
O Planeta Flórida é um lugar bem peculiar, esquisito, estranho e Além da Imaginação. Tenho certeza de que o Rod Sterling escreveu o Manual de Usuário da Flórida, onde a bizarrice é ordem do dia, uma espécie de Uttar Pradesh com dinheiro. Como o lugar deve emanar eflúvios ou radiação ou algo assim, o Florida Man e a Florida Woman são um quesito diferenciado de seres humanos.
Um exemplo é o ex-membro da Força Aérea Americana, Michael Nipper, que aparentemente acordou num domingão, 22 de março, com um plano simples: conquistar o mund… er… quero dizer, seu plano era transportar um carregamento pela Interstate 4. A carga estava disposta da maneira mais chamativa possível. Nada de cobertura, nada de discrição, nada de bom senso: eram mísseis (ou quase).
Eram só dois cilindros com cara de “fim dos tempos” apontados para o céu, balançando orgulhosamente na traseira de uma caminhonete Ford Maverick como se estivessem a caminho de resolver tensões internacionais na base do improviso.
E aqui entra o tempero geopolítico que transforma a idiotice em evento histórico. Com o mundo acompanhando as habituais tensões do Ofício Eterno de Piorar Tudo, motoristas não viram “adereços”. Viram mísseis. Não apenas mísseis, mísseis nucleares, porque quando você junta paranoia global, falta de contexto e dois objetos com formato extremamente sugestivo, o cérebro humano não faz meia análise: ele pula direto para o pior cenário possível e liga para a polícia com a urgência de quem acha que está a cinco minutos de virar estatística.
Os Meganhas Floridenses receberam uma enxurrada de chamadas. O condutor foi identificado nas redes sociais da agência como “The Rocket Man”, numa referência eltoniana que nem o próprio Elton John esperaria encontrar num boletim policial.
A resposta das autoridades foi proporcional ao absurdo. Escritório do Xerife do Condado de Hillsborough, a Polícia de Plant City, o Corpo de Bombeiros local, perímetro de segurança e, claro, esquadrão antibomba. Porque existe um limite para o otimismo humano, e ele geralmente termina quando alguém aparece com o equivalente visual de um ataque estratégico móvel na rodovia estadual 39.
E então, no centro desse teatro todo, surge big Mike, um homem tranquilo. pacífico. Dono de uma calma que só quem não tem a menor noção do que está causando consegue ter. Os dois mísseis, ele explicou com total naturalidade, eram adereços comprados como kit num site da Internet, feitos de plástico, completamente vazios, e ele os estava levando para “shows e eventos”. Porque sempre tem um evento. Carregar mísseis nucleares de verdade também deve ser um evento.
A polícia, depois de mobilizar meio aparato de emergência, confirmou que não havia risco e liberou o cidadão com uma “forte orientação”. Tradução institucional: meu amigo, da próxima vez esconda isso antes que alguém provoque um incidente internacional sem querer.
Não houve crime, não houve intenção e nem houve plano maligno. Houve apenas uma sequência impecável de decisões ruins tomadas com confiança inabalável. O tipo de confiança que move a humanidade, geralmente na direção errada. A Flórida, esse experimento social contínuo que insiste em testar os limites do bom senso humano, adiciona mais um capítulo à sua coleção de eventos que fariam qualquer roteirista ser demitido por exagero.
Mike não queria assustar ninguém. Não queria mobilizar esquadrões antibomba nem provocar um surto coletivo em plena rodovia. Ele só queria transportar seus mísseis cenográficos. E isso é o mais assustador de tudo. Não é ódio. Não é conspiração. Não é sequer irresponsabilidade consciente. É a mais pura, refinada e cristalina falta de noção aplicada com determinação.
A moral da história existe, mas ela está exausta. Se você comprar mísseis falsos na Internet, cubra-os. Esconda-os. Finja que entende o mundo em que vive. Porque, aparentemente, chegamos ao ponto em que isso precisa ser explicado.
Onde mesmo ele comprou os mísseis fake? É pra um amigo.
