Homem resolve problema de incontinência graças a muito superbonder e nenhuma noção

A medicina passou o século XX aperfeiçoando antibiótico, anestesia, transplante e robô que opera a distância. Levando em conta a História da Medicina, deixamos de usar caldo de salamandra com cocô de morcego para dor de estômago para chegarmos nos mais modernos tratamentos contra diferentes tipos de câncer. Se faz cirurgias em fetos dentro das barrigas de suas mães. Então vem quem? O cerumano tosco, como um certo corno de 41 anos, em algum canto perdido do Irã, que olhou para esse cardápio inteiro e decidiu que era exagero.

Como andava com goteirinha na torneirinha, Hassan (vou chama-lo e Hassan, me processe!) achou que bastava usar algum artifício de vedar a saída. Daí ele faz o que? Passa supercola no pinto!

Antes de mais nada, a ficha técnica da vergonha: o caso não é de agora. É de 2020, publicado no Caspian Journal of Internal Medicine, sobre um Zé Ruela iraniano atendido bem antes disso. O New York Post pegou um estudo de seis anos, deu um verniz de “breaking news” com data de agosto de 2026 e vendeu como se o homem tivesse saído do consultório ontem. Ou seja: o tabloide está sem pauta e desenterrou defunto. E eu, que topei reescrever essa merda dando meu toquezinho especial (no texto, não no pinto do Hassan, de quem eu quero distância), sou prova viva de que preguiça também é uma forma de reciclagem.

Hassan estava há um mês com incontinência, a torneirinha ali não segurando a urina, molhando a cueca e afogando a sua já baixíssima autoestima. Ficou duas semanas pingando supercola (vou chamar de superbonder, mesmo) na saidinha da uretra, aos poucos, sem pressa, com cara de quem está consertando dobradiça e não o aparelho que separa o cidadão do azulejo do banheiro. Nos primeiros dias, nada de problema; no começo funcionou. Claro que funcionou! Hassan era um cara feliz e nessas histórias a fase “sou um gênio” sempre sai de graça. A conta chega depois.

Chegou no quarto dia. Dor ao urinar, jato cada vez mais fraco, até ele aparecer no ambulatório já em retenção urinária completa. Zero gota. Uma semana de dor suprapúbica arrastada antes disso, aliás, porque aparentemente pedir ajuda antes do ponto de não retorno também não estava no roteiro. Emergência de verdade, dessas que colocam rim e sangue no caminho do estrago. O sistema urinário não assinou a ata dessa gambiarra.

No exame, o pênis estava ereto. Os médicos registraram o fato sem cravar a causa, e havia fragmentos quebradiços de cola visíveis na ponta, um pequeno depósito geológico onde o máximo permitido é um orifício. Tentaram cistoscopia, câmera e protocolo. A uretra estava lacrada. A supercola cumpriu a missão com zelo de gerente chato: tampou o vazamento e o expediente inteiro.

Sobrou o plano B: incisão na cabeça do pênis, irrigação da uretra por cerca de quinze minutos, até o bloco se soltar da mucosa. Aí a pinça. Saiu um cilindro rígido de 10 cm (DEZ CENTÍMETROS!!!!!), quase quatro polegadas de bricolagem promovida a corpo estranho. Ele foi costurado, voltou a urinar normalmente pouco depois, e seis semanas mais tarde estava recuperado. O corpo perdoou o dono. Hassan não merecia o desconto, mas se médicos fossem julgar quem merece ou não merece atendimento, 90% voltaria pra casa a pé (e com a bexiga estourando com a vedação).

Os autores do estudo ainda prestaram um serviço público que ninguém pediu: achar objeto estranho em pênis, no plantão de urologia, não é fenômeno raro. A lista inclui pinça, arame, lápis, anzol, agulha, termômetro, cera quente, um departamento de achados e perdidos com tesão e desespero em partes iguais. Este paciente, ao menos, não tinha histórico psiquiátrico (não que não tenha pobremas, só não tinha a documentação). Era só um adulto tentando baratear o próprio constrangimento, e ele não é nem o primeiro nem o único a tentar essa exata gambiarra: existem outros relatos parecidos na literatura médica, o que sugere que a espécie é reincidente.

E o aviso técnico, para quem ainda está negociando com a gaveta: orelha e nariz aceitam removedor de esmalte (não façam!). Uretra não. Solvente corrói mucosa, piora o que já estava ruim. Combater gambiarra com gambiarra não estava no cardápio. Sobrou cirurgia, forma cara de descobrir que o primeiro procedimento deveria ter sido uma consulta.

Moral da história, inútil e urgente: se está vazando, o telefone resolve melhor que o YouTube. A vergonha grita mais alto que o bom senso, sempre gritou, e é por isso que existe um relato médico de 2020 sendo reaquecido por tabloide em 2026, e agora reaquecido de novo por mim, em português, com preguiça suficiente para admitir que também não fui atrás de nenhuma informação nova.

Chegamos ao século 21, inventamos ressonância magnética, e ainda precisamos de artigo científico, jornal e coluna sarcástica para gritar, em coro, o óbvio: Não cola. Literalmente!


Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah! Paper (tem fotos. Não me responsabilizo pela sua curiosidade)

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