Toba explosivo quase elimina a Humanidade

A grande história da Humanidade começou há muito, muito tempo. Tudo tem tentado matar as pessoas. Não satisfeito com isso, o Toba resolveu acordar e zonear geral com todo mundo. Há cerca de 74 mil anos, uma montanha acordou de mau humor e entrou em erupção com uma violência tão descomunal que foi pedaço de Toba para tudo que é lado, numa violência tão grande que os geólogos ainda hoje usam o evento como régua para medir o que a palavra “catástrofe” pode significar de verdade: a erupção foi mais de dez mil vezes mais potente do que a do Monte Santa Helena, em 1980. Toba sinistro esse.

E no meio de tudo isso, havia humanos.

O Toba é um supervulcão de nome que faz moleque de quinta série dar risadinha. Ele (o vulcão, não o moleque. Já o Toba depende de qual você se refere) está localizado na ilha de Sumatra, na Indonésia, especificamente na província de Sumatra do Norte. O que existe hoje no lugar da antiga caldeira é o Lago Toba, o maior lago vulcânico do mundo, com cerca de 100 km de comprimento por 30 de largura e até 505 metros de profundidade. Geologicamente, o Toba assenta (fique firme na seriedade, André!) sobre uma zona de subducção onde a placa Indo-Australiana mergulha sob a placa Euroasiática, o mesmo mecanismo responsável pela intensa atividade sísmica e vulcânica de toda a região.

Ao longo de sua história geológica, o Toba produziu pelo menos três supererupções: há cerca de 840 mil, 700 mil, 74 mil anos, sendo esta última, chamada de Erupção YTT (Youngest Toba Tuff), a mais violenta e a que interessa à Ciência quando se fala em impacto sobre a humanidade.

A hipótese que dominou o debate científico por décadas ficou conhecida como a “hipótese da catástrofe de Toba” e era, convenhamos, bem sombria: a erupção teria causado um inverno vulcânico de até seis anos e reduzido a população humana mundial a menos de dez mil indivíduos. O argumento tinha respaldo genético: estudos do DNA humano indicam que nossa espécie passou por um “gargalo genético” por volta desse período, uma drástica redução da diversidade que ocorre quando uma catástrofe dizima a maior parte de uma população. Pesquisadores olharam atravessado para o Toba, pois, parecia o suspeito perfeito.

O problema é que a evidência arqueológica não estava cooperando com o roteiro apocalíptico. E também o próprio gargalo genético passou a ser questionado: muitos geneticistas hoje associam essa queda de diversidade mais a dinâmicas migratórias do movimento “Out of Africa”, ocorrido entre 50 mil e 70 mil anos atrás, do que necessariamente a uma catástrofe vulcânica pontual. O Toba pode ter contribuído, mas dificilmente agiu sozinho como o exterminador da humanidade que lhe atribuíram.

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a usar uma ferramenta extraordinariamente paciente e microscópica para mapear os efeitos da erupção: a criotephra. São fragmentos de vidro vulcânico tão minúsculos que ficam invisíveis a olho nu, mas que viajam milhares de quilômetros carregados pelo vento antes de se depositarem nas camadas de sedimento. Cada erupção produz uma assinatura química própria, como uma impressão digital geológica, permitindo que os cientistas confirmem com precisão de qual vulcão específico veio aquele pó. O processo exige micromanipuladores em laboratório e pode consumir meses de trabalho por sítio, mas entrega uma certeza irrefutável: sabemos exatamente onde a cinza do Toba pousou há 74 milênios.

E o que essa cinza revela é, no mínimo, inconveniente para a versão catastrofista da história.

No sítio de Pinnacle Point 5-6, na África do Sul, a criotephra do Toba aparece em camadas que mostram ocupação humana contínua: antes, durante e depois da erupção. Não só contínua: a atividade humana no local aumentou depois do evento, junto com sinais de inovações tecnológicas. Em Shinfa-Metema 1, na Etiópia, a história é ainda mais reveladora. Ali, a cinza do Toba coincide com evidências de ocupação ativa e de adaptação criativa: as populações passaram a seguir rios sazonais, a pescar em poças rasas formadas pela aridez pós-erupção e, por volta do mesmo período, adotaram a tecnologia do arco e flecha. Diante de um mundo mais seco e escurecido, a resposta humana foi pescar onde havia água e inventar formas mais eficientes de caçar o que restava.

O que os pesquisadores hoje sustentam é que a versão simplificada “o Toba quase nos extinguiu” superestima a nossa fragilidade e subestima a nossa vocação para improvisar na beira do abismo. Também os modelos climáticos mais recentes sugerem que o resfriamento global causado pela erupção pode ter sido menos prolongado e menos uniforme do que a hipótese original previa, com algumas regiões escapando relativamente ilesas do pior do inverno vulcânico.

Há algo curiosamente reconfortante nisso tudo. Vivemos numa época que acumula crises com a eficiência de quem coleciona selos: climáticas, geopolíticas, tecnológicas, existenciais. E aqui está a arqueologia nos dizendo que, quando um supervulcão apagou o sol por anos a fio e converteu o mundo numa versão pré-histórica de um cenário pós-apocalíptico, nossos ancestrais pescaram em poças, inventaram arcos e flechas e seguiram em frente.

A adaptabilidade não é uma característica moderna surgida com o smartphone. É o traço mais antigo que temos, testado e aprovado quando a Terra ainda estava fazendo as piores das suas birras geológicas, com Tobas tentando de tudo para ferrar com nossas vidas..

O Toba tentou. E ficou na tentativa.


Fonte: Conversation

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