“Momento de oração” de Jardim de Infância de Brasília infringe a LDB

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Lidar com pais é um saco. Eu sei, eu sou um! Normalmente, eles reclamam de tudo. Reclamam se você dá nota zero pro filho, reclama que você não foi rígido, reclama que você passou muito dever, reclama que você quase não passa deveres e reclama até da reclamação que você reclamaria se ele não reclamasse do que o aluno reclamou do que você estava reclamando em sala. Mas algumas reclamações têm seu lugar e merecem ser levadas a sério. MUITO a sério, como foi o caso dos pais de alunos de um jardim de infância em Brasília, que toda manhã começa uma sessão de desencapetamento oração, onde as crianças são induzidas a agradecerem. A quem? Adivinhem.

Eu tenho parado de postar maluquices religiosas, porque é sempre mais do mesmo. O Papa anda quieto sem falar bobagens, crentes toscos andam parados, sem ofender a minha saúde mental e eu até fui educado com dois testemunhas de Jeová que apareceram aqui no domingo. Se o tiozinho acha que devemos ler a Sentinela (isso sempre me soou piada pronta), eu simplesmente agradeço e pronto. Ele me desejou bom dia e foi fazer sua peregrinação, enchendo o saco dos outros. Como eu não gosto dos meus vizinhos de qualquer forma, espero que ele tenha pentelhado bastante.

Daí, Abbadon me manda uma notícia de uma dessas escolinhas vagabas (eles se intitulam "escolas", mas no final é depósito de criança) fazia as crianças rezarem, o que despertou a revolta de alguns pais. Ok, eu sei que pais sempre podem ser chatos e resolvi dar um voto de crédito pra tal escolinha. A notícia foi publicada pelo site da revista Exame, repassando informações da Agência Brasil. Nela, fico sabendo que o Jardim de Infância da 404 Norte tem um negócio chamado "Momento de Acolhida", quando as crianças estão chegando de manhã. Neste tal "Momento de Acolhida", as crianças são estimuladas a fazer um agradecimento e uma "oração espontânea".

Eu li a reportagem toda e não percebi qual era o tipo de instituição era, apesar de deduzir que se tratava de uma instituição pública. Como sou um cara honesto e só desço o sarrafo quando tenho certeza, descobri que o o tal jardim de infância era uma Escola Pública de Educação Infantil, situada no Plano Piloto, área central de Brasília (eu justificarei o erro gramatical contido na frase em breve). Sendo uma instituição pública, temos um problema, já que a LDB proíbe manifestações religiosas de quaisquer espécies. Então, temos uma clara violação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, ferindo o princípio do Estado Laico constante na Constituição.

Oh, bem. Como eu descobri que a instituição é pública? Simples, isso foi dito pela própria diretora. Ou vocês acham que eu escreveria palavras com iniciais maiúsculas sem necessidade?

O caso repercutiu. Os Pais-do-Oeste se levantaram e disseram que era um absurdo qualquer tipo de manifestação religiosa. Alguns alegam — de maneira correta — que eles, como pais, eles são os responsáveis pela orientação religiosa da criança, o que eu concordo plenamente. O pai tem todo direito de direcionar a fé religiosa de seus filhos. Direcionar fé religiosa não é dizer que macumbeiro é filho de satã e nem que pastor da Universal tem sérias tendências a se apropriar dos bens alheios (se bem que o segundo é praticamente uma verdade bíblica). Assim, os Pais-do-Oeste disseram que isso tinha que acabar. Como neste meio nunca há consenso, outros pais saíram em defesa da Diretora, que é seguidora dos Lords Sith vaticanianos. Os Pais-Sith disseram que a diretora tá certa e eu estou aqui em casa esperando pelo embate. Numenorianos x Sith. Cadê a cerveja e os salgadinhos?

Os Pai Mei (delicioso trocadilho) levaram o caso até a Ouvidoria da Secretaria de Educação do Distrito Federal e o caso fedeu. Agora a Ouvidoria quer saber que raios está acontecendo.

Ei, espere um instante! Sabemos dos seus poderes Jedi. Mas como você sabe como a diretora definiu a escolinha?

Ach! Eu sou o SENHOR sem rival! Eu já habitava os sagrados montes acima das nuvens e ordenei aos meus vassalos do monte…

Você catou no Google!

Odeio crianças espertinhas. Cadê as ursas?

Dando uma pesquisada, eu descobri um artigo escrito pela diretora, na qual ela procura se defender, mas como todo problemático religioso, acabou metendo os pés pelas mãos (caso cinquentinha como eu adivinho em que ela é formada). O artigo foi publicado no blog da Comunidade Católica da Sagrada Família. Eu RECOMENDO a leitura, mas sem xingarem ninguém. Aprendam a ser civilizados e respeitem as pessoas em suas "casas". Se forem falar algo, argumentem feito cordados que são.

Mas que há uma primorosa receita de como reconhecer um fanático religioso no artigo, há.

Depois de se apresentar, a diretora nos traz o prólogo de algo que promete um Kinder Ovo de Jesus (grifos meus, mas os erros gramaticais são dela):

Tudo começou após uma denúncia feita a ouvidoria da Secretaria de Educação do DF, questionando o momento de agradecimento à DEUS que era feito na acolhida diária dos alunos no início do turno das aulas. Após várias músicas serem cantadas pelos alunos, os professores chamavam as crianças de uma determinada turma para o momento do agradecimento.As crianças que assim quisessem se dirigiam à frente para iniciarem o tal agradecimento. Sempre começavam desta maneira :

” PAPAI DO CÉU MUITO OBRIGADO POR ESTE DIA TÃO LINDO”…outra criança dizia, “ABENÇOE MINHA MÃE”, a outra ”ABENÇOE MINHA PROFESSORA”….e assim por diante….encerrando-se por “AMÉM”.

Ok, fiquei tocado. A diretora confessa que havia um agradecimento a Deus. Sendo da Sagrada Família, duvido que era em honra a Ormuz Masda. Outrossim, ressalto o detalhe que as professoras chamavam as crianças de uma determinada turma. A criança poderia aceitar ou não, mas só quem não trabalha com crianças acha que elas se recusariam. E tem mais! Até mesmo adultos dificilmente recusariam. O dr. Stanley Milgram demonstrou isso em seus experimentos sobre obediência a figuras de autoridade. Em 1975, o mesmo Milgram demonstrou que não precisa de um laboratório para conduzir um experimento desse tipo. Ele o fez no metrô de Nova York e o chamou de Experimento do Metrô (Subway Experiment). Ele simplesmente chegava para alguém que estava sentado e dizia "Excuse me, may I have your seat?" (Com licença, posso ficar com seu lugar?). Assim, no seco. Sem dizer o porque, e mesmo com outros lugares vazios. A maioria das pessoas CEDIA seu lugar para Milgram e ele sentava. Simples assim. Nem, sempre funcionava, claro (quem esteve em Nova York sabe como o pessoal lá "adora" as outras pessoas). Mas na maioria dos casos, ele conseguia o que queria. Voltando para a escola, as crianças estão muito mais sujeitas às figuras de autoridade, cedendo a qualquer pedido (mas nem sempre, é claro. Depende do pedido, mas há também uma explicação para isso, sobre a qual não falarei para não desviar o assunto mais do que já está). A conclusão é que as crianças não tinham tanta liberdade de escolha assim.

Eu não vou citar parágrafo por parágrafo do que a diretora disse. Vou só citar a cereja do bolo:

Esses pais acham que pela escola ser Laica, não podemos nos referir a nenhuma “tendência religiosa”, que para eles ser Cristãos , já é uma linha religiosa. (não, não é esta parte, mas é engraçada. Seguir Jesus não é ter religião. Religião é coisa feia e Jesus não é).
Me parece tão difícil entender algo assim (grifo meu). Eu compreendo as convicções de cada um, sei que cada um escolhe aquilo que acha melhor para si e sua família.Para isso DEUS deu o livre arbítrio. Mas não é fácil aceitar que alguém não creia na existência de DEUS (grifo dela). Foi algo complicado e inusitado para mim. Os valores Cristãos , aos quais sempre prezei vejo-os de repente serem jogados ao vento, pois alguns pais não desejam isso para seus filhos. É incrível, mas isso realmente acontece….

Podemos ver algum desses ensinamentos?

  • Aja antes de falar e, portanto, fale de acordo com os seus atos
  • Coloque a lealdade e a confiança acima de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores; não receies corrigir teus erros.
  • Não são as ervas más que afogam a boa semente, e sim a negligência do lavrador.
  • O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros.
  • A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido.

Ops. Desculpem. Inadvertidamente coloquei citações de Kung Fu Tsé, nascido em 551 A.E.C., sendo uma figura histórica bem documentada, inclusive em registros imperiais, já que ele exerceu diversas atividades políticas e militares, sendo o fundador de uma nova corrente filosófica. Em suma, Confúcio existiu.

Quanto a Jesus? Bem, não me estenderei na sua inexistência e sim nas coisas belas que ele disse, como odiar pais, executar quem não concordasse com ele e mandar uma real dizendo que não veio trazer a paz e sim a espada, causando brigas, guerras e discussões entre familiares. Você gostaria de criar um filho que, para seguir Jesus, teria que lhe odiar? A decisão é sua. Deus lhe deu o livre arbítrio, para depois ele decidir que essa liberdade não é tão livre assim e lhe condenar à dor e ao sofrimento eternos.

É ridículo, patético e irresponsável uma criatura dessas que não tem córtex cerebral capaz de processar a informação que haja gente que não pense como ela e se recuse às suas porcas orações, como se elas fizessem diferença. E, não. O sentimento religioso não é de nascença. A crença em um deus não é natural do ser humano. Conversa mole dela. As crianças jamais teriam a ideia de um cara invisível vivendo no Céu, com uma barba grande e uma lista do que você pode ou não pode fazer, nas palavras do George Carlin.

Se você matricula o seu filho num colégio católico, não pode reclamar das orações. Se você matricula seu filho num colégio judaico, não reclame se não servirem bacon no almoço. Num colégio PÚBLICO a diretora TEM SIM que acatar o Estado Laico, em que não há manifestações religiosas, minha cara fanática. Dançar e rebolar com sentenças do dicionário não afastam a verdade (assim como sua péssima escrita e a série de frases em caixa alta não farão seu deus ser mais real que o Pato Donald. Isso apenas é assinatura digital de religioso fanático).

Agora, a Ouvidoria decidiu que a escola não estava "catequizando", mas isso soa como se fosse para sair na imprensa, pois o que aconteceu mesmo foi que as "orações" foram proibidas e o secretário adjunto de Educação, Erasto Fortes, disse que a atitude do jardim de infância infringe a LDB, pois a "legislação é muito clara, em que acolhe o ensino religioso como matéria facultativa, com início nos ensinos fundamental e médio. As escolas de ensino público não podem fazer nenhuma atividade religiosa obrigatória a todos os alunos".

Eu não tinha visto esta notícia antes. Nem sempre tenho tempo de ver tudo o que acontece por aí, sempre contando com o que me mandam por e-mail, me enviam via Twitter etc. O último link mostra que isso estava rolando desde agosto. O artigo de defesa da digníssima senhora diretora foi em 8 de outubro e a revista Exame nos traz como se isso fosse novidade agora. Ê-lelê!

Pesquisador otimista acha que o mundo está menos violento
Cientistas pesquisam genoma da bactéria causadora da Peste Negra

Sobre André Carvalho

και γνωσεσθε την αληθειαν και η αληθεια ελευθερωσει υμας

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  • drumyoshiki

    Ahh, como eu queria que a referida pedagoga fanática lesse esse artigo… (e comentasse tbm de preferência)

    Será que se eu orar e desejar isso bem forte, pode acontecer? OK então lá vai:

    “Papai do céu … Eu te agradeço pela fonte de informação que é o ceticismo.net. Só te peço que essa pedagoga acordada (sim, é um neologismo) leia esse artigo e me faça rir nos comentarios. Por favor, realize meu desejo. Dê-me um sinal e tente arrebanhar essa carne moída desgarrada, RAMÉN.”

    Administrador André respondeu:

    Tá doido por um Voz dos Alienados, hein ô miserável?

    drumyoshiki respondeu:

    @André, Tô me esforçando, tô me esforçando…

  • SandroCeara

    Putz, a escola tem uma página aqui no Ceticismo.net:

    https://ceticismo.net/404/

    (Desculpe-me, mas não resistí 🙂 )

  • Leandrus Felix

    Li o artigo da diretora e, como quase sempre ocorre quando religiosos se sentem ofendidos, seu conteúdo é terrivelmente tendencioso. Alega no final que, segundo os advogados da escola, esta não cometeu nenhum ato contrário á constituição, já que os agradecimentos partiam, segundo ela, das próprias crianças. É fácil dar um fino na responsabilidade e jogar a culpa nos guris, não é? Lamentável….

  • Dr. Who

    Quem é esse André? Ateu ou Teísta?

    Administrador André respondeu:

    André sou eu, prazer. Esta é a porta da rua, pela qual vc sairá agora. Bye.

  • novaesrichard

    Belo texto. Patética a professora justificando como se a capacidade de discernimento que a mentalidade de uma criança é igual a de um adulto (que como o experimento mostrou nem é tão boa assim, haha. Fiquei com vontade de tentar)

    Perdão por sair do assunto, mas creio que isso não seja só comigo, é engraçado como existe uma tendência para idealizar as pessoas, mesmo que você não conheça nada sobre a vida pessoal elas. Por exemplo, pelos seus textos eu jamais imaginaria você como pai e marido (não se ofenda), assim como jamais imaginaria meu professor de matemática dando cantadas na garçonete, haha.

  • Wallacy

    Passo na frente dessa escola quase todo dia! Alguma encomenda?

  • Mari.

    Isso tudo me lembra a história de ‘O Nevoeiro’, não sei porque ( o_õ)