Carregador de celular a água faz sucesso… entre desinformados

Hoje é dia 31 de março e estamos prontos para mais uma besteira anual chamada "Hora do Planeta", onde um bando de toscos farão o máximo que suas inaptidões conseguem produzir: nada. A não ser que você considere que desligar a luz do banheiro enquanto estiver fazendo o nº 2 seja algo. Nisso, empresas aproveitam a onda ecologicamente retardada, digo, ecologicamente correta e promovem ações para proteger o meio ambiente, nem que seja para fazer panfletos com mimeógrafos.

Então, me chega aos ouvidos que resolveu-se parte dos problemas energéticos, já que desenvolveram um carregador de celular que funciona à base de água. E vocês podem imaginar a minha cara quando ouvi esta atrocidade.

Há muito, muito tempo, o Fantástico passou uma "reportagem" sobre uma invenção revolucionária: um carro movido a água. Sim, no lugar de gasolina, um zé ruela colocou água e, OHHHH, o carro andou. Várias pessoas se mostraram indignadas com isso. A gasolina custando os tubos e havendo um modo do carro funcionar unicamente com… água? E, então, começa o festival de idiotices. Os teóricos da conspiração estão com um prato cheio e o mundo está sob domínio dos Illuminatis. As pessoas "lembram" de um cara que fez um carro movido a água. Eu mesmo me lembro sobre isso, mas não muito mais que "vi o caso de um cara que fez o carro a água". Nome do cara? Não lembro, só lembro que o carro era um fusca, mas isso todos se lembram e nada mais que isso.

Então, começa o pessoal com a chamada "falsa memória", onde o cérebro cria memórias que não existem. Havia, por exemplo, um professor de Física e metalúrgico (sim, meu sei que soa estranho), que desenvolveu um carro movido a água. Nome? Ninguém sabe, mas sabem que ele foi convidado a fazer cursos no exterior e quando voltou, voltou abobado e foi aposentado e decaiu pro esquecimento. E não fui eu quem inventou isso. O pessoal culto do fórum Anti Nova Ordem Mundial (não ria) "se lembra" desse caso ou os pais deles se lembram disso, mas não muito mais que isso. Teve até um dos inteligentíssimos foristas  que disse que produzir hidrogênio para um motor de combustão interna seria muito mais eficiente. Ele só esqueceu de dizer COMO este hidrogênio seria produzido. O professor do cursinho estava ocupado cantando musiquinhas mnemônicas e esqueceu de mencionar isso. Todos sabemos que tanques cheios de hidrogênio são muito seguros. O Hindenburg não me deixa mentir. Enquanto isso, nosso veículo de desinformação e pseudociência preferido, a Super Interessante, nos traz a maravilhosa notícia de um carro movido a água, onde é utilizado boro para reagir com a água, formando hidróxidos de boro e liberando hidrogênio. Engraçado, pois eu nunca vi isso acontecer. Mas quem sou eu comparado com os cientistas anônimos da Super Interessante? A não ser que se use uma variante modificada de boro. O problema é que isso ocorreu em 270 K, ou seja, –3 °C.

Mas 40 anos se passaram e desenvolvemos novas tecnologias. Por que não um carregador movido a água? A empresa sueca Powertrekk é responsável pelo dispositivo que pega a água e produz energia elétrica. Lindo! O dispositivo que converte hidrogênio em eletricidade e, segundo se alega, precisa apenas de uma pequena quantidade do líquido para funcionar. A água é misturada a uma outra solução que, ao entrar em contato com o hidrogênio, gera energia de maneira rápida e confiável. Esta belezinha chega ao mercado custando 229 dólares e salvará o mundo, certo? Bom, você tem o direito de acreditar no que quiser. Mas o mundo não é tão maligno quanto você pensa e a verdade pode estar lá fora, mas está acompanhada de muita gente burra e desinformada.

Powertreco!

Primeiramente, precisamos entender um pouco de eletroquímica. Uma máquina eletroquímica produz eletricidade através de reações químicas. São as chamadas pilhas e baterias (e células de combustível, mas não nos adiantemos). Uma pilha eletroquímica produz eletricidade através de reações químicas, no mais das vezes irreversível. Depois que se produziu a eletricidade e "gastou-se" a pilha, pode jogar fora. No caso de baterias e acumuladores, a reação é reversível. Por isso você pega as pilhas Duracell e usa até gastá-la totalmente (ou quando ela não produz energia suficiente para uso), jogando-a fora depois. Enquanto isso, você pega a bateria do seu carro e usa/recarrega/usa/recarrega/usa/recarrega etc. O próprio sistema do carro cuida disso, a não ser quando algo está funcionando mal ou a bateria já deu o que tinha que dar, posto que nada pode ser utilizado eternamente.

Agora, temos o terceiro tipo: as células a combustível. Célula a combustível é formada com substâncias que reagem entre si produzindo hidrogênio, oxigênio e eletricidade. Não é uma eletrólise, propriamente dita e nada tem a ver com detonações de hidrogênio num motor. Se eu tivesse um sistema elétrico que quebra-se a molécula de água em seus átomos constituintes, para em seguida queimar estes átomos e produzir eletricidade, eu teria algo como um moto perpétuo, coisa que já era ridicularizada desde os tempos de Isaac Newton, e que viola de sobremaneira a 2ª Lei da Termodinâmica, que diz que nenhum sistema trabalha com 100% de eficiência.

Esta quebra é feita de maneira química, onde o hidrogênio é separado do oxigênio e ambos tomam direções contrárias. Nesse processo oxirredução, há liberação de elétrons, os quais serão armazenados numa bateria, para depois movimentarem um motor elétrico. Simples assim, apesar de não ser simples, estou resumindo, pois detalhes técnicos serão irrelevantes pelo que quero abordar. por hora, basta saber que a célula a combustível NÃO É movida a água. Ela precisa de células com substâncias que irão reagir e, portanto, ele não funciona à base de água única e exclusivamente.

Se as pessoas lessem o que o próprio fabricante diz, e muitas vezes eles mascaram a verdade, veriam que a própria Powertrekk diz que usa célula a combustível, e na descrição de como se usa o aparelho, ela fala que basta uma colher de água para que a energia comece a ser produzida. Claro! A água é apenas o meio e não a substância principal. E, vamos ser sinceros, 1500mAh? A pilha recarregável da minha máquina fotográfica é de 2500mAh. Alguém aí tentou recarregar um celular com pilhas recarregáveis? Boa sorte! Isso aliado ao fato que a própria empresa disse que os usuários precisarão trocar a célula a combustível depois de um tempo, e que custará 5 dólares. Bem baratinho, né? Então, pode chorar. O Cardoso postou um artigo que demonstrou quanto de energia você gastará carregando seu iPhone no período de 3 anos: R$2,52 (menos de 1,50 dólares pela cotação de ontem). Quanto custa uma latinha de coca-cola perto da sua casa?


Para saber mais: Como funciona a célula a combustível


Fonte: Planeta Água

10 comentários em “Carregador de celular a água faz sucesso… entre desinformados

  1. Cada cartucho de silicato de sódio recarrega 2 smartphone ao custo de R$ 6,00. Recarrego o meu a cada 2 dias. Em três anos precisaria de 540 cartuchos. Qual é mais poluente 1 bateria que dura 3 anos ou 540 cartuchos? Sem contar no custo.

    Fazer o que? Tem gente aplaudindo recarregador de pilhas alcalinas.

    1. @Apocalyptica, Troquei alhos por bugalhos no comentário acima. Na verdade em 3 anos precisaria de 270 cartuchos. E a pergunta seria: Qual é mais poluente? A energia para recarregar 540 vezes pelo método tradicional ou produzir e dar fim em 270 cartuchos.

      Sorry.

  2. Essa estória do carro movido água é bem antiga mesmo,escutei quando era criança.Tem uma calculadora que usa água pura:calculator para gerar a minúscula quantidade de energia que essas calculadoras precisam,nesse caso poderia uma reação de corrosão do metal(alumínio,neste caso) ser usada para gerar essa energia ínfima?Ela funcionaria com água destilada?Ou esse projeto tá furado?

  3. Caraca André, até tu conhece a lenda urbana do Fusca movido a água? Escutei essa muitos anos atrás, que o motor teria sido criado por alunos da Unicamp que “teriam sumido misteriosamente” de um dia pro outro, assim como o invento. Convenientemente, só o “ouvi falar” que o primo do amigo do vizinho que viu.

  4. “Todos sabemos que tanques cheios de hidrogênio são muito seguros. O Hindenburg não me deixa mentir.” :lol: :lol: :lol: ou eu fiquei muito tempo longe do cet.net, ou você anda afiado demais André, ótimo artigo e a aulinha básica foi muito bem explicada :D obrigada!

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