
Normalmente, todo tipo de coisa esquisita, maníaca, assassina e prestes a nos matar vem da Austrália, só que a mais recente esquisitice vem do Burgess Shale, no Canadá, onde pesquisadores identificaram um predador marinho de 506 milhões de anos com características nunca antes vistas. A… coisa é tão bizarra que recebeu até um nome em homenagem a Mothra, o insetão kaiju que enfrentou o Godzilla. No caso, esse ser das profundezas também é um artrópode, mas não um inseto.
Continua sendo feio a dar com pau.
O dr. Joe Moysiuk gosta de coisa velha, muito velha, completamente velha e.. ok, também estranhas. Juntou velho com estranho e ele pode até estudar a sua sogra. Moysiuk é paleontólogo e biólogo evolucionista especializado no estudo dos primeiros animais que habitaram o planeta, e atualmente ele atua como Curador de Paleontologia e Geologia no Museu de Manitoba, onde lidera pesquisas sobre fósseis raros e a evolução dos artrópodes e foi ele quem nos trouxe o M. fentoni. Este ser abissal (o M. Fentoni) foi encontrado nos famosos Xistos de Burgess, no Canadá, um dos sítios fossilíferos mais importantes do mundo. Moysiuk e seu pessoal ficaram impressionados com seu estado de preservação e características inéditas.
A escolha do nome também é curiosa. O apelido original dado pelos coletores de campo era “mariposa-do-mar”, por sua semelhança com o famoso monstro japonês Mothra, que inspirou seu nome científico. E o troçlo é feio, muito feio (mas o dr. Moysiuk também é, então ficou no zero a zero).
Apesar de ter apenas o tamanho de um dedo humano, o Mosura fentoni revela características de um predador formidável. Ele possuía três olhos, garras espinhosas, uma boca circular repleta de dentes e flaps natatórios ao longo do corpo, características típicas dos radiodontes, um grupo extinto de artrópodes primitivos. Entre seus parentes mais famosos está o Camarão de Satã, o Artrópode que veio do sétimo círculo das profundezas do Inferno: o Anomalocaris canadensis, um predador de um metro de comprimento que dominava os mares do período Cambriano.

O que torna o Mosura fentoni único é sua região abdominal segmentada, composta por 16 segmentos compactos revestidos de guelras. Essa estrutura nunca havia sido observada em outros radiodontes e sugere uma adaptação evolutiva inovadora.
Entretanto, a presença de guelras na parte traseira do corpo do Mosura fentoni intriga os cientistas. Essa adaptação pode ter sido essencial para sua sobrevivência em ambientes de baixa oxigenação ou para um estilo de vida que exigia uma respiração mais eficiente. Essa característica também levanta questões sobre como os primeiros artrópodes desenvolveram sistemas respiratórios sofisticados.
Além disso, fósseis bem preservados revelam detalhes internos impressionantes, incluindo traços do sistema nervoso, circulatório e digestivo. Os pesquisadores identificaram lacunas circulatórias, espaços internos onde o sangue fluía livremente, um sistema que ainda é encontrado em muitos artrópodes modernos, como caranguejos-ferradura e tatuzinhos-de-jardim.
Outro detalhe fascinante do Mosura fentoni é sua configuração ocular: dois olhos laterais e um olho mediano. Esse terceiro olho pode ter ajudado na detecção de luz e na orientação no ambiente marinho, funcionando de maneira similar ao que vemos em libélulas modernas. Essa estrutura sugere que o animal poderia enxergar de forma mais eficiente do que outros predadores de sua época.
A pesquisa foi publicada na Royal Society Open Science

Um comentário em “O monstro marinho que respirava pelo rabo tinha 3 olhos e não era australiano”