O preconceito pode não ser culpa do preconceituoso. Ou pode?

Não adianta tentar negar: todos nós somos — em maior ou menor grau — detentores de algum tipo de preconceito. Desde coisas que chamam de música, como funk ou os baby, baby, baby da vida, até o modo como nosso vizinha anda vestido, passando por preferências sexuais, cor de pele ou times de futebol, o ser humano mostra que não está muito familiarizado com a vida em companhia de outras pessoas que julgam não fazer parte de um determinado grupo.

Pesquisadores britânicos estudam até que ponto isso é algo particularmente vindo de uma decisão consciente de nossa gambiarra evolutiva chamada "cérebro" ou por simples pressão social.

As raízes do preconceito são fundas na psique humana. E não se faça de bonzinho. Eu, você e até a sua avozinha Genivalda somos preconceituosos. Não que isso seja "bonito" ou "certo", apenas que é um fato e não podemos negar fatos. Desde a loira burra, o judeu avarento, o policial corrupto, o muçulmano terrorista e o político ladrão (acho que nesse caso não é tão preconceito assim), vários estereótipos vão sendo implantados em nossa cultura, independente do país que moremos.

Costuma-se ainda associar negros aos índices de violência, mulheres à incompetência profissional e péssima direção e, pasmem, homossexuais às doenças sexualmente transmissíveis. Mas até que ponto isso é "nossa" culpa? Quando falo "nossa" falo de uma decisão particular de estabelecer estes tipos de ligações. No entanto, se bem me lembro do velho Rousseau, as pessoas já nascem boas; a sociedade que as corrompem.

Pode parecer estranho este tipo de observação, levando em conta que a sociedade é composta por pessoas. Só que o todo não é a soma das partes. Somos levados pela onda de um grupo de pessoas. E nem precisa ser muitas. Poderíamos tomar, por exemplo, o comportamento num espaço pequeno, com um grupo de poucas pessoas. É o chamado "teste do elevador", como o vídeo abaixo ilustra:

O vídeo acima é do programa televisivo Candid Camera, que está no ar desde a década de 1940 (não, as pegadinhas do Faustão, como tudo na TV brasileira, não são nenhuma novidade há mais de 60 anos!). Ele ilustra como um cidadão é manipulado silenciosamente e forçado a agir como o grupo de pessoas ao seu redor. Não importa o quanto seja idiota você entrar num elevador sem nenhuma porta no fundo. Quando a maioria das pessoas se vira para o fundo, o alvo da piada se vê numa situação embaraçosa. Assim, ele tem a tendência de acompanhar o grupo. Quando o grupo fica mudando de posição a todo momento, o infeliz fica rodando que nem peru em dia de festa, acompanhando o grupo.

Isso é a base do chamado Experimento de Conformidade de Asch.

Solomon Asch nasceu em 1907, na Polônia. Seus pais deviam ter um quê de previdência, pois eles se mudaram para os EUA em 1920. Solomon depois se naturaliza norte-americano. Ele se gradua em psicologia pela Universidade de Nova York e consegue eu doutorado pela Universidade de Colúmbia. Sua especialidade era o estudo em psicologia experimental, onde ele fazia testes sobre como a pressão social interfere nas nossas decisões. Para isso, ele idealizou testes, como o da imagem abaixo:


Consegue discernir qual das 3 linhas verticais é semelhante à linha da esquerda?

Se você não tem problemas de visão (e, mais importante, está sozinho), você consegue nitidamente estabelecer que a figura da esquerda é igual à figura A, do grupo à direita. Simples, não? É simples quando você toma esta decisão sozinho e não tem ninguém por perto. Mas, o que acontece se colocarmos um grupo de pessoas perto de você que deliberadamente dizem a resposta errada? é o Experimento Asch:

Pois, é. O prego de camisa vermelha acerta na primeira parte do teste, só que ele viu todo mundo dando uma resposta diferente. Na segunda sessão, ele fica com cara de pensativo e dá a mesma resposta errada que os demais. Isso parece muito engraçado se você não para 2 segundos para pensar no que isso acarreta. É o mesmo que acontece num programa de auditório, comício etc, quando um grupinho previamente contratado para aplaudir "leva" todos os demais a aplaudirem junto, ou a famosa claque de risada, indicando para pessoas de baixo QI onde está a piada nos programas de  sitcom.

Ok, agora entendi porque eu rio daquelas piadas idiotas do Zorra Total, mesmo sem terem graça nenhuma. O que isso tem a ver com o preconceito?

O dr. Paul Verhaeghen é professor na Escola de Psicologia da Universidade da Geórgia. O bom doutor descobriu a pólvora quando relacionou demonstrações de racismo com comportamento de grupo. Para ele, há uma ideia de que as pessoas tendem a associar negros com a violência, mulheres com fraqueza ou pessoas mais velhas com o esquecimento, por puro preconceito. Mas há outra possibilidade de que o que está em sua cabeça não é você, é a cultura em torno de você. Quem viu filmes (toscos) como O Falcão Negro em Perigo, vemos que soldados são retratados como heróis e dificilmente seriam retratados… bem, como aquela dona que que dava "tratamento especial" a prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib. No Brasil, normalmente, relacionamos policiais a criaturas corruptas, vagabundas e prontos para lhe extorquir cada centavo. Fora o filme do capitão Nascimento, só o Vigilante Rodoviário foi exemplo de policial herói.

Verhaeghen assinou uma pesquisa  publicada no British Journal of Social Psychology que tinha por base um questionário onde figurava uma pergunta: "Você é de fato um racista, ou você está sendo apenas um americano?". Além disso, o tempo de resposta foi cronometrado, mediante a reação frente a diferentes grupos de palavras que estabeleciam associações previamente (mulher/fraqueza, negro/preguiçoso etc) e palavras que tinham relação, mas sem formação de estereótipos (noite/fria, verão/ensolarado etc).

Os resultados foram que os participantes responderam mais rápido aos pares de palavras que já eram tidos como relacionados mediante a estereótipos formados pela mídia do que os pares de palavras simples que não dependiam de ideias difundidas por meio social. Que o verão é relacionado com dias ensolarados, qualquer um pode notar e não é reforçado por uma ideia coletiva. Você nota e pronto. Da mesma maneira a primavera é relacionada a flores, mas dificilmente isso fica a todo momento em vários tipos de comunicação em massa, como filmes, revistas e jornais diários ou naquela conversa de bar. Tanto que é comum algum idiota, em pleno verão, soltar uma pérola como "tá calor, né?".

O desagradável de tudo é saber como somos levados a crer ou estabelecer uma relação direta entre duas coisas que são independentes. Ateus de fim-de-semana estabelecem ligações idiotas como "todo crente é imbecil" ou "cristãos são retardados que não entendem de Ciência", esquecendo-se que muitos cientistas cristãos não defendem besteiras como CriaBURRIcionismo, como é o exemplo do dr. Ken Miller, católico praticante e peça-chave no Julgamento de Dover, que depois foi atacado por P.Z. Meyers.

Da mesma maneira, é o comportamento de massa que leva a religiosos fundamentalistas estabelecerem que ateus são maníacos psicopatas, e ao se mostrar fotos e notícias de religiosos cometendo crimes vem a pérola "Não são cristãos de verdade".

Nossas ideias não surgem só de nosso pensamento. Elas dependem de nossa interação com outras pessoas e por mais que queiramos estabelecer que temos ideias próprias, é mostrado que algo fundamentado em comportamento de grupo estava nos influenciando. Mudamos de opinião por causa de nossos familiares, cônjuges, filhos, colegas de trabalho etc. Então, a única coisa que fica demonstrado é que a liberdade de pensamento não é tão livre assim. A menos que você queira viver à margem da sociedade. A mesma sociedade que lhe verá de forma negativa e terá preconceito com seu modo de vida, seja ele qual for.

11 comentários em “O preconceito pode não ser culpa do preconceituoso. Ou pode?

  1. Após muito trabalho e pouco tempo agora aqui estou.

    Acredito que não existe ninguém que não tenha ao menos um preconceito. Até mesmo com preconceituosos. Ouço e vejo muitas campanhas de “combate ao preconceito”. O que acho um erro. O que se combater é a manifestação. Por exemplo, impedir o ingresso de alguém numa escola pelo fato da pessoa ser negra. Preconceito a pessoa sempre carregará seja qual tipo for.

    Sobre o final do artigo, acho que sou bem livre pra pensar. :) Bem, sou meio misantropo…

    1. O que se combater é a manifestação. Por exemplo, impedir o ingresso de alguém numa escola pelo fato da pessoa ser negra

      Complicado, pois isso tira o direito da pessoa de externar um pensamento. Tipo, uma pessoa pode se sentir no direito de fazer uma manifestação contra beijo gay na TV. Ela tem o direito de não gostar. Eu sou contra qualquer tipo de liberação de uso de entorpecentes, mas como posso me dizer democrata ao dizer que pessoas não vão à rua para pedir sua liberação. Desde que não fumem o baseado DURANTE a manifestação (o que configura crime ou contravenção ou sei lá como é o nome de direito), podem pedir o qto quiserem, como acho que a raça ignara de seguidores dos pastores vagabundos tem o direito de PEDIR (conseguir é outra história) que tenha aula de religião nos colégios.

      Isso me lembra o caso da Mayara Petruso.

      1. @André, então me expressei mal. Revisitando: o problema não deve ser o preconceito em si. A pessoa pode não gostar de negro, homossexuais e etc. E acho que pode até expressar isso. O problema é isso se transforma em ação. Como fazia a galera do KKK.

        No caso da Mayara foi mais incitação ao ódio e violência. Mas como foi escrito lá: ela apenas expressou um pensamento e quem não tem internet não deixará de ser preconceituoso. O fator que mais pesou talvez é que ela usou seus perfis originais e com a foto dela ainda. Se usasse um perfil fake ou um pseudônimo ela não passaria de mais um troll que tanto tem na internet.

        Enfim, esse assunto de preconceito no Brasil tem gerado muito mimimi e coitadismo. Já até me chamaram de racista por me posicionar contrário as cotas. Difícil explicar que quis dizer que quem quiser ingressar qualquer faculdade antes de tudo tem que estudar para provar. Existe cotas para índios, albinos e asiáticos? Não. Mas me disperso. Não vai demorar e tudo isso virará paranóia.

        1. @Nihil Lemos,
          Entendo. O preconceito se torna algo desagradável quando interfere nos direitos dos outros (isso se os direitos estivessem bem definidos e a legislação fosse algo de fato democrática a todos), como a liberdade de expressão.

  2. Entendo o ponto de o preconceito ser algo difícil de ser tratado em uma simples conversa. Confesso que detesto dialogar sobre algo que não tenho relação direta, digo como exemplo em relação aos homossexuais. Sou totalmente a favor de direitos iguais aos heteros, mas não me agrada ver homossexuais em paradas achando que o mundo é uma maravilha enquanto outros são mortos apenas pela diferença de orientação sexual.
    Enfim, não sou vou sair protestando ou quebrando tudo por isso, mas me incomoda quando as pessoas que sofrem preconceito não fazem nada por si mesmas.

  3. Eu sempre digo que somos todos preconceituosos. Daí as pessoas torcem o nariz pra mim. :roll:
    Somos preconceituosos e eu não vejo grandes problemas nisso.
    A grande questão, pela minha óptica, é não transformar o preconceito em discriminação.
    Além do que discriminação é crime, preconceito não é.

    1. @voix69,

      “Eu sempre digo que somos todos preconceituosos. Daí as pessoas torcem o nariz pra mim.”

      Nessa hora as pessoas estão te discriminando ou sendo preconceituosas?

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