Microfluidos permitem exame de sangue com laboratório num único chip

Eu adoro ver o bando de geeks (segundo a definição de uma amiga, geek é um nerd metrossexual) dizendo o quanto amam a tecnologia. Mal sabem eles que "tecnologia" não começo quando inventaram o Windows e sim quando o Homo habilis resolveu usar os primeiros utensílios de pedra lascada. Para isso, foi preciso inteligência e a criação de ferramentas. Pouco tempo depois, estávamos cruzando o céu em supersônicos e mandando espécies inteligentes para o espaço.

A tendência é o aperfeiçoamento dos equipamentos, e a miniaturização e simplicidade deles. Isso é conveniente para quando se precisar em lugares bem afastados e selvagens, sem meios eficientes de transporte e cercado de aborígenes estranhos. Algo como onde o Lealcy mora. Hoje, temos à nossa disposição um laboratório para efetuar exames de sangue de forma simples, e num único aparelhinho. Tudo começa com os microfluidos, mas que diabos são microfluidos?

Microfluido seria, a priori, um fluido pequenininho. Mas as coisas simples são as mais complicadas e nem tudo é o que parece ou parece o que é. Mas as vezes sim?

Mas hein?

Microfluidos são fluidos manipulados em escala microscópica. Por causa da pequena dimensão, muitos fatores deixam ser expressivos, como a tensão superficial. É por causa da tensão superficial que a água "molha" as paredes de um frasco, mas o mercúrio, não. A ação das moléculas superficiais exercem força, umas sobre as outras (segunda Lei de Newton) e isso faz aparecer fenômenos interessantes, como corpos boiando, por exemplo (mas não exclusivamente, pois a densidade também é um fator a ser levado em conta).

No caso de microfluidos, dada as suas dimensões reduzidas, a Tensão Superficial simplesmente não existe (ou existe, mas inexpressivo), pois não aparece o que chamamos de película de empacotamento. Aliado a isso, outros efeitos são completamente diferentes, como a dissipação de energia, por exemplo e não é preciso ser um ás da Física para saber que um copo de água quente esfria de modo diferente que um balde de água com a mesma temperatura do referido copo. Obviamente, o Efeito Mpemba é descartado, pois estamos lidando com temperaturas iguais.

O que parece interessar somente a estudantes de Física mostra-se muito útil em aplicações práticas. Se as propriedades físicas são diferentes, posso usar esta base na construção de equipamentos que poderão me ajudar de alguma forma. Uma das áreas que mais precisa desse tipo de conhecimento é, claro, o da nanotecnologia.

Sabendo que em microescala algumas propriedades bizarras aparecem, engenheiros e demais pesquisadores pensam no que os microfluidos e suas propriedades físicas e químicas podem ajudar. Bem, o dr. Samuel K. Sia, professor assistente de engenharia biomédica na Universidade de Columbia, teve uma ideia. Que tal se usar as propriedades dos microfluidos na construção de um chip que equivaleria a todo um laboratório de análises clínicas ou, quando muito, poder fazer exames de sangue de forma facilmente transportável?

O bom doutor não só pensou a respeito como conseguiu um equipamento que serve de laboratório, pronto para executar exames complexos; onde um chip à base de microfluidos — ou MChip, como ele mesmo chamou — é responsável por tudo. Ele e seus colaboradores publicaram um artigo no periódico Nature.

Sia e sua equipe ralaram peito pros cafundós do Inferno, lá onde não venta, pois o vento fez a curva uns 100 km antes, onde até encontraram um par de meias e descobriram ser de Judas, já sem as botas. O lugar escolhido foi Ruanda, um lugar lindo e maravilhoso, mas aonde ninguém quer ir. Os testes estão sendo realizados lá há 4 ANOS(!) com o auxílio de algumas ONG. O que é necessário para o teste? Apenas uma picada no dedo para coletar uma gota de sangue. Just that!

O ensaio reproduz fielmente todas as etapas do ELISA (Enzyme-linked Immunosorbent Assay), um teste imunoenzimático que emprega a análise de anticorpos afim de identificar doenças que induzem a produção de imunoglobulinas, desde AIDS a qualquer outra infecçãozinha tida como mequetrefe (e qualquer infecção mequetrefe naquelas bandas é capaz de matar). A vantagem sobre o ELISA é a rapidez no resultado do exame e o menor custo do material envolvido. De acordo com os pesquisadores, os testes com o MChip em centenas de locais coletadas amostras humanas forneceu bons resultados, usando apenas 1 mL de sanguee identificando desde HIV até sífilis.

Sia espera usar a MChip para ajudar as gestantes ruandezas (sim, tem maluco lá que insiste em ter filhos naquele fim-de-mundo). O problema dessas gestantes é que muitas são portadores do HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis; como vivem muito longe de qualquer posto médico, ouso do MChip facilitará as coisas, onde os médicos e agentes de saúde poderão diagnosticar no próprio local onde as pacientes moram, encaminhando-as para um hospital se for o caso.

Uma versão do MChip preparado para diagnosticar câncer de próstata também já existe e está sendo usado na Europa. E do jeito que as coisas vão, em breve o imenso laboratório com técnicos andando pra lá e pra cá, gastando muito dinheiro com equipamentos e reagentes serão coisa do passado. O dinheiro economizado aí poderá ser usado no desenvolvimento de tecnologias mais baratas, mais eficazes e mais simples de serem operados, além de poderem ser usados desde as regiões montanhosas do Tibet, até bases na Antártida ou ainda naquele buraco no interior da Amazônia.

9 comentários em “Microfluidos permitem exame de sangue com laboratório num único chip

  1. Quem sabe assim a tecnologia vista no CSI se torne realidade (algumas coisas são). Isso sim é dinheiro muito bem investido. :)

    PS: será que um dia o exame de toque será desnecessário? :shock: :mrgreen:

  2. Já vi tudo…
    Vai ter um monte de gente dizendo que esse chip é coisa do demo, que tem 666 escrito e coisas assim…

    Mas, é uma tecnologia legal e acredito que possa trazer muitos benefícios, principalmente no combate a AIDS em regiões mais pobres, como ficou claro no artigo.
    Suponho também que essa inovação abrirá caminho para outras inovações médicas.

  3. Eu achava que microfluido era apenas um fluido muito pequeno… E não algo tão complexo (poderia transcrever a wikipedia, Britannica ou Barsa, mas seria desnecessário)… Não sei o que é mais incrível, o assunto microfluido ou a ideia do Dr. Samuel.

    Bem que poderia haver um outro modelo do MChip que fosse capaz de verificar doenças genéticas. Digo isso porque recentemente uma amiga precisou fazer tantos exames médicos para descobrir a causa de um problema de saúde que em um dos exames foi preciso 8 ampolas de amostra. O Mchip pode não reduzir drásticamente esse exemplo, mas qualquer ajuda no caso para descobrir mais rápido a doença, já é uma grande ajuda.

    Btw André, poderia reescrever a sentença final do 10º parágrafo? :/ acho que está faltando alguma palavra.

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