Caverna na Romênia guarda um pesadelo pré-histórico

Nas profundezas de um lugar esquecido da Romênia, o mal aguarda. A alguns metros abaixo do solo, ela está lá, insaciável, faminta, implacável… e presa no gelo. A monstruosidade que tem cinco mil anos de idade, quando a Idade do Bronze ainda estava engatinhando, os egípcios construíam pirâmides, e nessa caverna já estava dormindo, confortavelmente congelada, uma bactéria com um currículo perturbador: resistência a mais de dez classes de antibióticos modernos, incluindo os remédios que usamos hoje para tratar tuberculose, infecções urinárias e colite.

Ela não estava tentando nos matar, estava só esperando. E agora os cientistas a encontraram, e a notícia é daquelas que você lê e fica olhando pro teto durante alguns minutos.

A Gruta Scărișoara, na Romênia, é uma das maiores cavernas de gelo do mundo e uma espécie de cápsula do tempo geológica. Pesquisadores perfuraram um cilindro de gelo de 25 metros de profundidade numa área chamada Grande Salão, extraindo um registro congelado que cobre os últimos 13.000 anos da história da Terra. No estrato correspondente a cinco mil anos atrás, encontraram o Psychrobacter SC65A.3, uma cepa bacteriana adaptada ao frio que até então era praticamente desconhecida da Ciência. Até aí, tudo ótimo, mas esse “ótimo” só dura até saber que esta descoberta é o tipo de coisa que faz microbiologistas perderem o sono por razões completamente diferentes das que normalmente nos preocupam.

A Drª. Cristina Purcarea é pesquisadora sênior grau I (o que não é pouca merda, embora não se deva dizer isso, mas dane-se, escrevo o que eu quiser) no Departamento de Microbiologia do Instituto de Biologia de Bucareste da Academia Romena. Purcarea obteve seu doutorado em Enzimologia pela Universidade Paris-Sud (hoje Paris-Saclay), na França, em 1995, e desde então construiu uma carreira dedicada ao estudo de microrganismos extremófilos, ou seja, aqueles serezinhos que resistem a tudo, inclusive a um fim de semana numa cidade turística do BrasilCitation Needed, especialmente aqueles adaptados a ambientes de baixíssima temperatura, ou seja 2, nem os curitibanos estão a salvo deles.

O que a equipe de Purcarea encontrou ao sequenciar o genoma do Psychrobacter SC65A.3 foi, para dizer com elegância, desconcertante. A sem-vergonhinha (estou falando da bactéria, já que a drª Purcarea é uma senhora e merece todo o meu respeito) carrega mais de 100 genes relacionados à resistência antimicrobiana. Quando testada contra 28 antibióticos de 10 classes diferentes, ela resistiu a 10 deles, incluindo rifampicina (usada contra tuberculose), vancomicina (reservada para infecções graves por bactérias resistentes) e ciprofloxacina (um dos antibióticos mais prescritos no mundo inteiro para ITU – infecções do trato urinário; nada a ver com cidades megalomaníacas – e infecções respiratórias). A cepa foi também a primeira do gênero Psychrobacter a demonstrar resistência a trimetoprima, clindamicina e metronidazol. Em outras palavras: ela venceu batalhas contra armas que ainda não existiam quando ela foi congelada.

E aqui mora o ponto central, e também o mais elegantemente irônico, de toda essa história: a resistência a antibióticos não é uma invenção da medicina moderna. Não surgiu porque as pessoas pararam o tratamento na metade, nem porque os médicos prescrevem amoxicilina para resfriado (apesar de ser um problema real e grave). A resistência antimicrobiana é, essencialmente, um produto da evolução, e ela tem milhões de anos de vantagem sobre nós. As bactérias convivem entre si há bilhões de anos, secretando compostos químicos para matar umas às outras ou afastar competidoras. Ao longo desse tempo imensurável, as que sobreviveram foram exatamente as que desenvolveram mecanismos para neutralizar esses compostos. Quando os humanos, no século XX, descobriram a penicilina e acharam que tinham inventado a bala de prata, as bactérias já tinham o escudo desde antes do surgimento do Homo sapiens. Darwin não estava brincando quando falou em seleção natural: cada geração bacteriana que morria deixava para as sobreviventes o legado do gene da resistência, até que esse gene virou parte do kit padrão do microrganismo bem-adaptado.

O Psychrobacter SC65A.3 é o exemplo perfeito desse processo. Vivendo num ambiente extremo onde a competição por recursos é feroz e os compostos antimicrobianos naturais circulam livremente entre os microrganismos da caverna, ele foi moldado pela seleção durante milênios. Não precisou de nenhum hospital. Não precisou de nenhuma prescrição médica. A evolução fez o trabalho com uma eficiência que qualquer engenheiro farmacêutico invejaria.

Agora, a parte em que você pode rir nervosamente: com o aquecimento global acelerando o derretimento de geleiras e cavernas de gelo ao redor do planeta, bactérias com esse perfil podem ser liberadas no meio ambiente em escala. A maioria é inofensiva para humanos, até onde se sabe, e a Psychrobacter SC65A.3 especificamente é um psicrofílico, amante do frio, completamente desinteressada no corpo humano como habitat, até onde se sabe. Mas os genes de resistência que ele carrega não ficam presos nela. Bactérias têm um truque evolutivo notável chamado transferência horizontal de genes: elas podem compartilhar pedaços de DNA entre si mesmo sem nenhum parentesco, como se distribuíssem pendrives com instruções de sobrevivência numa rave microbiana. E se esses genes migrarem para bactérias que já causam doenças em humanos, o resultado seria adicionar novos superpoderes a inimigos que já são difíceis de combater. Alguém chamou? Ah, é o Apocalipse, chegando do frio e sem avisar.

Não há motivo para pânico imediato, até onde se sabe, mas há motivo para atenção. A comunidade científica já vinha monitorando vírus de 48.000 anos sendo reativados em permafrost siberiano, e agora somamos ao repertório bactérias de cinco milênios com arsenal genético invejável. A boa notícia, e ela existe, é que a mesma cepa que assusta também encanta. O genoma do Psychrobacter SC65A.3 revelou quase 600 genes com funções ainda desconhecidas, um território inexplorado que pode esconder processos biológicos inteiramente novos. Mais ainda: foram identificados 11 genes com potencial para matar ou inibir outras bactérias, fungos e vírus. A própria criatura que resiste aos nossos antibióticos pode fornecer as ferramentas para criar os próximos.

É a lógica cruel e bela da natureza: o mesmo lugar onde encontramos o problema é onde provavelmente encontraremos a solução. Purcarea e sua equipe deixam claro que a abordagem precisa ser cautelosa, com protocolos rigorosos de laboratório e medidas de segurança para evitar dispersão não controlada desses microrganismos. Mas a mensagem científica mais profunda aqui vai além do susto de manchete: estudar bactérias antigas preservadas em gelo é uma janela para entender como a resistência antimicrobiana se desenvolveu na natureza, muito antes de qualquer antibiótico sintético, e isso é conhecimento que pode ser decisivo no combate a uma das maiores crises de saúde pública do século XXI.

A bactéria dormiu por cinco mil anos. Agora está acordada, sequenciada, analisada e, por enquanto, contida num laboratório em Bucareste. Mas o gelo lá fora continua derretendo. E a Evolução nunca para.


Fonte: Frontiers in Microbiology

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