Cocô providencial causou explosão de vida na Terra

Há coisas que a humanidade prefere não discutir à mesa do jantar, e o topo dessa lista é ocupado, invariavelmente, por aquilo que sai do corpo depois que a comida termina sua jornada. Trocamos de assunto, torcemos o nariz, e seguimos em frente falando de coisas semelhantes: eleições; no final das contas, ambos acabam sendo a mesma coisa, com a diferença que o cocô propriamente dito é um mero detalhe biológico sem maiores consequências, já que ele não faz leis, não promulga leis e nem te faz conviver com outros iguais a ele.

A Ciência, com seu talento peculiar para nos constranger, acaba de sugerir o contrário: sem excremento, você provavelmente não estaria aqui lendo isto, nem eu escrevendo, nem praticamente nada com sistema nervoso central estaria fazendo o que quer que seja em lugar nenhum do planeta. Sim, o mundo tá aqui do jeito que conhecemos por causa de uma tempestade de merda. Literalmente!

E sim, farei todo tipo de piada deprimente, depressiva, deplorável e digna do melhor da pior Quinta Série!

A ideia central é a seguinte: há cerca de 540 milhões de anos, num intervalo geológico que os paleontólogos batizaram de Explosão Cambriana, a vida na Terra passou de um elenco tímido de organismos simples para um verdadeiro carnaval evolutivo, com o surgimento repentino (em termos geológicos, é mais curto que uma daquelas bostas de propagandas no meio dos vídeos no YouTube) da maioria dos grandes grupos de animais que existem até hoje.

A rigor – e eu tenho que reiterar isso, já que um monte de retardados criacionistas desonestos (desculpem o pleonasmo mega-ultra-uber-atômico) vai usar isso como prova que PUF!! UM ELEFANTE – Essa “explosão” aconteceu porque a quase totalidade dos seres vivos não deixou registro fóssil por serem de corpo mole. Então, surgiram os primeiros artrópodes com exoesqueleto, mais fáceis de deixar um registro fóssil, com a impressão da sua carapaça. Continuemos!

Por décadas, o crédito por essa festa de arromba evolutiva foi dado quase exclusivamente ao aumento dos níveis de oxigênio nos oceanos. Um novo estudo, no entanto, decidiu investigar o que estava sobrando no fundo do mar enquanto o oxigênio recebia todos os aplausos, e a resposta, nada glamorosa, é fezes. Muitas fezes. Uma Tempestade Perfeita de Cocô! Algo como o que escuto nas reuniões pedagógicas: merda pra todo lado! A diferença é que trilobitas são mais espertos do que o que tenho que lidar nas reuniões, a começar pelo fato que trilobita não fala.

O dr. Russell Bicknell é um paleobiólogo neozelandês radicado na Universidade Flinders, na Austrália, e uma espécie de celebridade discreta do mundo dos artrópodes fósseis (há até um trilobita batizado em sua homenagem, o que é o tipo de honraria que só existe dentro da paleontologia). Bicknell fez doutorado na University of New England, passou pelo American Museum of Natural History e construiu carreira estudando xifosuros, os parentes fósseis dos límulos, e as marcas de mordida que predadores antigos deixavam em suas presas. Não é algo que tenhamos especialistas a rodo, mas agora temos a questionável evolução na carreira para especialista em cocô antigo mudador de mundos!

A lógica proposta por Bicknell e sua equipe é, no fundo, uma questão de encanamento evolutivo. À medida que os primeiros animais desenvolveram sistemas digestivos mais sofisticados, capazes de processar uma variedade maior de alimentos, eles passaram a produzir excrementos mais volumosos e mais ricos em matéria orgânica. Esses dejetos, longe de serem lixo descartável, funcionavam como um fertilizante natural distribuído pelo fundo do oceano primitivo, espalhando carbono e nutrientes que antes ficavam presos nos próprios organismos. O resultado foi um ambiente marinho cada vez mais fértil, capaz de sustentar formas de vida mais complexas e mais numerosas, um ciclo de retroalimentação em que mais bicho gera mais cocô, que gera mais nutriente, que gera mais bicho.

Trocando em miúdos, a bicharada passou a comer mais e a cagar mais, e é fazendo merda que se aduba a Vida na Terra. Podem me citar, caros pesquisadores do futuro que esbarrarem com este texto!

Claro, não se chega nesta conclusão pelas mesmas vias do que se está discutindo. Para concluir esta conclusão concludente, Bicknell mandou seus estagiários vasculhar coprólitos (o termo técnico, bem mais elegante, para fezes fossilizadas ou cocô empedrado no ambiente) e sistemas digestivos preservados em mais de 35 sítios fósseis espalhados pelo planeta.

Conforme o período Cambriano avançava, tanto os coprólitos quanto os aparelhos digestivos foram ficando visivelmente mais variados: de partículas microscópicas a excrementos de vários centímetros recheados de fragmentos de conchas e restos de outros animais, um cardápio fóssil que documenta, literalmente, quem comia quem e o que sobrava depois.

Nada disso destrona o oxigênio do posto de vilão-mocinho da história, mas expõe uma lacuna incômoda: enquanto os cientistas se debruçavam sobre a química da atmosfera e dos oceanos, ignoraram solenemente o que os próprios animais estavam produzindo em quantidade industrial; mas sejamos honestos: quem de vocês aí iriam votar em cocô como o responsável por um Amonolocaris tocando o terror no cambriano?

Compreender essa circulação primitiva de nutrientes ajuda inclusive a explicar os ciclos biogeoquímicos que sustentam os ecossistemas até os dias de hoje, o que talvez seja a moral mais elegante possível para uma história que começa, sem meias palavras, em cocô.

Shit happens life!

A pesquisa foi publicada no periódico Trends in Ecology & Evolution. Com paywall, porque Elsevier é outra merda.

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