
A Ciência tem uma vocação irritante para revelar que aquilo que fazemos de forma preguiçosa e automática é, na verdade, um mecanismo fisiológico de alta sofisticação. Respirar, dormir, caminhar até a geladeira às duas da manhã: tudo, aparentemente, é mais complexo e mais milagroso do que a mediocridade cotidiana faria supor. O mais recente capítulo dessa série constrangedora vem de pesquisadores da Penn State, os quais descobriram que o simples ato de contrair os músculos abdominais provoca um suave balanço do cérebro dentro do crânio, e que esse balançar minúsculo ajuda a limpar o órgão de resíduos metabólicos. Sim: seu cérebro é uma esponja suja, e o movimento é a torneira. A metáfora não é minha; é dos próprios cientistas. Aplausos pela honestidade.
O dr. Patrick Drew é professor de Ciências, Neurocirurgia, Biologia e Engenharia Biomédica na Penn State, além de diretor interino dos Huck Institutes of the Life Sciences. Ele já havia estudado o papel do sono e da perda neuronal no fluxo do líquido cefalorraquidiano e agora encaixou mais uma peça nesse quebra-cabeça molhado. Segundo ele, a pesquisa explica como simplesmente se movimentar pode servir como um importante mecanismo fisiológico que promove a saúde cerebral, falando com a serenidade de quem acabou de descobrir que o mundo é um lugar mais inteligente do que parecia.
Mas eu ainda tenho minhas reservas… enfim!
O mecanismo funciona como um sistema hidráulico elegante. Ao contrair os músculos abdominais, ao dar um passo, levantar-se da cadeira ou simplesmente firmar o core, empurramos sangue do abdômen para a coluna vertebral pelo plexo venoso vertebral, uma rede de veias que conecta a cavidade abdominal à cavidade espinhal. Essa onda de pressão sobe até o crânio e faz o cérebro se deslocar levemente, alguns micrômetros apenas. O movimento, quase imperceptível, atua como uma bomba que circula o líquido cefalorraquidiano ao redor e através do tecido cerebral, varrendo resíduos tóxicos associados ao Alzheimer, ao Parkinson e a outras doenças neurodegenerativas.
Para captar esse fenômeno, os pesquisadores usaram microscopia de dois fótons em camundongos acordados e microtomografia computadorizada para reconstruções 3D. O cérebro dos animais se movia antes mesmo de iniciarem a locomoção, logo após a contração abdominal. Em um experimento de elegância desconcertante, aplicaram pressão suave no abdômen de camundongos levemente anestesiados, menos pressão que a de um exame de pressão arterial, e observaram o mesmo efeito. Assim que a pressão cessava, o cérebro voltava imediatamente à posição original, como se estivesse em liberdade condicional.
Francesco Costanzo, professor de Mecânica, Engenharia Biomédica e Matemática na Penn State, enfrentou o desafio de modelar matematicamente esse sistema complexo. O comportamento do líquido cefalorraquidiano no interior e ao redor do cérebro envolve movimentos simultâneos e independentes, movimentos acoplados que dependem do tempo, e a física especial que ocorre cada vez que uma partícula de fluido atravessa uma das muitas membranas cerebrais.
A solução foi tratar o cérebro como uma esponja porosa de esqueleto macio, e as simulações mostraram que a contração abdominal funciona exatamente como espremer a esponja sob a torneira. “Como limpar uma esponja suja? Você a passa sob a torneira e a espreme”, resumiu Costanzo, com a satisfação reservada a quem encontrou a metáfora certa.
As implicações são promissoras. Embora ainda seja cedo para extrapolar diretamente de camundongos para humanos, os resultados sugerem que o movimento cotidiano, mesmo o mais modesto, contribui para a circulação do líquido cefalorraquidiano durante a vigília, complementando o poderoso trabalho de limpeza que ocorre durante o sono profundo. A pesquisa foi financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde, pelo Departamento de Saúde da Pensilvânia e pela American Heart Association.
No fundo, o que a Ciência continua confirmando, com laboriosidade admirável e resultados cada vez mais detalhados, é uma verdade que os antigos gregos já intuíam: mens sana in corpore sano. Corpo em movimento, cérebro em dia. Só que agora conhecemos o mecanismo hidráulico por trás do adágio. A esponja precisa ser espremida. E a melhor parte é que qualquer um pode fazer isso, mesmo quem nunca pisou em uma academia na vida. Basta se levantar do sofá. De preferência, com frequência.
A pesquisa foi publicada no periódico Nature Neuroscience
