Pequenos paulistas mostram os segredos das decisões inconscientes

Você já parou para pensar naquele momento exato em que decide se aproximar de alguém numa festa? Aquela fração de segundo em que o cérebro aparentemente sopra “vai lá!” e as pernas obedecem? Pois bem: uma nova pesquisa revela que esse momento de decisão é, na prática, uma mentira bem contada. O cérebro não espera sua permissão, ele começa a preparar o terreno vários segundos antes de você sequer ter a impressão de ter pensado em qualquer coisa. O livre-arbítrio social, ao que tudo indica, tem um departamento de planejamento que trabalha nas suas costas.

A descoberta vem de pesquisadores da Universidade Hebraica de Jerusalém, e o que eles encontraram é simultaneamente fascinante e ligeiramente perturbador: antes de qualquer movimento observável, o cérebro já exibe um padrão distinto de atividade coordenada que se espalha por múltiplas regiões, como se um maestro invisível estivesse afinando a orquestra antes de o concerto começar. E mais: a intensidade desse sinal neural pré-decisório está diretamente relacionada ao quanto o indivíduo é, no geral, uma pessoa sociável. Os mais comunicativos têm o sinal mais forte. Os mais recolhidos, mais fraco. O introvertido e o extrovertido, ao que parece, não diferem apenas no comportamento, mas na amplitude da sua orquestra cerebral.

Imri Lifshitz é estagiário de luxo, digo, doutorando no Edmond and Lily Safra Center for Brain Sciences (ELSC) da Universidade Hebraica de Jerusalém, sob orientação da drª Lilah Avitan (não vou dar link de quem só recebeu o crédito, coo qualquer PhDeus). Lifshitz trabalha na intersecção entre neurociência comportamental, imagem cerebral de alta resolução e análise computacional, tendo sido o responsável por desenvolver o aparato experimental que tornou possível registrar a atividade cerebral de peixe-zebra em tempo real durante interações sociais genuínas, ao nível de células individuais. O estudo contou ainda com a participação de Asia Prag, Netta Livneh, Maayan Moshkovitz e Abeer Karmi, todos membros do laboratório Avitan.

Para investigar como o cérebro converte informação social em ação motora, os pesquisadores recorreram a um personagem improvável: o Danio rerio, o popular paulistinha (alguns chamam de peixe-zebra. Dane-se, vou chamar de paulistinha) dos aquários domésticos. Pequeno, transparente e geneticamente bem-mapeado, o little paulista é o queridinho da neurociência contemporânea por uma razão prática e elegante: permite visualizar, de fora para dentro, a atividade de neurônios individuais em um cérebro vivo e funcionando. Nenhum mamífero oferece esse luxo sem cirurgia. A transparência do animal é, literalmente, uma janela para o pensamento.

Alguns cínicos, sardônicos e debochados falarão que, enfim, pequenos paulistas servem para algo além de perder uma guerra e isso virar feriado, mas eu não vu tocar neste assunto porque nem mesmo eu sei porque estou mencionando este assunto. Só parem de colocar purê em cachorro quente e… ei, qual era o assunto do artigo, mesmo?

Ah, sim! O peixe! Bem, o design experimental criado por Lifshitz e seus colegas foi engenhoso: imobilizaram o paulistinha (o peixe, gente, não o Sílvio Luiz) mas com a cauda livre para se mover; deixaram o coitado diante de um outro peixe que nadava livremente. Enquanto o peixe observador assistia ao colega, microscópios de fluorescência de alta resolução registravam a atividade de seu cérebro inteiro, momento a momento, neurônio por neurônio. Assim, os pesquisadores conseguiram capturar o exato instante em que informação social, chegando pelos sentidos, começa a se transformar em intenção de movimento, antes mesmo de qualquer contração muscular.

O que apareceu nos dados foi revelador. Alguns segundos antes de o peixe se mover em direção ao outro, o cérebro inteiro começava a mudar. A atividade aumentava no pállio, região cerebral associada a comportamentos complexos e análoga, em função, a partes do córtex nos vertebrados superiores. Ao mesmo tempo, outras regiões diminuíam sua atividade. Não havia uma única “central social” piscando verde: havia um padrão coordenado e distribuído, como se o cérebro todo respirasse fundo antes de agir. Os pesquisadores batizaram esse estado de “assinatura neural pré-decisória”. Era possível observar esse padrão se formando e, com ele, prever que um comportamento social estava a caminho, antes de ele acontecer.

Outro achado que merece atenção é a variação individual desse sinal. Peixes com assinaturas neurais mais intensas antes de se aproximar tendiam a ser mais sociáveis em geral, sugerindo que o padrão reflete algo mais profundo do que uma resposta pontual: ele espelha uma inclinação duradoura do animal. O pállio, especificamente, mostrou ser indispensável nesse processo. Peixes com essa região comprometida exibiam comportamento social alterado, confirmando que não se trata de uma correlação casual, mas de uma relação funcional. A motivação de se aproximar do outro, ao que indicam os dados, é gerada ali.

As implicações vão além do aquário. Como estruturas cerebrais homólogas ao pállio dos paulistinhas fofinhos participam da regulação social em mamíferos e, por extensão, em humanos, os achados abrem uma janela para compreender por que algumas pessoas são naturalmente mais gregárias do que outras, e para investigar condições em que o comportamento social é alterado, como o autismo, a esquizofrenia ou certas formas de depressão. A decisão de se aproximar do outro, aparentemente tão humana e carregada de intenção consciente, pode ter suas raízes em um mecanismo evolutivamente antigo e surpreendentemente previsível.

No fim das contas, a próxima vez que você se levantar do sofá para cumprimentar alguém, saiba: seu cérebro já tomou essa decisão há alguns segundos e só te avisou depois, por cortesia. A consciência, como sempre, chega atrasada à reunião que ela mesma convocou.

A pesquisa foi publicada no periódico Nature Communications

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