras coloridas vindas de diversos lugares, mostrando requinte e bom gosto. A Open University tem um vídeo sobre ele.

Centenas de escravos faziam esta maravilha funcionar (todos eles devidamente escondidos da vista dos frequentadores do local, claro). 50 fornos consumiam toneladas de madeira por dia para aquecer a água que vinha através de uma fantástica instalação hidráulica de um aqueduto alimentado por uma fonte a 100 km de distância. Os esgotos iam para o rio Tibre e sua grandiosidade impressiona, esmaga até.

Hoje,  já não existe mais as instalações das caldeiras, já que os visigodos fizeram o favor de destruir tudo, só há vestígios e mesmo estes são impressionantes. Quanto ao restante, eles permaneceram esquecidos até a sua redescoberta no final do século XIX, quando Mussolini fortaleceu os túneis para encenar óperas. As grandes arcadas sempre foram um problema para os romanos e por causa disso que normalmente eles eram altos, mas estreitos. Só depois é que veio a técnica de usar arcobotantes para ajudar a sustentação, mas no Banho de Caracala não tem isso. Os engenheiros que projetaram simplesmente usaram duas camadas de tijolos para fazer o arco, isto é, um arco dentro de um arco, um "arcoception". Isso aliado a uma técnica romana que pode ser vista em muitas construções, como o Pantão: usar tijolos de diferentes tamanhos e massas para subir as paredes. Foi assim que o domo do Panteão foi construído, onde quanto mais superior a fileira de tijolos, mais leves e menores os tijolos eram.

O Banho de Caracala está em processo de restauração. O valor estimado da obra é de 360 mil libras esterlinas (cerca de 1,2 milhão de reais) e merece cada centavo. A não ser, claro, se fôssemos alimentar os esquimós famintos do deserto de Gobi ou as pobres criancinhas congolezas da América Central. O lugar é História e merece ser preservado, onde temos muito a aprender em termos de história, engenharia, arte e propaganda política.


Fonte: The Guardian

7 comentários em “O magnífico Banho de Caracala

  1. Caracala não apenas conspirou para a morte do irmão. A versão mais aceita diz que ele enganou o irmão com uma trégua, que seria acertada com a ajuda da mãe deles, e quando chegou no local onde estavam a mãe e o irmão, simplesmente matou o maninho na frente da mamãe. Roma era foda. Foi ele que começou com a moda de estátuas de imperadores com cara de mau, antes dele as estátuas romanas seguiam a tradição grega de inspirar sabedoria… Caracala queia inspirar era medo mesmo.

  2. Ótimo texto,Andre.Bem esclarecedor,mas o rio ao qual voce se referiu no texto nao seria o Tibre(Tevere) ao invés de Tigre?

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