
Não há nada como a maravilhosa humilhação pública que ultrapassa o constrangimento normal e entra naquele território raro onde a realidade parece ter sido roteirizada por roteiristas bêbados de sitcom política. Um hilário exemplo é trazido pela África do Sul, que entregou ao mundo um desses momentos históricos em que a civilização para ela, olha para a cena e pergunta baixinho: “Mermão, sério mesmo?”
O governo sul-africano preparou um lindo, maravilhoso e cheiroso Projeto de Política Nacional de Inteligência Artificial, mas teve que eliminá-lo, removê-lo e exterminá-lo. Motivo? Ele foi feito via IA, numa reviravolta digna de Shyamalan.
A notícia é de abril e eu estou pouco me fodendo quanto a isso, pois, isso é delicioso demais para deixar de noticiar. Depois de ter sido descoberto que o documento continha fontes absurdamente inventadas, dignas das piores alucinações IAística, as otoridades retiraram a sua política nacional de inteligência artificial de campo. A tosqueira do documento estava recheada de referências acadêmicas completamente inventadas. Não apenas distorcidas mal citadas e/ou “controversas”. Foram absurdamente inventadas, tiradas do reto, criadas com a mesma convicção de um adolescente explicando para a mãe que o cachorro comeu o trabalho da escola enquanto o cachorro claramente está em coma alimentar no sofá.
E aqui entra a beleza quase artística da tragédia: o documento que pretendia regulamentar os perigos da Inteligência Artificial foi, aparentemente, escrito usando IA sem supervisão humana, e aqueles que estavam operando a IA também estavam sem supervisão humana, pelo visto. É como contratar um pirata para redigir o código de ética da marinha. É como pedir ao urubu que organize o setor de conservação ambiental ou chamar um coach quântico para projetar um acelerador de partículas. É praticamente como chamar políticos para cuidarem dos interesses da população.
O projeto foi aprovado pelo Conselho de Ministros em 25 de março e 1º de abril (não farei a piada óbvia), e foi publicado no Diário do Governo em 10 de abril de 2026 para comentários públicos, com submissões abertas até 10 de junho de 2026. Foi aprovado pelos mais altos níveis do governo, incluindo o gabinete do Presidente Cyril Ramaphosa, antes que alguém verificasse se a sua base académica era real.
Daí o portal News24 (que são mãos de vaca e colocaram o artigo atrás de paywall) resolveu fazer algo revolucionário, quase futurista, quase alienígena para padrões burocráticos modernos: verificar se as fontes existiam. E aí o castelo de papelão molhado começou a derreter. Das 67 referências citadas na Draft National Artificial Intelligence Policy, várias simplesmente não existiam. Revistas acadêmicas consultadas responderam, em linguagem diplomática, algo equivalente a: “meu amigo, que merda é essa?”
Os editores do South African Journal of Philosophy, do AI & Society e do Journal of Ethics and Social Philosophy confirmaram que jamais publicaram aqueles artigos. Os autores citados nunca escreveram aqueles trabalhos. Em alguns casos, provavelmente descobriram naquele momento que tinham produzido pesquisas fantasma em dimensões paralelas.
O diagnóstico foi imediato. Alguém jogou prompts numa IA generativa e aceitou o resultado com a serenidade intelectual de quem lê horóscopo financeiro antes de investir aposentadoria em criptomoeda de cachorro. E as IA fazem exatamente isso quando não sabem alguma coisa: inventam. Elas não “mentem” no sentido humano. Mentira exige consciência (i)moral. O modelo simplesmente produz frases plausíveis com a autoestima de um palestrante motivacional e a responsabilidade factual de um bêbado contando vantagem num churrasco.
O mais extraordinário é que o documento percorreu toda a máquina estatal sem que uma única alma viva resolvesse abrir o Google por cinco minutos. O texto passou pelo gabinete, foi aprovado entre março e abril, publicado oficialmente em 10 de abril e encaminhado para consulta pública até junho. Passou por ministros, assessores, consultores, burocratas, especialistas, secretários, digitadores, cafezinhos institucionais e provavelmente umas vinte reuniões inúteis em PowerPoint. E ninguém percebeu que a bibliografia era tão real quanto diploma de coach de masculinidade alfa.
O ministro das Comunicações e Tecnologias Digitais, Solly Malatsi, pelo menos teve a dignidade mínima de não subir num palco para dizer que as citações inexistentes eram “fontes disruptivas descentralizadas”. Em publicação no Twitter, admitiu que a falha comprometeu a integridade da política e classificou o episódio como “inaceitável”.
https://x.com/SollyMalatsi/status/2048431434176553216
Traduzindo do dialeto político para linguagem de gente: “nós terceirizamos o cérebro para um robô autocomplete e agora estamos fingindo surpresa porque ele enlouqueceu.”
E o documento não era pequeno. Era um monumento à ambição tecnocrática. A política previa cinco novos órgãos de governança: Comissão Nacional de IA, Conselho de Ética, Autoridade Regulatória, Ombudsman e Instituto Nacional de Segurança em IA. Porque claramente o que faltava no mundo era mais um batalhão de burocratas produzindo PDFs de 400 páginas para ninguém ler.
Havia ainda um “AI Insurance Superfund”, inspirado no fundo de acidentes de trânsito, para indenizar vítimas prejudicadas por sistemas de IA. O que é maravilhoso porque, no ritmo atual, o primeiro indenizado provavelmente seria o próprio governo sul-africano, vítima de sua própria preguiça institucional automatizada.
O texto também prometia IA nas escolas, supercomputadores, redes 5G e 6G, fibra óptica, internet via satélite e acesso universal à internet tratado como direito socioeconômico. Pena que as fundações intelectuais do projeto foram aparentemente montadas com cola bastão, ChatGPT sem revisão e fé cega na preguiça alheia.
E a África do Sul não está sozinha nesse circo. A Deloitte recentemente teve de devolver dinheiro ao governo australiano depois que um relatório produzido com IA apresentou citações falsas. Mas ali ao menos havia uma empresa privada fazendo consultoria gourmetizada. Já o governo sul-africano estava literalmente tentando escrever as regras para impedir exatamente esse tipo de desastre. É como um bombeiro incendiar o quartel enquanto grava vídeo sobre prevenção de incêndio.
Agora Malatsi promete que o documento retornará com “supervisão muito mais rigorosa”. Excelente notícia, talvez desta vez alguém descubra essa tecnologia revolucionária chamada “confirmar se a fonte existe”. Uma inovação radical, quase ficção científica. Né, Folha? Seu histórico não é lá muito bom nisso, principalmente em termos de escolinhas de educação infantil, né, Folha?
O continente africano, que já enfrenta o desafio monumental de construir infraestrutura tecnológica séria, ganhou agora um exemplo histórico de como NÃO começar essa escalada: entregando o volante ao robô e depois fingindo espanto quando ele dirige o ônibus direto para dentro do barranco com uma bibliografia imaginária no porta-luvas.
Fonte: CNBC Africa

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