Diretora de escola promove Rinha de Criança e por algum motivo estranho deu ruim

Há quem diga que se há uma coisa que o mundo da educação especial absolutamente não precisava, era de uma releitura do Clube da Luta com crianças no papel dos protagonistas e uma terapeuta ocupacional empunhando a função de árbitro. Pois, é, foi exatamente isso que aconteceu em Jonesboro, Arkansas, no estabelecimento artisticamente batizado de The Delta Institute for the Developing Brain, que, ao que tudo indica, estava muito mais interessado no desenvolvimento de certos reflexos do que de certos neurônios. Especificamente os reflexos de socar, estrangular e, quando necessário, calar a boca depois.

A primeira regra da Rinha de Criança e que não se fala da Rinha de Criança, mas alguém deu com a língua nos dentes.

Jonesboro é uma cidadeca de 82 mil habitantes, ou a Rocinha, mas com menos charme e nenhuma personalidade. Uma tia entediada resolveu mandar o Thunderdome infantil em que uma criança entra, dezoito batem, a diretora dá high five, e todo mundo sai com dever de casa de silêncio. Progresso. Inovação pedagógica. Visão de futuro. Paulo Freire orgulhoso, já que isso era uma espécie de luta de classes ou sei lá o que seja.

Mary Tracy Morrison é uma tia de 51 anos, proprietária, diretora e, conforme a promotoria, maestrina absoluta da operação, não cometeu um erro. Não teve um surto. Não “se exaltou num momento difícil”, aquela formulação favorita de advogados de defesa que já desistiram de ter imaginação. Ela organizou, dirigiu, participou e quando um aluno decidiu que socos eram insuficientes e acrescentou estrangulamento ao cardápio, Morrison ofereceu o único feedback pedagógico que considerou adequado: um high five caloroso e entusiasmado. O tipo de cumprimento que, em qualquer outro contexto, celebraria um gol ou uma promoção, e que aqui celebrava uma tentativa de asfixia de um menor cercado por outros dezoito menores sob orientação de um adulto licenciado.


Pela aparência, não é uma boa ideia!

O roteiro completo, gentilmente documentado em vídeo e áudio pelos investigadores que cumpriram mandado de busca depois que a mãe da vítima foi à polícia, é o seguinte: criança de 13 anos é mandada sentar no chão, chegaram 18 colegas e foi dada a ordem para colocar as mãos sobre no moleque e meter a porrada nele, inclusive com objeto não identificado, que permanece sem identificação nos autos porque aparentemente o sistema judicial também tem seus limites de tolerância ao absurdo em um único documento.

Um dos psicopatas chutando e estrangulando a vítima enquanto a diretora aplaude no estilo torcida organizada durante meia hora; e, como grand finale digno de uma mente que realmente planejou tudo isso, a vítima sendo instruída a pedir desculpas aos colegas que a espancaram, seguida de ordem geral para que ninguém, absolutamente ninguém, comentasse o ocorrido com pessoas de fora, já que membros do Clube da Psicopatia não podem falar do Clube da Psicopatia.

Aristóteles dedicou quarenta anos à ética e nunca chegou perto de um problema filosófico dessa magnitude. Kafka escreveu romances inteiros sobre absurdo burocrático e teria fechado o caderno, pedido a conta e ido plantar batatas em silêncio contemplativo se tivesse que processar esta cena.

O pedido de silêncio, aliás, é o detalhe que transforma o episódio de crime hediondo em crime hediondo com competência logística, o que é, de certa forma, ainda pior. Surtos não vêm acompanhados de instrução de encobrimento. Quem manda calar é quem sabe que fez algo que precisa ser calado. Morrison não perdeu o controle, ela exerceu controle total, sobre os alunos, sobre os funcionários presentes, sobre a narrativa posterior, com a precisão de quem fez isso antes ou, no mínimo, pensou bastante a respeito.

E os funcionários, Michael Bean, Kristin Bell e Kathrine Lipscomb, também foram indiciados por terem assistido a partes do espetáculo sem intervir. Todos, por lei, denunciantes obrigatórios, ou seja, pessoas com obrigação legal expressa e inequívoca de reportar exatamente esse tipo de situação às autoridades. É o tipo de omissão coletiva que não nasce do medo ou da confusão momentânea. Nasce de um ambiente onde aquilo havia se tornado, de alguma forma, normal o suficiente para que ninguém achasse que precisava fazer nada a respeito. Reflita sobre isso por um instante. Deixe o peso total dessa frase pousar.

Depois veio a sentença, que deveria ser o momento em que a civilização se redime e não é, porque a civilização, como de costume, chegou atrasada e pedindo desculpas. 30 dias vendo Tyler Durden nascer quadrado, além de 120 dias de tornozeleira e 9 anos de liberdade condicional. Além disso teve a perda de licença profissional, proibição permanente de trabalhar com crianças e avaliação psicológica obrigatória.

A promotora explicou, com toda a seriedade que o cargo exige, que o acordo foi desenhado para poupar as vítimas do trauma de um julgamento público. É… compreensível, humano, até. Mas 30 dias de cana é o que acontece quando você estaciona errado com frequência suficiente para acumular multas, e não o que a maioria das pessoas imaginaria como consequência de organizar um Thunderdome Infantil filmado com dezoito participantes, participação ativa da liderança e tentativa de encobrimento documentada.

O kit de punições complementares chegou com a urgência de bombeiro que aparece depois que a casa virou cinza para verificar se o fogão foi desligado, com aquela energia específica de quem percebeu que algo correu mal e resolveu, heroicamente, fechar a porta do estábulo depois que todos os cavalos já estavam no próximo estado.

O que sobra não é surpresa, porque quem ainda se surpreende com a capacidade humana para a crueldade organizada claramente não leu jornal nos últimos 50 anos. O que sobra é a pergunta que ninguém quer responder em voz alta: como é que uma voltada para a Educação chegou a esse ponto sem que nenhum mecanismo interno, nenhuma auditoria, nenhum colega preocupado, nenhum protocolo de proteção, nada de absolutamente nada funcionasse antes de uma mãe resolver ir à polícia? A resposta, como sempre, é a mais banal e a mais aterrorizante de todas: funcionou até o dia em que parou de funcionar, e até esse dia todo mundo achou que era problema de outra pessoa resolver.

A primeira regra do Thunderdome Pedagógico é que ninguém fala sobre o Thunderdome Pedagógico. A segunda regra é que, se alguém falar, a punição cabe num mês de calendário e vem parcelada em medidas acessórias com cara de seriedade.

Educação transformadora, sem a menor sombra de dúvida. Pelo método mais literal e mais deprimente que a língua portuguesa consegue descrever.


Fonte: Tabloide Murica Fuck Yeah!

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