O bebum, a rainha e o vinho vagabundo

Tem coisas que só o álcool faz por você; que o diga o Zé Ruela que resolveu dar um rolê pelo Palácio de Buckingham, a residência oficial da monarquia britânica. Em teoria, invadir o Palácio de Buckingham deveria exigir algo próximo de uma operação do Ethan Hunt, já que, em tese, aquela residência humilde e simplória é a residência de um chefe de Estado, palco de recepções governamentais e símbolo arquitetônico do Império Cujo Sol Nunca Se Põe e uma coleção de tapetes que provavelmente tem mais pedigree histórico do que a maioria das famílias europeias. Junte-se a isso aqueles guardas imóveis com chapéus de pele de urso, patrulhas armadas, polícia especializada, alarmes, câmeras e uma burocracia de segurança que supostamente impede até um pombo mal-intencionado de entrar sem autorização.

Mas nem sempre foi assim. Em 1982 um pintor desempregado, meio bêbado e completamente sem a menor ideia do que estava fazendo conseguiu entrar ali dentro. Duas vezes. Na segunda, acabou frente a frente com a rainha.

O responsável pela façanha chamava-se Michael Fagan. Nascido em Londres em 1948, ele tinha 33 anos quando entrou para o folclore britânico. Sua vida até então não tinha nada de extraordinário: trabalhava como pintor e decorador, profissão comum na paisagem urbana londrina, mas estava desempregado naquele momento. O casamento estava em crise, o dinheiro era escasso e sua saúde mental claramente não atravessava uma fase tranquila. Como detalhe quase literário, seu pai havia sido um conhecido arrombador de cofres. Fagan não herdou exatamente a profissão, mas aparentemente herdou uma certa flexibilidade conceitual quando o assunto era propriedade alheia.

A primeira invasão ocorreu em junho de 1982. Fagan caminhava pela região do palácio quando decidiu escalar o muro do complexo, que mede cerca de 4,3 metros de altura e é reforçado com arame farpado e pontas metálicas giratórias. Não é exatamente uma cerca simbólica. Mesmo assim ele conseguiu subir.

Do outro lado encontrou uma janela aberta e entrou no prédio. Durante alguns minutos caminhou pelos corredores quase vazios do palácio, observando quadros e atravessando salas silenciosas como se estivesse em uma visita improvisada a um museu particularmente caro. Alguns relatos dizem que ele chegou ao Salão do Trono e se sentou por alguns instantes no próprio trono, um detalhe que aparece em muitas reconstruções da história, embora a documentação da época seja um pouco menos conclusiva sobre essa parte.

Em determinado momento ele entrou em um dos aposentos usados pelo então príncipe Charles. Ali encontrou meia garrafa de vinho branco e resolveu bebê-la. Anos depois comentaria em entrevistas que o vinho era “bem barato”, o que provavelmente é a primeira crítica enológica registrada dentro de uma invasão a um palácio real.

Depois disso simplesmente saiu do prédio pelo mesmo caminho.

Ninguém o abordou. Ninguém o deteve. Ninguém sequer percebeu.

Se a história tivesse terminado ali, seria apenas uma anedota embaraçosa nos relatórios internos de segurança. Mas algumas semanas depois Fagan resolveu repetir a experiência.

Na madrugada de 9 de julho de 1982 ele saiu de um pub por volta das sete da manhã e passou novamente diante do palácio. Olhou para a imponência, deu de ombros e deve ter se perguntando “por que não?”. Escalou o muro outra vez.

Durante a subida um alarme chegou a disparar, mas os sistemas do palácio tinham histórico frequente de falsos alertas e o guarda responsável presumiu que era apenas mais um defeito técnico. O aviso foi ignorado e ninguém foi verificar. Fagan desceu do outro lado, subiu por um cano de drenagem e entrou por uma janela destrancada. Em algum momento dentro do prédio ele quebrou um cinzeiro e acabou cortando a mão, ficando com sangue nas roupas enquanto continuava caminhando pelos corredores.

Durante cerca de quinze minutos ele vagou pelo interior do palácio. Uma funcionária chegou a vê-lo passando por um corredor, mas não considerou a presença do estranho “suficientemente suspeita” para chamar segurança, uma avaliação que continua intrigando historiadores e qualquer pessoa que já tenha pensado minimamente sobre como funcionam residências reais. Se para essa senhora não era uma atitude suspeita, imagino com o que ela estava acostumada.

Seguindo pelos corredores, Fagan acabou chegando aos aposentos privados que pareciam estar ocupados. É, pelo visto tinha alguém ali. Fagan abriu as cortinas do quarto. A claridade entrou e a distinta senhora acordou, encontrando um desconhecido dentro do quarto.

Era Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II.

O encontro foi breve e bastante mais pragmático do que as versões dramatizadas posteriores sugeriram. A rainha perguntou o que ele estava fazendo ali, acionou o alarme, o que ninguém escutou já que a empregada estava passando aspirador e totalmente alheio a bebuns invasores de câmaras reais. Betinha pega o telefone e liga pra polícia… ok, ela não ia se dar a esses lances de plebeus. Ligou pra telefonista e a telefonista ligou pros meganhas do Leão e Unicórnio. Fico até pensando como foi a ligação

– Hello? Yes… Yes.. Y… O QUÊÊÊÊ????????

Depois das ligações, Big Beth chamou uma empregada e juntos conduziram o intruso para outra sala do palácio sob o pretexto de oferecer um cigarro e um copo de uísque. Foi ali, numa despensa do palácio, que Fagan aguardou calmamente a chegada da polícia.

A situação já era constrangedora o suficiente, mas o desfecho jurídico conseguiu ser ainda mais peculiar. “Why?”, askirão vocês. “I’ll explain to you, old mate”, direi eu, obviamente de forma empolada. “Bollocks! Tell us now, for God sake!”, exclamarão vocês. “For the Queen and the Empire”, responderei eu: na época, invadir uma propriedade privada no Reino Unido era basicamente uma infração civil chamada trespass, não um crime penal sério. Na prática isso significava que Fagan só poderia enfrentar um processo se a própria rainha decidisse abrir uma ação por danos, algo que naturalmente não aconteceu. Por algum motivo que me escapa, ela, a Soberana do Império, não queria ficar num tribunal qualquer como se estivesse participando do Programa do Ratinho.

A única acusação possível foi pelo roubo da garrafa de vinho do príncipe. Mesmo essa acabou sendo abandonada quando o tribunal concluiu que Fagan apresentava problemas psicológicos significativos. Em vez de prisão, ele foi internado no hospital psiquiátrico Park Lane, onde permaneceu alguns meses – as fontes variam entre três e seis – antes de ser liberado.

O episódio provocou enorme constrangimento público e levou a uma revisão completa da segurança do palácio. Alarmes passaram a ser levados mais a sério, procedimentos foram alterados e a proteção da família real foi reforçada.

Curiosamente, a legislação britânica só passou a tratar a invasão de propriedades reais como crime específico décadas depois. Em 2005 o Parlamento aprovou o Serious Organised Crime and Police Act, que classificou locais como o Palácio de Buckingham como “designated sites”, tornando sua invasão uma infração criminal.

Michael Fagan acabou se transformando em personagem do folclore britânico. Sua história inspirou livros, documentários e uma recriação dramática na série The Crown.

No fim das contas, o episódio revelou algo curioso sobre segurança institucional. As maiores falhas raramente envolvem planos sofisticados ou criminosos brilhantes. Às vezes tudo o que é necessário é uma janela destrancada, um alarme ignorado e um cidadão londrino que decidiu, numa manhã qualquer, que dar uma volta pelo palácio real parecia uma ideia perfeitamente razoável.

Mesmo porque, foi assim que roubaram a Mona Lisa.

Deixe um comentário, mas lembre-se que ele precisa ser aprovado para aparecer.