Menina de 10 anos “inventa” molécula e eu quero matar alguém

Pelo amor de Hades, gente, façam uma forcinha: NÃO ESCREVAM SOBRE O QUE NÃO SABEM!

Recebo um e-mail do nosso leitor Alexandre indicando um artigo onde uma menina de 10 anos "descobre" uma nova substância química. Lendo o festival de idiotice, só me resta um facepalm hipermegateexconjuroatômico. Afinal, estamos com mais um gênio da Ciência ou com mais um exemplo da estupidez alheia? Oh, bem, a resposta é bem deduzível, não é?

O texto foi traduzido e adaptado pelo HypeScience, de uma notícia veiculada pelo Popular Science. Sabe o que eu penso daquilo? Vergonhoso. É a versão científica da expressão "senti muita vergonha alheia". Como alguém pode escrever tanta besteira? Eu não vou reproduzir o texto. Estou com preguiça. Vamos só aos pontos que realmente interessam:

Clara Lazen é a descobridora da “tetranitratoxicarbono”, uma molécula composta de oxigênio, nitrogênio e carbono.

Sério, mesmo? Enquanto químico, eu imagino que a menina estudou as propriedades físicas e químicas dos elementos envolvidos, estudou como o estabelecimento de ligações químicas acarretaria em propriedades e características bem definidas e únicas para esta substância. Certo? ERRADO!

A minigênia Clara colocou os átomos de carbono, nitrogênio e oxigênio juntos de uma forma particular complexa, e perguntou a Boehr se ela tinha feito uma molécula real.

PELAS CALCINHAS DE HERA!

O que a menina fez foi colocar bolinhas coloridas ligadas umas às outras e só e apenas só e somente só! Se ela é “minigêni”a da Química porque fez isso, quero AGORA que o CREA dê uma carteira para minha filha, pois ela brincava de Lego. Quero uma cadeira em Cambridge, ao lado de Stephen Hawking, por ter criado um motor que auto-gerava sua própria energia e não necessitava de nenhuma espécie de recarga (ok, eu violei quase todas as leis da Física, mas isso é um detalhe de menor importância).

Vamos deixar uma coisa clara, pais. Todos nós queremos que nossos filhos sejam os melhores, mais rápidos, mais inteligentes, que se destaquem mais no colégio e em alguma atividade extracurricular. Este negócio de pai e mãe dizendo "nah, não faço questão disso", são grandes e sonoros mentirosos! Nós não criamos filhos para serem pobrezinhos e deverão ficar felizes que prestaram vestibular e chegaram em último. Nós queremos o melhor pra eles e se você não quer, você é uma desgraça como pai! Isso, todavia, não deve ofuscar a verdade: seu filho de 10 anos dificilmente comporá uma sinfonia. Ele não é Mozart. Mozart era Mozart e pôde fazer isso. Se o professor do seu filho mandar ele somar todos os números de 1 a 100, ele não vai multiplicar 50 por 101. Seu filho não é Gauss. Ele pode ser inteligente e esperto, mas gênios não nascem assim, só porque queremos. Dizer que esta menina é um minigênio é ridicularizar os grandes gênios, que efetivamente fizeram algo e não apenas juntar bolinhas com palitinhos. Desculpe, mas a verdade é essa.

Outra coisa é o porque de ela ter feito isso, o que não vi nada demais. É a perfeita ilustração de duas coisas:

1) Teoria dos Números Muito Grandes.

Pensem: quantas crianças estão, nesse momento, montando bolinhas coloridas com palitinhos? Muitas. Qual a probabilidade de eu pegar, durante um longo espaço de tempo, grande quantidade de crianças fazendo várias tentativas de juntar peças para fazer uma molécula complexa (que realmente exista ou possa existir)? Senhoras e senhores, isso é o Teorema do Macaco Infinito! Não há genialidade e sim um evento estatístico. HO HO HO. Como André mau e desfaz sentimentos puros e ilusões doces. Desculpem, mas o mundo é o que é. Então, temos o caso de número…

2) Aleatoriedade

Vamos supor que eu tivesse uma legião de "Claras Boehr" montando moléculas com o kit de Química do papai. Vamos dizer que cada vez que ela traga uma molécula eu diga se ela pode continuar ou parar, pois a molécula não pode existir. Assim, ela iria, passo-a-passo, adicionando mais complexidade à montagem, se sequer saber do que aquilo se tratava. Suponha que a molécula simplesmente não se encaixasse se não fosse possível, onde as muitas meninas Claras fossem saindo de cena, restando apenas a única molécula que pode existir em nosso mundo. Sabem o que temos? O que Richard Dawkins chamou de "relojoeiro cego", o puro processo evolutivo em nível molecular, onde a complexidade ia crescendo gradativamente, tal qual uma ratoeira. ;)

Se daddy Boehr tivesse trocado as cores das bolas, a fim de fazer uma contra-prova, a menina faria a disposição novamente, mesmo com a original à sua frente? Sim, faria. Ela iria copiar o mesmo padrão de cor, evidenciando que o conhecimento de moléculas e elementos é totalmente alheio a ela. Não que isso seja sua culpa, em absoluto! Só mostra que isso acarreta numa espécie de pareidolia mental, onde papai vê o que quer ver.

E olha que eu estou evitando tocar na hipótese "fraude", onde a menina não fez nada disso ou fez com ajuda de papai. O ser humano não muda só porque gostaríamos que mudasse.

Como chute no saco homérico, acabo tendo que ler:

A molécula tem algumas propriedades interessantes – embora ainda teóricas – que vão desde o uso como um explosivo até o armazenamento de energia.

Senhores do POPSCI, tomem vergonha na cara de vocês! Toda ligação química têm energia, pois é o que chamamos energia de ligação, duh! A brutal cara-de-pau de vocês aliada a uma profunda ignorância em Química lhes obrigou a colocar uma linha que não consta na fonte original: o Gizmodo, que por sinal, disse que a substância é explosiva, pois tem a mesma combinação de átomos que a nitroglicerina. O que eu poderia dizer senão █████ ?

Puuuuuuuuuuuuuuuuuuxa! Eu tomei um comprimido de ácido ascórbico, que possui os mesmos elementos também. Sou uma bomba ambulante. Vou até um lugar e esperar explodir, nem que seja de raiva por ter lido tanta besteira!

Amiguinho do papai publicou as possíveis características dessa substância e colocou Clara como co-autora, numa total falta de senso ético. É uma ignomínia comparar Clara com Emily Rosa, que analisou um problema, criou um teste duplo-cego, em ambiente controlado, desmistificando a pseudociência do toque terapêutico, enquanto Clara brincou de juntar bolinhas. Façam-me o favor! é isso que acham que é estimular uma criança? Contar mentiras a ela, fazendo-a crer que é algo que não é? Que ela fez uma coisa mágica e fantasticamente incrível, quando não fez?

Clara está muito feliz, afirmando estar agora muito mais interessada em biologia e medicina, demonstrando que ela realmente não entendeu nada do que fizera. Uma pena que tenhamos que contar mentiras só para aparecer na mídia e espalhar aos 4 ventos feitos que não foram executados. É irresponsável e tolo, e quando traduzimos algo, acabamos derrapando em algum dado obscuro, pois ninguém é obrigado a saber todos os detalhes. Mas sites como o POPSCI e o Gizmodo deveriam ser mais criteriosos com o monte de besteira que colocam. E eu, do alto do meu grande poder adivinhatório, não duvido nada que o Terra ou o G1 soltem esta magnífica prova do engenho humano.

Agora é esperar o bando de trolls vir me criticar porque eu destruí o sentimento das crianças. Bem capaz de mandarem o Jiban, o Robocop Japa, atrás de mim.

38 comentários em “Menina de 10 anos “inventa” molécula e eu quero matar alguém

  1. Eu não gosto de pseudo-ciência.

    Mais ainda de méritos indevidos.

    Acho que não devemos tolir as tentativas da menina, mas, devemos orientá-la, e não dizer

    “- Menina burra!”

    Isso mata qualquer criatividade.

      1. @André,

        Claro André, é vidente que você não a chamou de burra, não foi a minha itenção acusá-lo disso.

        Apenas falei numa ideia geral.

        Por isso do meu segunda resposta, sobre a qualidade sofrível de algumas revistas de ciências que parece querer “aparecer com a nova Emily Rosa só pra vender mais”.

        Alias, aqui no Brasil, as notícias científicas veiculadas por jornais e revistas tem a mesma baixa qualidade.

      2. @André, creio que o problema é a tendência sensacionalista atual.

        Penso que o Hypescience (assim como a Superinteressante, quando começou) prestava um serviço interessante: despertar a curiosidade em iniciantes, especialmente crianças. Mas, recentemente ele (assim como a revista) passou a pensar mais nos números e o nível vem caindo continuamente.

        Já tive oportunidade de encontrar críticas sobre a qualidade entre os comentários. Eu mesmo já o fiz (http://hypescience.com/criatura-primitiva-da-qual-descendemos-tinha-sexto-sentido/comment-page-1/#comment-154997).

        1. @José Luís, Eu acompanhava muito o Hypsescience, mesmo sabendo da qualidade duvidosa. Mas quando começaram a postar provas do dilúvio e outras coisas fui obrigado a buscar outros sites.

          De vez em quando acho que lá só tem autores estudantes de jornalismo, que postam suas matérias para contar como horas estagiadas ou algo do tipo.

          Graça ao deus google descobri o ceticismo.Net

  2. Vi isso num site tipo: Superinteressante ou foi no Terra..

    Quando vi o título pensei de cara: PUTA QUE PARIU, UMA MULECA COM UM POUCO DE VINAGRE E CACA DE NARIZ DEVE TER DESCOBERTO UMA NOVA FORMA DE PRODUZIR PETRÓLEO.

    Daí, lendo o texto, percebi que a menina tinha um interesse peculiar em química (e que gosta de brincar com paus e bolinhas) e ao enfiar um desses paus numas dessas bolinhas conseguiu fazer o que cientistas nunca tinham feito (ou talvez tentado fazer).

    A menina não é um gênio… Ela apenas acertou na loteria. É digno de ser noticiado? SIM, pois vai que dessa molécula surja uma nova forma de energia ou de um remédio contra a AIDS ou ainda melhor: Um explosivo seletivo que afete apenas as pessoas com QI inferior a 120 ( e que dizimaria uns 80% da população do planeta [95% do Brasil e 105% dos petistas]).

    Qualquer um com o mínimo de interpretação de textos conseguiria entender o texto do HS e sacar isso. O problema é que a maior parte da população do planeta não consegue entender uma receita de panqueca.

    1. Qualquer um com o mínimo de interpretação de textos conseguiria entender o texto do HS e sacar isso.

      Não, não é isso que a tradução do Hypescience diz. Ele a chamou de minigênio. Errado, Will Robinson. Ela apenas brincou de Lego e já deve ter montado uma porrada de moléculas. Apenas uma deu aquilo e fizeram oba-oba.

      1. :sad: Por vezes tenho vergonha de ser mineiro…. sniff, sniff, snifff… tanta coisa relevante para publicar…

    1. @Avelino de Almeida Bego, interessante esse comentário:

      Fiquei muito bem impressionado com os novos conceitos de física propostos pelo colega, Eng. Civil Geraldo Cacique. Sua matemática simples, sem precisar nem mesmo de usar uma derivada ou uma integral, introduziu um novo olhar sobre as tradicionais teorías da dilatação do tempo e da força centrifuga.

      Ao deduzir a fórmula da força gravitacional a partir do tempo que esta partícula leva para percorrer uma determinada distância entre dois corpos, partícula que denominou “energétron”, propõe uma nova visão para o funcionamento da força de gravidade.

      Esta aí uma grande oportunidade para que nossas autoridades invistam no potencial científico da juventude brasileira.

      Ivo Silva de Oliveira Junior – Engenheiro Civil

  3. Aff, quanta ignorância! Quando eu li escrito que uma menina de 10 anos “descobre/inventa” uma nova molécula, eu imaginava que ela era um super gênio da ciência e que tinha criado a tal molécula em laboratório. Shuashuashua! :D
    Graaanndee coisa, apenas juntar umas bolinhas, é como o André falou, ela só “acertou na loteria”. E eu queria matar quem falou que a guriazinha é um gênio v.v

  4. O acaso favorece somente as mentes preparadas, não da garota, mas de quem desconfiou que a tal “descoberta” fosse ser algo interessante de ser averiguado.

  5. Lembro da questão da serendipidade que já discuti aqui. A menina mexeu os pauzinhos e alguém viu que ela sem querer acertou algo. Seria como se minha filha reproduzisse a Fórmula de Báskara brincando com números de brinquedo.

  6. Á princípio quando comecei a ler este artigo no Hypescience, eu pensei: “Aff, como as pessoas transformam um acontecimento em uma coisa que verdadeiramente não aconteceu”… Concordo com o André quando referem à menina de “minigênia”. Mas devemos considerar o professor pela sua humildade em admitir não saber e sua vontade em procurar entender se aquilo era possível, e o seu amigo e estudar e entender aquilo, mesmo sabendo que aquilo fora montado por uma criança. Certamente inúmeras crianças devem ter feito aleatoriamente descobertas sem saber que estariam, mas nunca houve alguém que pudesse estar próximo para poder enxergar… Quantas descobertas não teriam sido feitas se, por exemplo, professores não achassem os feitos de seus alunos um “nada”…

      1. @André, Você considera então que essa menina teve um lapso de brilhantismo? E que é uma gênia? Que contradição com o seu texto… Achei que fosse apenas um acaso que deu certo…

          1. O que você acha que estou fazendo?! Ninguém me dá atenção, me chamam de antissocial… E em pouco tempo consegui obter resposta de uma pessoa certamente mais inteligente do que eu, mesmo que seja pra ser chamada de burra (o que me aconteceu pela primeira vez na vida)… Aprendi com tudo isso, lendo aos poucos o seu blog (o que faço com sacrifício, pelo estilo de vida braçal que levo) que não adianta nada brigarmos, as pessoas são muito mais complicadas do que imaginamos (não estou me referindo a você, vc deve ter percebido, porque é um bom interpretador de textos)… Bom, tenho que ir ali pesar…

          2. Isso poderá acontecer ocasionado pelo dono do blog ou pela leitora “burra”? Desejo tanto saberrr…

          3. Bom, como já vimos que interpretação de textos não é seu forte, vai realmente querer saber, mesmo que lhe expliquem indefinidamente.

  7. Mais alguém vai me explicar?
    Realmente, interpretações de texto feitos por pessoas que parecem sempre estar falando com alguém que não há, não estou habituada a entender… Mil possibilidades me surgiram na cabeça ao ler seu penúltimo comentário…

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