
O negrume da noite se espraia pelas terras esquecidas. Não há brilho de estrelas neste lugar e a Lua, mesmo que saindo, se recusa a derramar sobre a terra o seu véu prateado. O frio enregelante acossa as minhas entranhas, mesmo eu estando de pé em frente a imensa lareira. O vento uiva como um lobo espectral e o manto do medo cobre o castelo onde estou. Tremo mais uma vez, o ranger das tábuas velhas ao sabor do vento me deixa inquieto. O ar se torna pesado e o vapor do meu hálito se condensa. O frio se torna mais cruel. O barulho açoita meus ouvidos e as criaturas da noite fazem-se escutar.
Eu não queria estar aqui depois das minhas experiências naquele lugar remoto na Romênia. Aqui, nas geladas terras da Islândia, pensei estar protegido do mal eterno, mas eu não me livrei, pelo contrário! Estou face a face a ele de novo, mas nada vejo. A mão gelada toca minha face e, num instante que pareceu durar uma eternidade, sinto que agora, não escaparei desta vez. Fecho os olhos e rezo, mas Deus não me ouvirá, eu sei disso.
A literatura gótica é, a meu ver, uma das mais fantásticas peças da literatura. A forma coo mesclou mitos antigos e ciência de sua época foi fascinante, e um dos melhores representantes dessa literatura gótica com foque no horror é Drácula, do irlandês Bram Stoker. O que talvez você não saiba é que existe um “Drácula” na Islândia, uma “tradução” não era bem uma tradução. Era mais ou menos como se alguém pegasse “O Senhor dos Anéis”, mudasse os nomes, acrescentasse cenas de sexo, reduzisse o livro pela metade, adicionasse uma pitada de política escandinava e chamasse aquilo de “tradução fiel”.
Péra, isso é Game of Thrones!
De qualquer forma, esta salada foi exatamente isso que aconteceu com Bram Stoker e seu Drácula quando a obra atravessou o Atlântico Norte rumo à terra do gelo e dos vulcões.
A história começa em 1897, quando Stoker publica “Dracula”, aquele tijolão gótico cheio de cartas, diários e telegramas que inaugurou definitivamente o vampiro moderno no imaginário ocidental. O livro faz sucesso moderado, nada estratosférico, mas o suficiente para que outros editores europeus começassem a pensar: “Ora, isso venderia bem traduzido para nosso idioma”. E foi aí que as coisas começaram a ficar interessantes, se é que se pode usar esta expressão.
Em 1899, surge na Suécia uma versão serializada intitulada “Mörkrets makter” (Poderes das Trevas), publicada na revista Dagen. À primeira vista, parecia ser uma tradução honesta do romance de Stoker. As pessoas liam, achavam que estavam consumindo Drácula autêntico, e seguiam com suas vidas. O problema é que ninguém parou para comparar linha por linha porque, convenhamos, quem tem tempo para isso em 1899? Estavam ocupados demais se preocupando com a virada do século e todo aquele pânico do Y1.9K.
Mas a coisa fica ainda mais saborosamente bizarra quando “Mörkrets makter” chega à Islândia. Valdimar Ásmundsson, um escritor, editor e político islandês (porque na Islândia do início do século XX aparentemente você tinha que ser multitarefa ou não era ninguém), decide que a versão sueca precisa de uma “tradução” para o islandês. O resultado, publicado em 1901 com o título “Makt myrkranna”, era tão diferente do original inglês que basicamente se qualificava como fanfic autorizada. Ou não autorizada. Provavelmente não autorizada.
Valdimar não apenas traduziu a versão sueca: ele cortou, editou, reescreveu e acrescentou elementos próprios. O livro ficou significativamente mais curto, ganhou mais cenas de ação, teve uma ênfase considerável em conteúdo sexual (porque aparentemente os islandeses de 1901 eram mais liberais do que imaginávamos) e apresentava diferenças estilísticas marcantes. Era como se alguém tivesse pegado um drama gótico epistolar vitoriano e transformado em um thriller de ação com pitadas de erotismo. HBO, se você está lendo isso, os direitos provavelmente estão disponíveis.
Durante décadas (na verdade, durante mais de um século inteiro) ninguém percebeu que havia algo errado. Os islandeses liam “Makt myrkranna” achando que estavam lendo Drácula. Os estudiosos da literatura ocasionalmente mencionavam a “tradução islandesa” sem dar muita atenção. E o mundo seguia girando, alheio ao fato de que havia um Drácula completamente diferente escondido no extremo norte da Europa.
A reviravolta vem em 2014, quando um acadêmico holandês (porque é sempre um holandês quem descobre essas coisas, não é?) chamado Hans Corneel de Roos decide finalmente sentar e comparar “Makt myrkranna” com o “Dracula” original de Stoker. E aí ele percebe: “Espera. Isso aqui não é a mesma história”. Foi o equivalente literário de quando você descobre que aquele “Rolex” que seu tio comprou em Cancún na verdade é um Rolexx fabricado em algum galpão em Shenzhen.
De Roos mergulha mais fundo e descobre que a fonte não era nem o livro de Stoker, mas sim aquela versão sueca, “Mörkrets makter”. E aqui a trama engrossa: a versão sueca também não era exatamente fiel ao original. Aparentemente, alguém na Suécia teve acesso a notas e rascunhos iniciais de Stoker (ou pelo menos é o que os estudiosos acreditam) e criou uma versão que tinha similaridades com o original, mas com mudanças substanciais e um viés político que não existia no livro inglês.
Pense nisso por um momento: estamos falando de um jogo de telefone sem fio literário que atravessou fronteiras, idiomas e décadas. Stoker escreve em inglês, alguém na Suécia possivelmente pega rascunhos e notas para criar uma versão sueca alterada, e então Valdimar na Islândia pega essa versão sueca e a transforma em algo ainda mais diferente. É como aquela brincadeira de criança onde você sussurra uma frase para alguém e ao final da roda ela virou algo completamente diferente, exceto que aqui estamos falando de um romance inteiro e levou cem anos para alguém perceber.
Quando “Makt myrkranna” foi finalmente traduzido para o inglês alguns anos atrás (ironia das ironias), os estudiosos puderam pela primeira vez comparar adequadamente todas as versões. E aí começou um verdadeiro trabalho de arqueologia literária. Pesquisadores passaram a traduzir e estudar cada versão, tentando descobrir exatamente o que eram as fontes originais, como o livro de Stoker se transformou tão drasticamente, e por que diabos levou um século inteiro para alguém perceber que os livros contavam histórias fundamentalmente diferentes.
A questão toda levanta perguntas fascinantes sobre tradução, autoria e propriedade intelectual em uma era pré-internet, pré-copyright rigoroso, pré-tudo. Na virada do século XX, as fronteiras entre tradução, adaptação e reescrita eram nebulosas de uma forma que hoje nos parece absurda. Imagine publicar hoje uma “tradução” de Harry Potter onde Hogwarts fica no Brasil, Harry se chama João, há cenas românticas explícitas entre os personagens, e metade dos capítulos simplesmente desaparece. Você seria processado antes de conseguir dizer “Wingardium Leviosa”.
Mas em 1901, na Islândia (uma ilha com população minúscula, isolada geograficamente, onde pouquíssimas pessoas teriam acesso ao original em inglês), você podia fazer isso tranquilamente. E fez. E ninguém percebeu. Durante. Cem. Anos.
O caso também ilumina algo interessante sobre como as histórias viajam e se transformam. Drácula, como conceito, é maior que o livro de Stoker. O vampiro conde já era um amalgama de lendas folclóricas, o vampiro de Polidori, Carmilla de Le Fanu e uma série de outras influências. Quando Stoker escreveu sua versão, ele estava participando de uma tradição, não inventando algo do zero. Então talvez não seja tão escandaloso assim que outros escritores tenham pegado sua versão e a transformado em outra coisa. É quase como se Drácula fosse um personagem de domínio público antes mesmo de estar tecnicamente em domínio público.
Ainda assim, há algo deliciosamente absurdo no fato de que gerações de islandeses cresceram lendo uma versão de Drácula que era, para todos os efeitos práticos, uma história diferente. Imaginem as conversas:
“Você já leu Drácula?”
“Claro! Aquele com todas as cenas de ação e sexo?”
“…Como assim?”
Atualmente, estudiosos continuam debruçados sobre as três versões (a inglesa original, a sueca e a islandesa) tentando mapear exatamente o que aconteceu. É um quebra-cabeça literário fascinante, o tipo de mistério que deixa acadêmicos acordados à noite, cafeinados até os olhos, comparando parágrafos em três idiomas diferentes. Alguns propõem que a versão sueca foi baseada em anotações de Stoker que ele compartilhou com o editor. Outros sugerem que o “tradutor” sueco simplesmente decidiu exercer liberdade criativa extrema. E quanto à versão islandesa de Valdimar, bem, essa é claramente um caso de “peguei o que tinha e fiz do meu jeito”.
O episódio todo nos lembra que a história da literatura não é uma linha reta e organizada de obras publicadas e preservadas em âmbar intelectual. É uma bagunça maravilhosa de versões, revisões, traduções, traições, adaptações e apropriações. E às vezes leva um século para descobrirmos que aquilo que pensávamos conhecer era, na verdade, outra coisa completamente diferente.
No fim das contas, “Makt myrkranna” é agora estudado não como uma fraude ou aberração literária, mas como um artefato fascinante por si só. Um livro que existe na interseção estranha entre tradução e criação original, um híbrido que desafia nossas categorias confortáveis de autoria e propriedade intelectual. É Drácula? É outra coisa? É fanfic vitoriana? Sim. Não. Mais ou menos.
E se você está se perguntando se Bram Stoker teria processado todo mundo envolvido se estivesse vivo quando a verdade veio à tona em 2014, a resposta provavelmente é sim. Mas também é possível que, depois da raiva inicial, ele olhasse para “Makt myrkranna”, visse que seu vampiro tinha ganhado vida própria e se transformado em algo novo, e pensasse: “Bem, pelo menos está vendendo cópias na Islândia”.
Afinal, não é exatamente isso que os vampiros fazem? Sobrevivem através dos séculos, adaptam-se a novos ambientes, transformam-se em diferentes versões de si mesmos? Talvez “Makt myrkranna” seja o tributo mais apropriado possível para uma história sobre um ser imortal que muda de forma. O livro simplesmente fez o que seu protagonista faria: atravessou fronteiras, assumiu nova identidade e sobreviveu sem que ninguém suspeitasse.
Pelo menos até que um acadêmico holandês curioso demais resolveu comparar as versões. Como sempre, são os detalhistas meticulosos que arruínam os melhores disfarces.

2 comentários em “Quando Drácula foi para a Islândia e virou outro personagem”